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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Perda, empatia e gente tosca no facebook

Olá.

Então.

Este texto era para ser uma resposta para um post que apareceu no meu facebook hoje, 14/01/2016, mas acabei decidindo que fazia mais sentido colocá-lo aqui.

Primeiro, um pouco de contexto: o ator Alan Rickman faleceu hoje, vítima de câncer. Estou sinceramente triste com isso, pois realmente admirava o trabalho dele em Harry Potter e em Die Hard.

Alguns dias atrás, em 10/01/2016, foi o músico David Bowie quem faleceu, também vítima de câncer. Ainda estou triste com isso, pois realmente gostava de diversas das suas músicas.

Tendo dito isto, nenhuma das duas mortes me deixou, digamos, arrasado. Eu gostava e admirava muito tanto eles quanto seus trabalhos, mas não foi tão forte, para mim, quanto o falecimento de Sir Terry Pratchett e de Satoru Iwata-san.

Mas não é por isso que eu vou criticar ou desmerecer a dor que muita gente está sentindo nestes dias.

Porque eu tenho certeza que, para muita gente, a perda desses dois artistas provavelmente está sendo tão, ou até mais, dolorosa quanto a morte do meu autor favorito e de um dos meus desenvolvedores favoritos de games foi para mim.

Sério, podem chorar, ficar bravos, descarregar a frustração no twitter, postar longas declarações de amor e perda no facebook, que eu imagino como deve estar doendo. Se fazer isso ajuda, faça. Eu vou ler tudo o que vocês postarem. É só eu conseguir achar, porque internet.

A única coisa que eu não admito, e que apareceu no meu facebook, e que está me enfurecendo, são pessoas relativizando a dor alheia com declarações como “milhares morrem todos os dias” ou “mas ninguém aqui está derramando uma lágrima sequer pelas crianças morrendo na África” ou “ninguém é melhor que ninguém, não chorem por ele”.

Não faça isso.

Não desmereça ou despreze a dor alheia, ainda mais quando ela vem do falecimento de alguém.

Para começar, fazer isso é uma das coisas mais escrotas e desprezíveis que alguém pode fazer. Imagino que quem faz isso o faz como uma demonstração de poder, mesmo que não perceba. Me parece que essas pessoas querem esfregar na cara do mundo que “há, não estou triste, essa morte não me afeta, sou melhor que vocês!”

Não. Errado. Você não é melhor que ninguém, só está agindo como um sociopata desagradável, um bostinha chamando atenção.

Esse é um grande problema da nossa sociedade, nós valorizamos demais a ausência de sentimentos. Sentimentos ainda são vistos como fraquezas, e aquele que menos sente mais forte aparenta ser. Isso me parece ser um reflexo do sexismo arraigado na sociedade, que “homem não chora”, e como ser homem é melhor, chorar é ruim.

E isso é uma merda. Eu acredito muito que iríamos ser pessoas mais saudáveis e ter relacionamentos mais significativos se fossemos um pouco mais honestos com nossos sentimentos (sim, eu sou um ser meloso auto-ajuda), mas, infelizmente, ainda não conseguimos fazer isso. Parar de desmerecer a dor alheia seria um ótimo primeiro passo para termos uma sociedade mais emocionalmente saudável.

“Ah, mas as pessoas que estão afirmando isto não o fazem para desmerecer a dor dos outros, mas sim o fato dessas pessoas estarem tristes por alguém que elas nunca conheceram! Elas só estão tristes porque morreu um artista famoso.”

Então.

Não justifica.

Na verdade, é ainda pior, de certo modo.

Porque essa crítica, se é que posso chamar isso de crítica, está ignorando o papel e o poder da arte na vida das pessoas.

Arte é criada a partir de idéias e sentimentos para nos fazer refletir e sentir. Seja um livro, um filme, uma música, uma pintura ou mesmo um videogame. Arte enriquece a vida das mais diversas maneiras, podemos dizer até que é algo que faz viver valer a pena.

Quando uma obra nos toca, nos emociona, ou mesmo nos faz repensar nossas idéias e nossa visão de mundo, nós a vinculamos com nossa própria personalidade, com nossa auto-imagem, e sentimos, com isso, uma conexão profunda com o artista que a criou.

É por isso que ficamos tristes quando alguém que criou algo importante para nós morre. Nós sentimos como se essa conexão tivesse sido cortada. Esse artista, que nos ajudou a entender mais sobre nós mesmos, cujo trabalho se tornou uma parte importante da nossa identidade e que parecia que sempre estaria lá, com uma obra nova, enriquecendo nossas vidas, de repente, se foi.

E isso dói. Muito.

Não importa que nunca o conhecemos ao vivo, ou que não temos nenhum grau de parentesco. Essa conexão criada através da arte é algo muito profundo, um laço muito importante para nossas vidas.

Por isso que é um comportamento lamentável criticar aqueles que sofrem com a perda de um artista. Porque você não apenas está sendo insensível com a pessoa que está sofrendo, você também está sendo obtuso e ignorante com o poder e o valor da arte na existência humana.

Agora que estou pensando, é capaz de que quem critica aqueles que sofrem pela perda de um artista nunca tiveram esse tipo de experiência. Nunca viram ou ouviram ou vivenciaram uma obra de arte que a tocou profundamente, que enriqueceu a vida dela. Talvez eu não devesse estar furioso com essas pessoas, mas sim triste por elas.

Porque não deve ter nada mais triste que viver uma vida sem arte.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Jessica Jones, uma super-heroína

Olá. Faz tempo que não escrevo aqui, não? É que o blog sobre games tem consumido todo meu tempo livre para escrever nos últimos tempos (tenho um blog sobre games, aliás, visitem-no).

Mas surgiu um assunto que eu realmente quero escrever sobre e que não tem a ver com games, por isso aqui estou. Antes de começar, porém, alguns avisos:

1 - SPOILER ALERT! Se você não viu Jessica Jones e não quer spoilers, não leia este texto ainda. Não pretendo pôr muitos spoilers, na verdade, mas vão ter alguns inevitavelmente. Sem contar que o que é spoiler para alguns não é nada de mais para outros, então prefiro deixar avisado que vai ter spoilers de qualquer jeito.

2 - Outras pessoas, provavelmente mais inteligentes e com mais autoridade do que eu, já devem ter discursado sobre o tema deste post em diversos outros momentos da história da humanidade. Mas eu quero dar a minha mijadinha intelectual aqui para marcar como meu o território referente ao assunto, então me deixem em paz para falar disto.

3 - Não li Alias, a série em quadrinhos que inspirou a série no Netflix, então é bem capaz de eu falar alguma bobagem sobre a personagem. Na real, nunca fui muito de ler HQs de super-heróis em geral, o que tira ainda mais credibilidade do que eu vou dissertar aqui. Mas sou um grande fã dos filmes e séries de super-heróis que andam saindo (mais as da Marvel, mas tenho muita curiosidade em ver o Flash).

4 - Este post não é uma indireta específica para ninguém em especial, só para a Thaísa do RH. Então, se você não é a Thaísa do RH e sentir que este post é sobre você, desculpa, não era a intenção te ofender, espero apenas que este post te ajude a refletir. Agora, se você é a Thaísa do RH, você está claramente errada e eu estou certo.

Ótimo, chega de avisos, vamos logo para o assunto:

O(s) tema(s) de Jessica Jones




Jessica Jones é muito bom. Muito mesmo. Espetacular. Não me considero um grande crítico de obras audiovisuais, mas senti que todos os atores mandaram muito bem, que os roteiros eram fantásticos, que a fotografia ficou foda e que praticamente tudo funcionou. Eu até tenho algumas pequenas críticas para pequenos detalhes da série, mas vou deixar elas fora deste texto que elas não vão acrescentar muito aqui.

De qualquer maneira: eu gostei pra cacete da série. Mais até que do Demolidor, virou a minha série de TV não animada favorita de super-heróis (ainda tenho um carinho nostálgico muito forte pela série animada do Batman). E eu sei que não fui o único a adorar a série, pois vi muita gente, tanto críticos quanto pessoas normais (vocês entenderam o que eu quis dizer com esta comparação) falando muito bem da série.

Mas eu vi um certo discursinho surgindo sobre Jessica Jones que me irritou profundamente:

“Jessica Jones não é uma série sobre super-heróis, é sobre relacionamento abusivos/abuso sexual.”

Muito bem.

Então.

Seguinte.

Antes que alguém queira gritar na minha cara, deixem-me esclarecer o que me irrita nessa frase.

Comecemos com a segunda parte da frase: relacionamentos abusivos/abuso sexual.

Sim, este é um dos, ou melhor, é O Principal Tema de Jessica Jones™. Não tem nem o que discutir, o comportamento do Kilgrave é praticamente um espelho de um parceiro abusivo, se colocando como um tipo de salvador da Jessica, e tratando todas as merdas que ele fez (e ainda faz) como se fossem um mimo, um agrado, para ela, sem perceber como ele está sendo intrusivo, violento e escroto. E, vendo o stress pós-traumático da Jessica, não tem como não perceber os paralelos com vítimas reais de abuso. Sem contar que eles tiveram a coragem de ir até o ponto mais crucial e horrível desse tipo de história, que é a reação das pessoas ao redor. Ninguém acreditava no que tinha acontecido com a Jessica e com a Hope, pelo menos não até ter acontecido com eles mesmos. Sério, se você não percebeu que este era O Principal Tema de Jessica Jones™, assista de novo prestando mais atenção.

E, só porque eu sinto que tenho que admitir isto, percebi que eu mesmo já fiz ou pensei em fazer algumas das escrotices do Kilgrave. Fiquei com um certo nojo de mim mesmo em alguns momentos da série, pra dizer a verdade.

Tipo o porão do meu apartamento, onde guardo todas as fotos da minha namorada. Espero que ela nunca descubra.

Mas enfim, não sou alguém com a capacidade ou a autoridade de aprofundar sobre algo tão complexo quanto O Principal Tema de Jessica Jones™ (apesar de que vou retomar o assunto mais pra frente).

O que eu quero dizer com tudo isto é que não é a parte sobre relacionamentos abusivos/abuso sexual que me irritou na citação acima.

O que me irritou foi a desconsideração pelos super-heróis.

Que super-poderes e heroísmo são, sim, temas de Jessica Jones.

Super-poderes para dar e vender


Qual foi a parte onde um cara pega uma serra circular Bosch e tenta serrar o próprio abdome e não acontece nada que você não percebeu que demonstrava a existência de super-poderes na história? Ou a moça que pula facilmente até o segundo andar de um prédio? Ou o cara que controla a mente dos outros só falando?

Sério, Jessica Jones fica alardeando a presença de super-poderes na série como se não houvesse amanhã. Acho até que tem mais super-poderes por página de roteiro em Jessica Jones que nos filmes do Capitão América, e num deles tem o Agente Smith Elrond Hugo Weaving com uma cabeça vermelha como se fosse uma caveira viva. (Nossa, é daí que vem o nome dele nos quadrinhos, o Caveira Vermelha! Que coisa.)

Além disso, é a super-força da Jessica que alimenta um dos principais questionamentos da personagem, sobre ela se tornar ou não a heroína que a Trish quer que ela seja (sim, tem toda a questão dela questionar os próprios valores morais, assim como o sentimento de culpa por ter matado a Reva, mas convenhamos: sem sua super-força, ela não ia ficar se cobrando tanto sobre se tornar uma heroína) (pelo menos na minha opinião).

E, é óbvio, os poderes do Kilgrave, que só fazem a história existir.

O que eu quero dizer é: Jessica Jones não apenas possui super-poderes, super-vilões e super-heroínas, como super-poderes fazem parte das motivações dos personagens e da estrutura da história. Falar que a série não é sobre super-heróis é uma afirmação tola, para dizer o mínimo.

– Mas, Vitor, – diz uma voz vinda do RH – a pessoa que fez tal afirmação só estava querendo fazer uma hipérbole com o objetivo de chamar a atenção para O Principal Tema de Jessica Jones™, que é algo importante de ser discutido em cultura pop e na sociedade como um todo!

Ok. Tudo bem. Se tem uma coisa que eu sei muito bem como funciona, é o uso de hipérbole na internet com o objetivo de chamar a atenção e manipular um discurso. E, de fato, O Principal Tema de Jessica Jones™ é infinitamente mais importante do que super-poderes, tanto culturalmente quanto socialmente falando.

Mas isso não muda o fato que essa hipérbole despreza o valor dos super-heróis, e eu acho que fazer isso só ajuda a piorar a discussão em torno d’O Principal Tema de Jessica Jones™.

O valor dos super-heróis


Comecemos admitindo o óbvio: super-heróis, ou pelo menos o conceito moderno de super-heróis na cultura pop (porque, se perguntar pra mim, personagens mitológicos como Hércules, Isis e Jesus são super-heróis também), nasceram como uma diversão para crianças. As histórias eram simples, coloridas e fantásticas, valores considerados até hoje exclusivamente infantis (por mais que não sejam, mas isto é assunto para outro dia), deixando esse estigma nas histórias de super-heróis como coisa de criança. Por isso que quando sai uma obra mais adulta ou com temas mais sérios envolvendo super-heróis, uma das primeiras reações de quem não conhece o assunto é dizer que nem parece ou que não é uma história de super-heróis.

Só que acontece o seguinte: super-heróis não são uma coisa só para crianças. Faz tempo. Ou vocês acham que a bilheteria dos filmes da Marvel consistem apenas de pais levando os filhos pro cinema? Claro que não. Super-heróis conquistaram diversas pessoas, das mais variadas idades e origens.

A questão é que super-heróis, na minha opinião, vão além de ser um tema ou um gênero de história: eles podem ser um instrumento diegético. Ou seja, super-heróis podem ser utilizados como um elemento do universo como outro qualquer para passar seu tema principal, sem necessariamente ser o foco central da narrativa.

Vou tentar dar um exemplo do que eu estou pensando com outra coisa que eu sinto que pode tanto ser um tema quanto um instrumento diegético (guardadas as devidas proporções): guerras.

O que você considera um filme de guerra? Um que foca nos soldados? Um que relata a sobrevivência dos civis envolvidos? Nós devíamos ensacar todos os filmes que envolvem alguma batalha de algum tipo no mesmo gênero também? Guerra nas Estrelas é tematicamente parecido com Nascido para Matar?

Não. Claro que não. Por mais que existam trocentas histórias sobre guerras, o foco varia muito. As mensagens que essas histórias buscam passar variam muito. Em muitas, a idéia é simplesmente narrar a superioridade do lado vencedor (pensem nas epopéias clássicas), em muitas outras o objetivo é mostrar a dor e o sofrimento dos sobreviventes. Histórias de guerra podem tanto focar no egoísmo e no lado negro dos seres humanos, assim como podem mostrar o lado bom da humanidade, onde alguns fazem o que podem para salvar a maior quantidade de pessoas possível.

Super-heróis, para mim, podem ser o mesmo (novamente: guardadas as devidas proporções).

Posso criar uma história onde o foco é nesse indivíduo especial que obtém super-poderes e como seus super-poderes o deixam super-poderoso? Posso. Mas eu também posso criar uma história que trabalha os problemas do vício, como isso afeta a vida de uma pessoa, mesmo que ela tenha super-poderes. Uma história sobre preconceito e racismo, onde os indivíduos com super-poderes são excluídos da sociedade. Uma história sobre encarar a própria morte, ainda mais quando se tem super-poderes e você é um ícone para muitos. Ou mesmo uma história de assalto com elementos humorísticos onde o assaltante possui super-poderes.

Se depois de ver esta página, que é a melhor história já escrita sobre o Super-Homem,
você ainda não ver o potencial diegético de super-poderes, vai enfiar a cara na privada.

E, é claro, uma história sobre relacionamentos abusivos e abuso sexual, onde os super-poderes do estuprador funcionam bem como metáfora para os poderes que a sociedade dá para aqueles que estão em posição de superioridade e cometem abusos.

Deu pra entender porque Jessica Jones é, sim, uma história de super-herói, ou melhor, uma história de super-heroína? E que isso não diminui, em absoluto, a qualidade da série?

Vou presumir que vocês responderam “sim”, até para eu poder continuar o texto e trabalhar a outra parte da questão toda: a importância de uma história de super-heroína abordar o tema de abuso sexual e relacionamentos abusivos.

Apresentando O Principal Tema de Jessica Jones™ para quem mais precisa entendê-lo


Vou fazer a próxima afirmação sem ir atrás de dados estatísticos que a comprovem, mas imagino que não precisarei deles para estar certo: o principal público consumidor das histórias de super-heróis, historicamente falando, sempre foi masculino.

Não estou falando que não existiam consumidoras do sexo feminino, mas sim que a maioria era masculina.

Isso, infelizmente, gerou uma conseqüência um tanto desagradável: muitas histórias de super-heróis sempre tiveram um forte cunho sexista. Na verdade, agora que estou pensando, não sei dizer se o sexismo existente na maioria das histórias de super-heróis foi conseqüência do principal público consumidor ser homem ou se ele foi usado nas histórias justamente para atrair o público masculino. Provavelmente foi uma mistura das duas coisas, com uma pitada de “a sociedade em que vivemos é sexista”.

Acho que podemos acrescentar uma dose de “burrice crônica”
e “completa falta de noção” na conta.

A questão é: histórias de super-heróis não são aquilo que eu chamaria de igualitárias na questão de gênero (nem de raça e nem de orientação sexual, mas essa deixemos essas discussões para outro dia).

A situação está melhorando nos últimos anos, mas ainda têm muitos problemas para serem resolvidos, tanto do lado da produção quanto do lado dos consumidores.

Com isso em mente, posso voltar a falar de Jessica Jones.

Para começo de conversa, a personagem principal de Jessica Jones é uma mulher (dã). Mais do que isto: é uma personagem complexa, com forças, fraquezas, virtudes e vícios. Pode parecer estranho, mas ter uma mulher retratada como um ser humano complexo já é um feito por si só. E não é só ela, temos também sua irmã adotiva/melhor amiga e sua advogada, outras personagens femininas com uma profundidade maior que o pires rosa usado normalmente para personagens assim.

Em seguida, temos o fato que todas essas mulheres não são desnecessariamente sexualizadas só para prender a atenção da audiência masculina na base da ereção. Se alguém foi sexualizado na série, foi o Luke Cage (aaaaabs), e nem foi muito exagerado. Só um pouquinho.

Para finalizar, temos O Principal Tema de Jessica Jones™.

Novamente, não me sinto com a capacidade ou a autoridade para aprofundar o assunto, mas só quero lembrar que o modo como a nossa “civilização” trata o assunto é terrivelmente escrota e sexista: temos a horrível tendência a duvidar e culpar a vítima (tipicamente uma mulher) e a justificar e atenuar as motivações do criminoso (tipicamente um homem). Mas, como já falei antes, Jessica Jones soube trabalhar bem o assunto e escancarar a canalhice do abusador (Kilgrave), a dor e o sofrimento das vítimas (Jessica, Hope e mesmo o Malcolm e o Simpson, entre outros) e a atitude escrota das pessoas em volta (Jeri, Luke, Clemons, etc).

Resumindo: Jessica Jones é uma história que soube representar mulheres como seres humanos e não como objetos e ainda trabalhou de maneira inteligente e realista (mesmo com super-poderes) um assunto que possui um forte viés sexista na sociedade, passando uma mensagem feminista importantíssima para as pessoas pensarem e analisarem sobre si mesmas.

E isso tudo é ainda mais importante porque Jessica Jones é uma história de super-heroína.

Porque ela representa uma evolução das histórias de super-heróis.

Porque ela é outro passo importante na questão de representatividade nas histórias de super-heróis.

Porque ela atinge um público que nunca teve muito acesso a obras desse tipo.

Porque ela amplia e apresenta para mais pessoas o potencial desse instrumento diegético que são os super-heróis.

Tirar isso de Jessica Jones, tirar da série a classificação de “história de super-herói” não a faz melhor, apenas reduz a importância histórica dela dentro da evolução das histórias de super-herói.

Apenas a diminui.

Conclusão


Super-heróis, super-vilões e super-poderes não são uma coisa inerentemente incultas ou pobres (narrativamente falando), eles são um instrumento diegético que, nas mãos certas, funcionam muito bem para criar analogias e metáforas com o mundo real e, assim, refletirmos sobre ele.

Infelizmente, esse instrumento foi, por muito tempo, usado para criar narrativas com um forte viés sexista e focadas num público-alvo masculino.

Mas a situação está melhorando. Novas histórias estão surgindo e tendo um tom mais inclusivo e igualitário.

Histórias como a de Jessica Jones.

Não sei se esta série vai ser realmente um grande marco da evolução da representatividade feminina em histórias de super-herói, ou sequer se ela realmente vai fazer uma grande diferença cultural em como lidamos com O Principal Tema de Jessica Jones™.

Mas uma coisa eu sei: Jessica Jones é uma história de super-heroína feminista que aborda uma questão social séria.

Tirar qualquer parte desta afirmação serve apenas para tirar mérito da série ou demonstrar sua ignorância.

E me irritar. Vocês não querem me ver irritado.

E aí? Já estão com medo?

terça-feira, 7 de abril de 2015

Engenharia, design e cabos de força

Olá. Este vai ser um post bem “first-world problem”, mas eu tenho que descarregar o meu ódio no coração, Ikki.

Esta história começa ainda ano passado, em novembro de 2014, quando meu Hard Drive externo de backup morreu. Resolvi, então, arranjar dois HDs de backup substitutos: um para o Time Machine (o software de backup que vem com o OSX), como o antigo, e um para eu clonar com o Carbon Copy Cloner. Caso queiram saber o porquê de arranjar esses dois, o motivo é que eles suprem necessidades diferentes, porém complementares: o do Time Machine é um tipo de versionador, que mantém todas as versões dos meus arquivos salva para que, caso necessário, eu ache versões antigas de arquivos meus; já o clone é para ser um HD de boot para eu conseguir ligar o meu computador caso meu HD principal morra e assim eu conseguir trabalhar no computador (hahaha, trabalhar, claro) até conseguir substituir o HD principal. O ideal seria que eu ainda tivesse uma solução de backup online, que supre a emergência chamada “incêndio”, mas tô com preguiça no momento, sem contar o custo.

Enfim, comprei os HDs num dos xing-lings da Paulista (não tenho mais saco de passear pela Santa Ifigênia e nunca fui muito fã do Mercado Livre, antes que vocês me julguem por pagar um pouco mais caro por hardware) (agora que acabei de escrever esta expressão, “xing-ling”, que percebi como ela é preconceituosa. Aceito sugestões de substitutas, mas a melhor que me ocorre por enquanto é “stand center”, em homenagem ao falecido) e, ao voltar para casa, tive que encarar um dos meus grandes traumas: cabos e mais cabos e mais cabos. E mais cabos. Cabos.

Não sei dizer exatamente quando, mas a partir de um certo ponto da minha vida resolvi manter os cabos do computador e etc minimamente organizados, prendendo sobras com braçadeiras plásticas e tagueando tudo com fita crepe ou similar. Não conseguia deixar no nível que algumas pessoas mais obsessivas, mas ficava contente com os meus resultados.

Só que eu sempre tive um grande arqui-inimigo nessa coisa toda de organizar os cabos: os adaptadores de corrente alternada, ou como eu sempre chamei, os “power bricks”.

Se ao menos eles perdessem seus poderes de maneira estúpida, ia ser ótimo.

Mais especificamente, os power bricks tipo wall wart (daqui em diante chamados de PBWW).

Seguinte: esses PBWW são uma grande merda. Uma merda gigantesca. Eles são um ótimo exemplo daquilo que eu chamo de Produtos Projetados Para Ninguém™, onde o pessoal que cuidou de desenhar isso não levou em conta como as pessoas usam o produto. Antigamente chamava coisas assim de Produto Projetado Por Engenheiros™, e antes disso chamava de Produto Projetados Por Desãããinnn-ers™, mas hoje em dia eu sei que muita coisa tosca por aí não é culpa nem do engenheiro nem do designer, provavelmente é culpa do pessoal de vendas, do chefe ou, na gigantesca maioria dos casos, do cliente.

Enfim, para melhor justificar porque eu acho os PBWW uma grande merda, vou falar um pouco do meu escritoriozinho aqui, onde crio estas peças de texto que vocês encontram neste blog.

Comecemos listando o que tenho aqui que precisa de uma tomada: um iMac, um modem, um roteador wi-fi, uma multifuncional, um hub USB e, desde novembro passado, dois HDs de backup. Total: sete.

Alguém aqui tem sete tomadas enfileiradas em casa, uma do lado da outra?

Não. Ninguém tem. É óbvio que ninguém tem.

Tudo bem, também é preciso ressaltar que nem todo mundo tem sete aparelhos para plugar na tomada, imagino que a maior parte das pessoas fique na casa dos três (PC, modem e impressora), mas ainda assim é difícil conseguir uma tomada exclusiva para cada aparelho.

Mas é preciso conectar tudo na tomada.

Solução? Benjamins. Extensões. Estabilizadores. Filtros de linha. Gambiarras. Aquela maravilha.

No meu caso, a solução foi um no-break (aliás, sabiam que no-break é o nome que brasileiro deu para essa coisa, e que o nome em inglês é completamente diferente - Uninterruptible Power Supply, ou UPS?) com alguns benjamins (meu no-break só tem quatro entradas e tenho sete aparelhos, caso tenham esquecido). Por muito tempo foi um estabilizador, mas um dia perdi trabalho por causa de uma queda de energia e aprendi a lição e arranjei um no-break.

Só que aí aparece meu grande arqui-inimigo, meu nêmesis, minha pedra no sapato, minha fonte de fúria incontrolável: os PBWW.

A parte de trás do meu no-break…

…onde tenho que encaixar estes quatro PBWW do apocalipse, além de outros plugues minimamente inteligentes, mas…

…acontece isto.

Ahem.

Essa merda egocêntrica de PBWW é tão metida a estrelinha brilhante que brilha lá no céu que ocupa de duas a três tomadas da merda do no-break! Puta que pariu! Tá se achando a porra da última bolacha do pacote, sua bosta? Tá se achando a foda? Sinistra? Avassaladora? No escuro é um perigo? Caralho! Você é só a porra do plugue da merda do hub usb, porque cacetaralho você tem que ocupar toda a existência com sua mesquinharia galopante? Caralho! Porra! Cu! Cacete! Merda! Cocô! Xixi! Toba! Aaaaaaaaaaah!

[Respira fundo]

Ah…

Ok.

De volta à historinha.

Fiz do jeito que deu a conexão da coisa toda, criando uma lambança horrorosa de benjamins e extensões que parecia que ia explodir a qualquer momento quando alguma coisa soltasse uma fagulha elétrica indesejada, mas enfim, foda-se, tava tudo plugado e funcionando.

arranjamos gatos de estimação.

E eles ADORAM a parte de trás do computador. É um tipo de Disney para os gatos, eles adoram passear sobre todos os cabos, principalmente aqueles que estão super-não-bem presos no benjamim que está plugado na extensão que conecta na tomada mais exposta do no-break.

Ou seja, fiquei com um puta cagaço dos gatos causarem uma explosão no no-break e tacarem fogo em tudo, inclusive neles mesmos.

O que me trouxe de volta à minha eterna briga com os PBWW. Esses malditos. Os PBWW, não os gatos. Vocês entenderam.

A origem do problema com os PBWW é que temos uma falta de conversa entre o pessoal dos produtos eletrônicos (que precisam de adaptadores de corrente alternada) e o pessoal das soluções elétricas (no-breaks, extensões, etc). E este problema de comunicação nasce do fato dos dois grupos terem o mesmo briefing:

“Faça o produto mais slim possível.”

Os designers/engenheiros de produtos eletrônicos estão sempre tentando diminuir o tamanho de suas criações. Só que, ao mesmo tempo, essas maravilhas tecnológicas continuam precisando de energia elétrica do jeito certo, o que gera a necessidade de um adaptador de corrente alternada, senão o troço não vai. E essa porra de adaptador é enormemente gigantesca. Solução: esconder o adaptador no cabo, já que a foto do produto que vai na caixa e nas campanhas publicitárias nunca mostra o cabo do maldito.

Já os designers/engenheiros de soluções elétricas querem entrouxar (essa palavra existe de verdade! Eu sempre usei ela me achando o Guimarães Rosa, como se tivesse inventado ela. Grande lição de humildade para mim, vivendo e aprendendo) a maior quantidade de tomadas nos seus produtos, mas sem deixar o aparelho do tamanho de um frigobar. Resultado: um monte de tomada, uma do lado da outra, apertadinhas como sardinhas numa lata.

Daí, quando o consumidor quer plugar seus produtos eletrônicos na sua solução elétrica (nota mental: usar essa expressão como eufemismo para sexo em um post futuro), ele não consegue aproveitar todas as tomadas extras porque algum imbecil concluiu que o melhor lugar para esconder o adaptador era na porra do plugue.

E assim chegamos na parte que mais me irrita nesta história toda, e que vocês provavelmente estão pensando: já existe uma solução para este problema.

É só pôr a porra do adaptador no meio do cabo (ou próximo ao final do cabo), deixando o plugue com um tamanho aceitável. Óbvio.

Ó-BÊ-VÊ-Ô!

Aqui um exemplo inteligente de posicionamento de power brick, feito pela HP (dando crédito para quem merece).

Mas nãããããããooo, temos que ser especiais e fazer o plugue gigante para nosso produto não-tão-fundamental-assim ficar pequeno (e nem sempre bonito, tem muito produto eletrônico que é minúsculo e horroroso) e ocupar três tomadas da solução elétrica do consumidor.

Adivinha só: vocês não são especiais. São só uns imbecis que não pararam para ver como o consumidor usa os seus produtos. Provavelmente nem pensaram no cabo de força, só mandaram a fábrica chinesa fazer a opção mais barata e ligaram o botão do foda-se. Seus merdas.

E não é a única solução, já que também tem a “meu produto é grande sim, e daí”, que é bater o pau na mesa e aumentar o tamanho do produto, colocando o adaptador dentro dele. E, se as vendas do PS4 (e mesmo do PS3, em certo grau) forem indicativos, se seu produto é bom (e é a única opção para quem quer jogar Tales of), as pessoas compram seu produto gigante e arranjam espaço para ele, além da vantagem de não gastarem dezevinte tomadas com ele.

Porém, a verdade é que a estupidez do cabo de força nunca vai ser efetivamente um fator decisivo na hora da compra. Não vejo a NET ou a Vivo fazendo uma propaganda com a frase “nosso modem não ocupa duas tomadas!” ou mesmo alguém num stand center ou na Santa Ifigênia pedindo pro vendedor abrir as embalagens e comparar os cabos de força. No fim, é só um problema que temos que conviver com, por mais que seja um “first-world problem” (esta expressão só pode ser usada em inglês, até para reforçar seu significado). Nem eu vou realmente desconsiderar um produto com base nisso, tanto que comprei direto os HDs que pareciam ser os mais confiáveis (da Seagate com case da Samsung), e teria comprado eles mesmo se o vendedor tivesse me mostrado um concorrente com um plugue inteligente.

Mas que irrita o fato de existir uma solução e os fabricantes de produtos eletrônicos cagarem e andarem pra isso, irrita.

Antes de terminar o post, queria mostrar a solução que eu encontrei na Kalunga e que resolveu os meus problemas, este “polvo” de tomadas:

Não achei vendendo online (achei num lugar, mas não tinha foto e não queria indicar sem ter 100% de certeza que era o certo), mas aqui tem o site do fabricante.

Basicamente, alguém percebeu este problema, provavelmente OBSERVANDO SEUS CONSUMIDORES, QUEM DIRIA, e criou a solução.

Lindo. Perfeito. E recomendado por este blog.

Sr. Forceline, pode pôr este selo na embalagem do seu produto!


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cidadão Kent

Oi. Depois de assuntos sérios, voltemos às nerdices.

O assunto de hoje é o filme novo do Superman, “Man of Steel”. Se você não viu ainda, vou contar uma série de detalhes da história, então se você não gosta de spoilers, o Superman na verdade é o Clark Kent e você deve parar de ler agora.

Muito bem, vamos falar do filme.

Eu gostei do filme. Menos do que eu achei que ia gostar, mas me diverti bastante. Fui com uma expectativa meio alta também, e isso sempre estraga as coisas. Mas gostei do filme.

Quando saí do cinema.

Agora que já passou algum tempo e estou digerindo a experiência toda, estou começando a ficar incomodado com uma série de coisas. Na verdade, tiveram algumas coisas que me incomodaram ainda no cinema, mas que agora estão crescendo sem parar e me irritando.

Mas vamos por partes. Minha proposta, neste post, é recontar a história do filme do meu jeito. Sim, eu, este grande fã do Superman que nunca leu nenhuma HQ dele e que só viu aproximadamente metade dos episódios da série animada da Warner. Sem contar toda a minha credencial como escritor/roteirista, com todos os meus um fanzine de sucesso e o glorioso e aclamado prêmio de roteiro de mangá da AnimeFriends 2003 (ou 2004, não lembro e não me importo).

E aqui é onde ficaria algum prêmio decente para minhas capacidades literárias... Se eu tivesse algum

Em outras palavras,o blog é meu e eu escrevo o que eu quero e foda-se.

Muito bem, vamos do começo.

O começo é bom e eu deixava do jeito que está.

Por “começo”, estou falando da coisa toda em Krypton, com o Jor-El, a Lara e o Zod, contando o nascimento do Kal e o fim do planeta. Por mim, tá perfeito, deixa do jeito que está, até a parte que mostra a cápsula espacial chegando na Terra.

Daí temos o que eu chamo de “segundo ato”, que é a vida do Clark na Terra até a chegada do Zod. A partir daqui que eu mudaria as coisas. E faria o seguinte: ao invés de acompanharmos ele, como está no filme, eu deixaria a Lois conduzir a história.

Começaríamos com a Lois chegando no Canadá para reportar sobre a nave que encontraram debaixo do gelo. Acompanharíamos ela naquela coisa toda dela ver o Clark indo para o meio do nada durante a noite, com ela entrando no túnel no gelo e etc, mas sem mostrar o que ele está fazendo em momento algum. Ela seria atacada pelo robozitos de segurança e coisa e tal, o Clark aparece pra salvá-la e cauterizar o ferimento dela. Veríamos a nave indo embora e a Lois sendo encontrada.

Seqüência seguinte, ela discutindo com o Perry White Morpheus sobre a matéria, ela “vazando” a história e sendo afastada do Planeta Diário. Aí começava o que estou chamando de “Cidadão Kent”.

Para quem não viu “Cidadão Kane”, e não vou criticar quem não viu, a história gira em torno do repórter Jerry Thompson explorando a vida do milionário Charles Foster Kane, tentando descobrir porque sua última palavra foi “rosebud” antes de morrer (spoiler: é o apelido do pênis dele). E acompanhamos a vida de Kane através das diversas entrevistas que Thompson conduz com as pessoas que se envolveram com o milionário. Em outras palavras, flashbacks. Minha descrição não faz jus ao filme, quem tem saco de ver filme em PB eu recomendo, que é realmente bom.

E para quem não tem saco de ver filme em PB, vai largar a mão de ser idiota que muitos dos melhores filmes da história são em PB.

Enfim, voltando ao Superman. Uma das críticas que mais vi sobre o filme foram os flashbacks, que seriam excessivos e desconectados com o que acontece no “presente”, dando uma impressão meio aleatória para eles. Devo dizer que não me incomodei tanto com eles, mas concordo que poderiam ter sido melhor trabalhados.

Como?

Sendo narrados pelas pessoas que a Lois foi descobrindo ao investigar o cara com poderes mágicos que a salvou dentro da nave debaixo do gelo.

Funcionaria que nem “Cidadão Kane”, com ela encontrando e entrevistando uma pessoa, que narraria o episódio muito louco em que sua vida foi salva (ou seu caminhão foi destruído) pelo moreno smexy de peito peludo. Veríamos a trajetória do Clark em retrospectiva, até chegar na Martha, a mãe dele. Nesse momento poderíamos ter a história da morte do pai terráqueo (Jonathan) e, em seguida, a cena do cemitério, em que ela finalmente se reencontra com Clark, que contaria do dia que o pai revelou que ele é um alienígena.

Sim, eu sei que, do jeito que os flashbacks estão, eles não encaixariam perfeitamente nessa minha proposta, mas a idéia seria adaptar de acordo com a necessidade. E acho que assim fica uma coisa mais interessante, onde vamos criando essa imagem do Super sem vermos ele efetivamente. É como se recríassemos o Clark na nossa cabeça, fugindo de tudo o que já sabemos dele.

E tem uma coisa que eu “forçaria” nesse ato, que é demonstrar que “Superman não mata”. Conforme vou falar mais pra frente, acho importante construir essa idéia desde já.

Enfim, aí terminaria o ato “Cidadão Kent”. Na verdade, até esticaria mais um pouco, até a parte da Lois falando com o Perry White Morpheus que ela desistiu da história.

Só que ficou faltando uma seqüência: o Clark aprendendo o seu passado na nave com o Jor-El.

Antes de eu encaixar ela na minha versão do filme, tem duas coisas que me incomodaram profundamente nessa seqüência.

A primeira é a Lara-El não aparecer. Eu realmente acho uma certa puta sacanagem só o Jor-El ficar aparecendo como holograma-consciente-resolvedor-de-buraco-no-plot. Eu entendo o argumento “o Russel Crowe é mais caro, temos que aproveitar a grana que pagamos e fazer ele aparecer e falar bastante”, mas eu realmente acho estúpido não aparecer o holograma da Lara e o Clark/Kal NÃO PERGUNTAR SOBRE A MÃE NÃO ESTAR LÁ.

Até poderia ter a desculpa que naquele pen-drive kryptoniano não cabia a consciência dela, mas não cola: ficou uma coisa machista. Talvez Krypton seja mesmo só uma sociedade uber-patriarcal de merda.

A outra coisa que me deixou profundamente irritado foi a parte do discurso do Jor-El onde ele fala “você representa a liberdade de escolha, sem um futuro pré-definido” e em seguida diz “por isso sua missão é salvar e guiar as pessoas deste planetinha”.



Muitas memórias desagradáveis de familiares falando coisas como “faça a faculdade que quiser, desde que seja engenharia ou medicina”.

Jor-El, em nome de todo filho/filha que ouviu algum tipo de variação do seu discursinho hipócrita, vai tomar bem no meio do olho do seu cu.

O que eu faria ele dizer ao invés disso? Acho que ficaria só na questão do “você representa a libertação do povo de Krypton dos seus erros” e não falaria nada sobre missão nem porra nenhuma. O Clark/Kal perguntaria sobre o porquê de estar na Terra e Jor-El e Lara respondem “isso é você quem decide e constrói”.

Fica clichê melosinho e com um certo ar de chantagem emocional passivo-agressiva onde eles estão dando a entender que “se você escolher o caminho errado, vamos ficar profundamente decepcionados”? Fica, mas acho menos irritante que a versão hipócrita que tá lá.

Corrigido o que me incomoda nessa seqüência, falta encaixar ela na minha estrutura do filme. Eu a transformaria em outro flashback (quietos, não discutam), que ele contaria na sala de interrogação para a Lois, depois da ameaça em escala global do Zod e depois dele ter se entregado para o exército. Do jeito como a história está indo, funciona. Acho.

“Mas ele não pode contar para os militares sobre o planeta dele.”

Não vejo porque não, pra dizer a verdade. Até porque ele estaria contando para a Lois, que ele sabe que acredita nele. Ah, ele contaria também sobre aprender a voar, que eu gosto bastante dessa seqüência, é um dos momentos que mais me identifiquei com o Superman, já que eu provavelmente faria as mesmas caras de felicidade divertida que ele.

Agora que terminamos com o passado do Clark e ele virou oficialmente o Superman, podemos resolver o resto do filme, o ato final, que é a chegada e a treta com o Zod (sim, o Zod já chegou, mas deixem estar).

No geral, gosto de como o Zod é retratado no filme, assim como as tretas do Superman com ele, a Faora e o “camiseta vermelha”. E eu gosto da coisa da atmosfera terrestre versus a atmosfera kryptoniana, apesar de ter visto algumas pessoas (acho que umas duas) reclamarem disso. Eu prefiro isso que kryptonita. De uma maneira meio tonta, faz mais sentido que “esta pedra verde/preta/rosa/furta-cor de Krypton”. Espero que não tirem kryptonita do cu no próximo filme, a fraqueza dele tem que ser o Batman e fim.

Só que, como não podia deixar de ser, tem algumas coisas que me incomodaram. Profundamente.

A primeira: por que eles levaram a Lois para a nave?

Não lembro da explicação dada no filme. Se alguém se lembra, por favor me ilumine, talvez até tenha sido algo muito válido e que faça todo o sentido do mundo.

Mas, no momento, não consigo pensar em nenhuma explicação lógica o bastante para ela ter sido levada pra lá.

Para ser uma refém e chantagearem o Super? Bem, então eles realmente não sabem usar uma refém, pois não me lembro de ninguém apontando uma arma na cabeça da Lois exigindo informação dele. Sem contar que eles tinham sete bilhões de reféns, não precisavam da Lois na nave - eles dão a entender que podem matar todos os humanos desde que chegam na Terra, bastaria seguir o exemplo do Grand Moff Tarkin.

Tudo o que eu vi acontecer foi eles assistirem o Superman passar mal e prenderem ele, COMO ELES ESPERAVAM QUE FOSSE ACONTECER. Ou seja, se eles sabiam que, no mínimo, Kal ia perder os poderes na nave, não ia ser difícil prum bando de soldados kryptonianos prenderem ele, o que tiraria a necessidade de ter uma refém. Na nave.

Ok, então ela não era uma refém. Existe outra explicação possível para terem levado ela: extrair as informações que eles queriam dela (no caso, o local da cápsula com que Kal-El chegou na Terra), caso não conseguissem com ele.

Bem, eles demonstraram que possuem uma tecnologia capaz de invadir e ler a mente de qualquer um. E não tinha como eles terem certeza de que ela saberia onde estava a cápsula. Mas eles tinham certeza mais que absoluta que Kal saberia. Tipo, sem a menor sombra de dúvida. Logo, não precisavam da Lois lá, pois eles conseguiriam a informação com o Kal de qualquer jeito.

No final das contas, o verdadeiro motivo da Lois estar na nave é: “nós, roteiristas, precisamos fazer com que o Superman consiga escapar” e ela era a solução mais próxima, além de servir pra ela ser mais “útil” que uma mocinha em perigo esperando o príncipe pra salvá-la. Nada contra essa parte dela ser mais “útil”, acho muito válido, mas preferia que os roteiristas tivessem se esforçado um pouco mais para justificar a ida dela à nave.

O problema é que não tenho nenhuma alternativa melhor. Podia ser o clássico “ela quis ir e encheu tanto o saco que a Faora levou ela junto”, mas essa é uma alternativa pior, que ia fazer todo mundo (tanto os personagens do filme quanto o público) ficar meio de saco cheio com a Lois. Outra possibilidade é a Terra (subentenda: os EUA) ter preparado uma comitivazinha pra ir na nave como embaixadores da Terra (América) e a Lois conseguiu sei lá como ser a representante da mídia da Terra (Iú És Ei! Iú És Ei! Iú És Ei!). Só que essa também é ruim, já que ninguém em sã consciência iria preparar embaixadores depois de ter recebido uma ameaça de extermínio.

No final, por mais que eu queira manter a importância da Lois como parte da solução (ou seja, ela ajudando o Super a fugir), acho que o melhor seria o Superman ter conseguido fugir “sozinho”, com a ajuda do pai-holograma e a mãe-holograma, e a Lois nunca ter ido pra nave. Sei lá, ele enfiou o pen-drive do pai, que estaria escondido, numa das diversas entradas USB da nave.

Enfim, segunda coisa que me incomodou, e que, novamente, não me lembro com todos os detalhes e posso estar falando do cu: o fato do Zod ter levado a nave “última esperança de Krypton” para a treta, o que, em última estância, colaborou para o Superman ter destruído ela.

Acho que essa é bem auto-explicativa: se aquela nave era tão importante, por que caralho levar ela pro meio da merdaiada?

Aí que entra em cena minhas memórias fabricadas do filme e eu precisaria de mais gente me corrigindo (a pessoa com quem vi o filme me disse que estou lembrando errado, mas queria ter mais gente apontando o dedo na minha cara e falando que estou enganado) ou confirmando o que eu lembro: o Zod foi com outra nave até a Nave Jesus, logo ele podia simplesmente ter largado a Nave Maomé lá na neve e ter ido com a outra nave até a treta, mantendo a Nave Luke Skywalker a salvo.

Só que eu posso estar errado e, na verdade, ele foi de carona pra lá e ficou de voltar com a nave Frodo mesmo. Aí não tinha muito o que fazer. A não ser, por exemplo, ter estacionado a Nave Harry Potter perto de Metropolis e ter ido saltitando pra treta.

Ou, quem sabe, ter deixado pra ir pegar a Nave Siddhartha depois que tudo estivesse 100% garantido e salvo. Acho até que essa teria sido a melhor solução, principalmente para criar o dilema para o Clark/Kal se ele ressuscita ou não os kryptonianos.

Mas era importante para a luta final deixar o Zod sem ter nada a perder, então eu entendo os roteiristas terem destruído a Nave Acabaram Os Salvadores Do Meu Repertório E Não Estou A Fim De Pesquisar Mais. Mas que pareceu uma péssima decisão do Zod, pareceu.

E, assim, chegamos à terceira coisa que me incomodou nesse ato final, e que foi o que mais me irritou no filme inteiro: a seqüência da Grand Central Station.

A parte que o Superman mata o Zod.

Muito bem.

Caralho.

Como eu me irritei com essa parte.

Comecemos com o motivo mais banal possível: milhões de pessoas já tinham morrido até aquela parte do filme, por que caralhacete aqueles transeuntes tontos que não sabem fugir duma cidade sendo destruída seriam tão importantes assim?

Sério, o Super não percebeu que eles arrasaram a cidade inteira enquanto lutavam, não? Acho até que era para ter umas manchas de sangue alheio nas roupas deles, ou mesmo um membro arrancado de alguém que foi explodido quando um dos dois saiu voando dentro de um prédio.

Como sou um fresco, não tive muita coragem de procurar imagens de "membros decepados ensangüentados" no Google, por isso desenhei alguns. Só que depois de dez minutos, cansei, e deixei só esses. Me deixem em paz.

Ou seja, que bosta, heim, Superman? Saiu destruindo tudo e agora que você fica preocupadinho que uns quatro ou cinco inocentes vão morrer?

Na verdade, o problema não é bem pesar a vida de poucos contra a vida de milhões (apesar de que é exatamente isso que eu fiz nos parágrafos anteriores), mas sim que faltou “drama” nessa cena. Faltou impacto cinematográfico-emocional. Ou seja, pelo menos pra mim, ficou uma coisa meio “sério que você matou o Zod só por isso?”

Voltando ao que eu falei lá na parte do “Cidadão Kent”: do jeito que o filme está, acho que não foi bem passada a idéia de que “Superman não mata”. Por causa disso, imagino que quem não conhece essa faceta dele, não entende direito o porque dele ter sofrido tanto ao matar o Zod, o que tira boa parte do peso emocional dessa seqüência.

A outra coisa é que temos (ou eu tive, pelo menos) a sensação que o Superman só sofreu com a morte do Zod, e não percebeu todas as outras milhões de mortes que aconteceram, em certo grau, por causa dele.

Faltou o Super ter olhado em volta, visto o rebosteio que ele causou na cidade lutando com o Zod (ou mesmo ter percebido todas as mortes que foram causadas pelo Zod antes da treta ter começado) e isso ter pesado ainda mais na consciência dele para matar o cara, e não só os transeuntes tontos sendo ameaçados.

E, por fim, temos os transeuntes tontos.

Sim, é moralmente discutível pesar a morte de milhões contra a morte de quatro/cinco pessoas, mas eu realmente acho que poderia ter sido algo mais exagerado, como o Zod ameaçando derrubar mais alguns prédios com a visão de calor. Ou uma usina nuclear, sei lá.

Só que ameaçar algumas estruturas de concreto não causa tanto impacto emocional quanto ameaçar pessoas de carne e osso com olhares de desespero e choro para a câmera captar, então vale mais a pena ameaçar os tais transeuntes tontos.

Mas aí eu sinto que foi desperdiçada uma chance de ouro de terem “hollywoodizado” ao máximo essa parte.

Estou falando do Zod ter ameaçado um pai com o seu filho, e ter tido aquela troca de olhares entre o Super e a criança, deixando a coisa bem melosa pra caralho, com o pai em tal posição que percebemos que ele está disposto a dar a vida pelo filho.

Sério, como foi que não fizeram essa cena assim?

Hollywood, tem hora que você me decepciona.

E, quanto mais penso em todo o potencial perdido dessa seqüência, principalmente no sentido de não ter sido trabalhada a coisa toda do “Superman não mata” e o apelo emocional de “pais estão sempre dispostos a dar a vida pelos filhos”, fico irritado. Pra cacete.

No fundo, repensando o filme inteiro, a sensação que eu tenho é de “potencial desperdiçado”. Poderíamos ter tido um filme mais interessante, com um Superman mais humanizado e uma narrativa mais trabalhada. Mas parece que quiseram cortar uns caminhos e fazer do jeito mais fácil.

E eu também tenho plena consciência que a minha versão da história não é tão melhor assim, até por ser um tipo de “salada tonal”, onde o ritmo da narrativa muda demais de um ato para outro.

Só que, como um bom nerd, tenho que reclamar e inventar minha versão da história e acreditar que ela é melhor que a que está lá. Afinal, isso é algo que nerds fazem, não é mesmo?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Memórias póstumas de uma piada mal compreendida

Olá.

Não sei se dá pra perceber pelo título, mas este post é uma expansão do meu post “O desinteressante fim de uma piada mal contada”. Lá eu falei sobre uma piada minha que deu errado porque eu caguei tudo. Quer saber mais, vai ler lá.

Desta vez, vou falar sobre uma piada minha que, acidentalmente, se tornou um sucesso, e pelos motivos errados.

Tudo começou com o orkut.

Foto da última vez que usei o orkut.

Alguém lembra do orkut?

Então, o orkut era esse site que nem o Facebook, mas diferente de maneiras que não entendo porque não uso nem um nem o outro direito, e que fez sucesso uns dez anos atrás aqui no Brasil.

Ele tinha esse conceito de comunidades, que eram um tipo de mini-forum que girava em torno de um tema determinado pelo criador dela.

Acontece que existiam muitas, mas muitas comunidades muito tontas.

Coisas óbvias, que 90% da raça humana se encaixa, como “Odeio acordar cedo” ou “Odeio o Caetano Veloso”, ou coisas egocêntricas estúpidas, tipo “Conheço a Shirslayne” ou “Sou foda” e similares.

Enfim, nenhum link no parágrafo anterior que eu não tô a fim de me recadastrar naquela merda só pra procurar comunidade tonta.

Vamos ao que interessa: a comunidade que eu criei que fez um sucesso filha da puta.

“Tenho dez dedos nas mãos”.

A original. Eu que fiz. Não existe mais, caso queiram saber.

A idéia era ser uma sátira das demais comunidades e de uma corrida tonta que existia na época de tentar fazer a comunidade mais popular do orkut.

Ou seja, queria fazer uma comunidade que englobasse a maior quantidade de pessoas e que fosse realmente tonta e sem propósito.

Acredito que consegui, apesar de já existir, na época, coisas como “Moro no planeta Terra” ou “Respiro ar”.

Mas eu não me agüentei e acrescentei uma piadinha na descrição.

Basicamente, eu coloquei que existiam dois motivos para fazer aquela comunidade:

1 - Fazer a comunidade mais estúpida do orkut e

2 - Fazer uma comunidade que o Lula não pudesse entrar.

Pois é.

Era 2002. Ano de eleições. A que o Lula ganhou do Serra.

Ou seja, as pessoas encararam a comunidade como se fosse um tipo de plataforma anti-Lula, ou anti-PT.

NÃO ERA.

ERA UMA PIADA.

TONTA.

Eu só quis dar um toquezinho a mais, uma cerejinha no topo.

Mas as pessoas encararam como o foco principal da comunidade.

Nossa, como eu fiquei irritado.

As discussões do começo, que eram coisas como “Qual seu dedo favorito?” se tornaram “Força Serra!” e similares.

Enfim, eu já não cuidava muito da comunidade, e devo dizer que até fiquei feliz por alguma coisa que eu fiz ter ficado popular, mas ficava aquele gosto amargo na boca de “sucesso acidental”.

E eu não sei explicar isso direito. Dava vontade de gritar algo como “Seus burros, essa comunidade não é sobre política, é sobre a futilidade das comunidades do orkut, o vazio da conquista da fama e a efemeridade da vida humana! Gostem dela pelo motivo certo! Porra!”

Ou seja, eu queria que as pessoas gostassem da minha comunidade (entendam: de mim) do jeito certo.

É que nem a história do cara mais bonito do mundo que gostava de fazer pentes. Ele queria ser reconhecido pela qualidade dos pentes, não por ser o cara mais bonito do mundo.

O tempo passou e eu desencanei do orkut, passei a comunidade para o Koizumi, um amigo meu (atenção, amigo, se quiser que eu ponha seu nome aqui, eu ponho, só queria proteger sua privacidade) [Editado: ele deixou pôr o nome dele] e parei de me estressar.

Algum tempo depois, a comunidade foi roubada (as pessoas faziam isso, dá pra acreditar?) dele, e mudaram ela de nome e sei lá o que mais.

Talvez eu não devesse me irritar mais, mas essa história me irrita até hoje. E me irrita quando vejo acontecer com outras pessoas.

Estou falando de quando o “público em geral” não entende uma piada ou uma sátira ou uma crítica, mas você entende.

Sim, eu sei que não dá pra saber com certeza qual a intenção do autor da obra que você acredita ter entendido, mas tem vezes que é bem óbvio o contexto da coisa toda, só que ninguém entende.

É, tô parecendo adolescentezinho que fala que aquela música daquela banda foi feita pra ele, que o vocalista entende ele e o resto do mundo está errado.

Só que no meu caso, não foi um músico, mas o Tolkien quem me entendeu... He's so dreamy...

Só que, neste blog, eu estou certo, então foda-se.

E, aparentemente, eu não sou o único a perceber essas coisas - tem esse cara no Cracked, o Gladstone, que fala bastante sobre comédia, já escreveu algumas vezes sobre piadas e sátiras mal-compreendidas pelo povo.

Normalmente, essa falta de compreensão do contexto da coisa toda leva as pessoas a se revoltarem, ficarem chocadas ou se sentirem ofendidas. Só que, às vezes, como no caso da minha comunidade do orkut, as pessoas simpatizam com a coisa toda e, ao invés de ódio tonto, trazem um tipo esquisito de reconhecimento tonto.

Sinceramente, acho que é mais fácil lidar com o ódio tonto que com o reconhecimento tonto. Acho até que me irrito mais com o segundo, pois o primeiro não traz nada de bom e é mais fácil de descartar como “pessoas burras”. O segundo gera um tipo de contradição, onde as pessoas gostam do que você fez, mas não entenderam nada. Sei lá, isso irrita.

O que me leva, finalmente, à uma piada de uma certa obra que poucos entenderam direito, mas que virou um tipo de ícone dos fãs dessa obra pelo motivo errado. E essa história toda me enche de raiva.

E esta obra se chama My Little Pony: Friendship is Magic.

E estou falando da piada do “20% mais legal”.

E já estou ficando com o sangue fervendo de raiva.

Enfim, “20% mais legal”. Vamos começar explicando o que é isso para quem não assiste MLP: FiM, essas pobres almas sem cor na vida.

No décimo quarto e melhor episódio da primeira temporada (o melhor da temporada, tem outro que acho mais mágico na temporada seguinte), somos apresentados ao seguinte plot: Rarity, após ver o vestido que Twilight Sparkle pretendia usar no Grand Galloping Gala, em Canterlot, decide fazer novos vestidos para todas as amigas, para que elas usem roupas minimamente decentes em um evento tão “high society” quanto o Grand Galloping Gala.

Rarity então faz os cinco vestidos, todos muito fofoluchos e devertedos, combinando com a personalidade de cada uma.

Mas, como qualquer pessoa que já trabalhou com algo artístico para um cliente sabe que sempre acontece, as cinco não gostaram. Acharam que não ficou como elas esperavam. Sendo que é um presente. E elas não falaram nada no começo da coisa toda. Só aceitaram. E agora estão reclamando.

Vadias.

Enfim, para não deixar as amigas decepcionadas, Rarity decide refazer os vestidos seguindo o que elas pedem.

Já estou sentindo aquele frio na espinha seguido de aperto no estômago de ódio pulsante que sinto quando ouço as palavras “o cliente pediu alterações”.

Resumindo, para eu não ficar descrevendo o episódio inteiro, até porque é mais fácil ir lá assistir: os vestidos ficam do jeito que as amigas gostam, uma coisa horrorenda e ridícula, e elas fazem um desfile e a Rarity vira a grande piada de Ponyville, com a carreira e o amor pela arte destruídos. Mas depois dá tudo certo.

Devo dizer que este que foi o episódio que me tornou fã de MLP: FiM, pois me identifiquei com a situação toda que a Rarity (minha pônei favorita, principalmente por causa deste episódio) passou e percebi que o show tem uns roteiristas muito bons, que não tem medo de fazer uma piada para um público adulto sem ser uma referência velada tonta a sexo ou drogas.

Mas enfim, ainda não expliquei o que é a coisa do “20% mais legal”.

Na parte em que Rarity está refazendo os vestidos das amigas, tem toda uma seqüência cantada com as bobagens que elas pedem para fazer nos vestidos. Aí tem a parte da Rainbow Dash.

Ah, a parte da Rainbow Dash.

RAINBOW DAAAAAAAAASH!

A Rarity tenta extrair dela o que ela quer no vestido e tudo o que ela consegue é a frase “tem que ficar 20% mais legal”.

Ai, caralho.

Sério, eu gosto da Rainbow Dash, mas que eu fiquei com uma raiva incandescente dela nessa hora, eu fiquei.

Mas dei risada também, pois foi muito boa a relação com o que acontece no mundo real, e provavelmente está acontecendo em uma agência de propaganda/design/webdesign neste exato instante, com alguém fazendo exatamente a mesma cara que a Rarity.

Esta cara. É desta cara que eu estou falando.

Só que aí entrou em cena o fandom retardado.

Que, de algum modo inexplicável, achou essa coisa do “20% mais legal” uma “sacadinha”, porque esse é “o estilo Rainbow Dash” e sei lá o que mais. E, em seguida, virou um tipo de frase de efeito dos fãs, onde “a vida é 20% mais legal” e outras merdas também podem ser “20% mais legal”.

 Então. NÃO. ERRADO. Porra. Merda. Cu. Caralho.

Não é uma sacadinha divertidinha de como a Rainbow Dash é serelepe e sempre surpreende de maneira supimpa.

É um paralelo com cliente merda.

Todas elas fazem um paralelo com clientes merda.

A Twilight Sparkle é o cliente pedante que quer tudo politicamente correto demais, o que deixa o produto tonto e efadonho.

A Applejack e a Pinkie Pie são os clientes que não entendem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, então tentam colocar elementos de coisas que elas entendem (no caso, fazenda e festas) em algo que não tem nada a ver (vestidos de gala). É tipo o cara que quer uma foto do cachorrinho no site da empresa.

A Fluttershy é o cliente que quer uma coisa altamente complexa e difícil e demorada e desnecessária e não entende como a coisa que quer é altamente complexa e difícil e demorada e desnecessária (e, normalmente, não quer pagar o extra que essa coisa custaria, além de reclamar da demora).

E, por último, a Rainbow Dash é o cliente que realmente não sabe o que quer e espera que você mostre pra ele o que ele quer. O que é uma missão impossível. O que leva ele a ficar irritado com você, e a soltar comentários vagos e sem propósito, como “não está alegre o bastante” ou “podia ser mais real” ou “tem que ficar 20% mais legal”.

Ou seja, se você acha isso uma “sacadinha rainbow-dashiana”, você provavelmente nunca teve que lidar com esse tipo de cliente merda ou você É esse tipo de cliente merda. Seu merda.

Mas enfim, esse foi outro exemplo de “piada que saiu pela culatra”, e a Hasbro (entre outras empresas), obviamente, não perdeu tempo em aproveitar o sucesso dela. E ela não está errada em fazer isso.

Eu só gosto de pensar que a roteirista do episódio, toda vez que vê alguma coisa do fandom envolvendo a frase “20% mais legal”, sente uma mistura de ira flamejante com orgulho envegonhado, querendo estrangular todos os fãs e forçá-los a entender a piada do jeito certo. Que nem eu ficava quando olhava o sucesso da minha comunidade do orkut.

Só que as pessoas são tontas.

sábado, 15 de setembro de 2012

Hail Apple!

Finalmente, depois de enrolar por uns dez meses, terminei de ler a biografia do titio Steve. E foi muito legal. Deu pra ver bem como ele era um grandessíssimo cuzão. Escroto pra caralho. Sabia manipular as pessoas como ninguém, fazendo-as trabalhar mais e melhor para cumprir com suas idéias loucas. De um certo modo, ele era o cliente/chefe mais mimado e desagradável que qualquer um poderia ter.

Mas, ainda assim, ele era um gênio.

Um gênio em descobrir e perceber o que acontecia à sua volta e criar um produto que não apenas fosse bonito e prático, mas que também funcionasse. E isso meio que virou o DNA da Apple, criar produtos que façam direito tudo que os dos concorrentes estão fazendo de errado, unindo funcionalidade e elegância, fazendo algo que as pessoas efetivamente queiram ter.

Sim, eu sou um Apple fanboy. Mas com motivo. Os produtos deles podem não ser perfeitos, mas eles funcionam. Funcionam infinitamente melhor que as outras merdas que existem por aí, isso eu te garanto. E, por eu querer viver uma vida mais fácil num mundo funcional, uso produtos Apple. Foda-se que Windows é melhor para games. Foda-se que usar Linux me ensina mais sobre o funcionamento de computadores (isso que eu trampo com programação). Foda-se que um telefone Android é mais “aberto”. Eu uso Apple porque, para mim, é melhor e ponto final.

E sim, este post inteiro vai ser eu punhetando uma para a Apple.


Nunca confie num homem com uma mão debaixo da mesa. Nunca.

Bem, mais ou menos isso.

Na verdade, quero falar de dois pontos: sobre a repercussão retardada que eu vi nas internets sobre a espetacular vitória da Apple sobre a Samsung na corte americana e sobre a visão que muita gente tem de que produtos Apple são para “criancinhas retardadas que só se importam com a modinha”.

Comecemos pelo primeiro ponto. O caso de quebra de patentes da Apple contra a Samsung.

Bem.

Então.

De algum modo mágico, a Apple virou a vilã dessa história.

As pessoas se convenceram de duas coisas:

Uma, que a Apple está praticando concorrência desleal, processando para fora do mercado os concorrentes que chupinham seus produtos. Essas pessoas também acreditam em coisas como duendes, papai noel e sistemas judiciários funcionais com decisões imediatamente executadas. Além de não entenderem o que é uma apelação judicial.

Basicamente, a Samsung vai apelar da decisão, o que faz a coisa toda enrolar mais uns meses, e até um juiz bater o martelo (literalmente) e mandar a Samsung pagar o que deve e calar a boca, sem mais apelações, deu tempo para ela tirar todos os smartphones que infrigiram as patentes da Apple do mercado, tornando a “parte 2” dessa história toda inútil.

Qual é a “parte 2”? É a parte onde a Apple tenta tirar do mercado todos os smartphones da Samsung que quebraram intencionalmente as patentes da Apple. Então, se você não sabia, a decisão do júri lá só gira em torno da multa. Para tirar esses aparelhos do mercado, a Apple tem que fazer outro processo (não sei se esse é o termo certo, algum advogado me corrija depois).

Então, essa visão que a Apple vai processar os concorrentes à falência é uma puta viagem de adolescente deslumbrado com teorias da conspiração. Não é assim que o mundo funciona.

Por enquanto, só falei da parte logística da coisa toda. Vamos para a parte, digamos, ética.

A Samsung chupinhou SIM os produtos da Apple. Basta ver o famoso slide que a Apple apresentou para os jurados durante o julgamento. Ou ver A PORRA DA DECISÃO DO JÚRI.

Sutil, não?

Isso gera a questão de “o que você faria se roubassem seu trabalho?”

Acho que não tenho que levantar essa questão para todos que já trabalharam de freela neste mundo. Principalmente aqueles que trabalham numa área criativa.

Por exemplo:

“Ah, mas é só um desenhinho/sitezinho/layoutezinho, meu sobrinho fez curso online disso, ele faz de graça.”

Ou…

“Então, gostamos do seu trabalho, mas como não vamos usar agora, também não vamos te pagar, ok?”

Vocês sabem do que eu estou falando. Se freelancers pudessem proteger judicialmente seu trabalho contra clientes pilantras, eles iam levar bem menos na bunda.

“Mas é um absurdo conseguir patentear ‘deslizar o dedo para destravar o telefone’!”

Mesmo? O que foi patenteado foi “um método para destravar uma touchscreen sem foder tudo”. Agora, vamos fingir que a Apple não criou/patenteou isso. Tente inventar um jeito de destravar um telefone com touchscreen QUE NÃO SEJA ACIONADO SEM QUERER PELA SUA BUNDA. É fácil tirar valor das descobertas quando já sabemos a solução. Ou seja, não é uma patente vazia. Há um propósito por trás.

O que eu quero dizer com isso é que, assim como o fundo azul-turquesa pastel e a fonte Helvetica Neue do seu design tem um propósito (melhorar a leitura, valorizar o conteúdo), diversos detalhes de software e hardware nos produtos da Apple (e de qualquer empresa) têm um objetivo prático. E, antes do primeiro produto com tais especificações, ninguém pensava na diferença que esses detalhes faziam.

“Ah, e a patente das bordas arredondadas? Isso é ridículo.”

Ok, vamos por partes. Eu não sou advogado. E não entendo como funciona o sistema jurídico americano, principalmente em relação à patentes, copyright e essas merdas. E também não sou engenheiro nem designer de produtos.

Tendo dito isto, fui lá ver a tal patente das bordas arredondadas (não consigo deixar um link direto pra patente, é preciso buscar ela nesse banco de dados - o número dela é D593087).

Até onde eu consegui entender, me parece que a patente não protege exatamente “bordas arredondadas”, mas sim a “quininha” do iPhone 3G/3GS. A partezinha prateada que você vê quando olha de frente para o aparelho. Só aquilo. E não “gadget com bordas arredondadas”. Só a porra da quina.

Ok, concordo que é tonto conseguir patentear isso, afinal, é só uma porra de um detalhezinho do design geral das coisas. Mas, convenhamos, também não é muito difícil fazer uma coisa diferente. E, caso vocês não tenham lido com cuidado a decisão do júri, essa foi a única patente que foi declarada como “quebrada sem querer”, ou seja,  a única patente que a Samsung quebrou inconscientemente, enquanto que o resto foi decidido que foi de propósito.

Resumindo, esse não foi aquilo que eu chamaria de um grande momento do sistema de patentes americano, ou melhor, do sistema de patentes, ponto. Mas não é como o povo tá berrando por aí, que agora ninguém mais vai poder fazer bordas arredondadas além da Apple. Ninguém mais vai poder fazer gadgets com uma quininha arredondadinha no mesmo ângulo que o da patente da Apple. Se isso era crucial para o seu design, desculpa, vai ter que pagar royalties ou uma licença pra Apple. Ou, se posso dar uma alternativa para o você, desiste dessa carreira e vai trabalhar com algo que não precise de criação, como colher lixo, dirigir ônibus ou telemarketing.

“Mas a Apple também roubou de outras empresas, como a Xerox.”

Errado. A Apple pagou à Xerox. Em ações. E a Xerox ganhou uma bela grana nessa. Se você pagou, não é mais roubo.

E outras coisas que as pessoas falam que a Apple “roubou”, ou já foram acertadas judicialmente ou, na verdade, são diferentes o bastante para serem qualificadas como “outra coisa”. O que não aconteceu com os telefones da Samsung.

“Mas a Apple não foi a primeira a fazer X, Y ou Z.”

Ela foi a primeira a fazer direito. A fazer com um propósito. Com um objetivo maior que “só para falar que tem”. Vou voltar ao assunto mais pra frente, então vamos deixar por aqui.

Eu poderia ficar respondendo argumento por argumento tonto que eu vi por aí, mas a real é: a Samsung roubou designs da Apple, e isso é errado. Eticamente, moralmente e legalmente errado. Ela tem que pagar por isso. Ninguém gosta de ser roubado, por isso fizeram leis protegendo a propriedade de cada um. Ponto.

Mas, sendo bem sincero, existe sim um problema aí.

Se alguém devia ser considerado o vilão dessa história, devia ser a porra do sistema de patentes e copyright, que não faz o menor sentido e está completamente ultrapassado. Com o palavreado certo, é possível patentear qualquer coisa. Basta conferir o cara que patenteou um “aparelho circular facilitador de transporte”, também conhecido como “roda”.

Mas o sistema não é culpa da Apple. Assim como não é responsabilidade dela tentar mudar ele.

Quando você está participando de um jogo, você segue as regras dele. Mão na bola é falta, você não tenta começar uma revolução durante o jogo onde você acha que futebol vai ficar mais dinâmico se inserirem elementos de vôlei.

A não ser que você esteja jogando Calvinbol.
Enfim, chega de falar de patentes e roubo de trabalho alheio. Vamos para a segunda coisa que eu vi as pessoas tirando do cu e jogando na internet sobre a vitória da Apple.

Que a Apple vai acabar com a inovação do mercado de smartphones.



Isso é tipo falar que a religião vai acabar com as guerras.

Sério, se alguma empresa merece um troféu por ter inovado e revolucionado essa merda de mercado de smartphones, essa empresa é a Apple.

Vamos começar revendo como eram os smartphones antes e depois do iPhone.

É, tô preguiçoso hoje, foda-se.

Agora vamos para a real questão em torno desse argumento: ao proteger a sua invenção, a Apple limita o que outros podem criar, pois eles vão ficar com medo de serem processados pela Apple.

Bem.

Então.

Novidade pra você, amiguinho.

Se você não consegue se esforçar e pensar em algo diferente, chegando ao ponto de ser processado por quebra de patentes ou plágio, VOCÊ NÃO ESTÁ INOVANDO PORRA NENHUMA. Você só está imitando o que deu certo na esperança de pegar a rabeira de um mercado criado por outros. O que leva à questão que muitos concorrentes do iPhone usam como campanha: “sou quase igual, mas melhor”.

Nesse momento que devemos dar uma salva de palmas à Microsoft, que ela está tentando fazer diferente. E, na minha opinião, inovação vem de “diferente”, e não de “quase igual”.

A alternativa é aquilo que a Samsung e outras empresas (inclusive a Apple, sendo bem sincero) fizeram com inúmeros produtos: modificar ele o bastante para não ser qualificado como uma quebra de patente. E isso não é inovação. É mais do mesmo.

E, além disso, a Apple está disposta a licenciar suas patentes para quem quiser usar nos seus produtos. Assim como a Nokia fez com todo mundo (incluindo a Apple) e a Microsoft fez com o Google no Android.

Enfim. Chega de falar da magnífica vitória da Apple sobre a Samsung. Caso alguém queira ler uma análise melhor e mais inteligente, escrita por alguém do meio, vai aqui.

Vamos ao segundo ponto. O modo como muita gente despreza usuários de produtos Apple como “seguidores de modinha”.

Ok, não duvido que existam usuários Apple que são, de fato, pessoas superficiais que só seguem “modinhas”. Assim como devem ter usuários Linux que nem sabem usar o terminal direito, mas usam só para parecer mais “h4x0rz t0 t3h m4x0rz”. Ou ainda pessoas que têm pênises enormes que dirigem Ferraris. Não devíamos generalizar tão rápido as pessoas.

Mas esse é um argumento muito “tucano”, como gosto de falar. Basicamente, estou apelando para “a paz entre os povos, cada um é cada um, vamos todos conviver numa utopia de aceitação”, sem tomar partido nenhum.

Então vou tentar ser mais macho (sinônimo de escroto), bater o pau metafórico na mesa e fazer uma declaração em voz (caixa) alta:

PRODUTOS APPLE SÃO OS MELHORES QUE EXISTEM! …ISTEM! …ISTEM!

POR ISSO QUE AS PESSOAS COMPRAM! …OMPRAM! …OMPRAM! …OMPRAM!

NÃO SEI COMO DESCER DAQUI! ..QUI! ...QUI! ...QUI!

Pronto.

Tendo dito isto, vou falar sobre minha experiência com a Apple. Os dois momentos que me transformaram em um Apple fanboy. E não teve nada a ver com “modinha” nem porra nenhuma. Teve a ver com “perceber que a vida pode ser melhor”.

Primeiro momento: iPod.

Meu primeiro iPod foi o iPod Nano Gorditos (3ª geração). Até hoje é meu design de iPod favorito. Me identifico com ele. Sei lá, ele é adiposo como eu.

Antes de ganhar ele, eu tentei uns 700 mp3 players genéricos de 50 reais do ching-ling. E todos eram uma bosta. Davam pau, a música ficava zoada, só saía som de um lado do fone, enfim. Problema atrás de problema.

Mas tinha uma coisa que realmente me deixava absolutamente puto: o shuffle. Que não funcionava, ou simplesmente não existia. Aliás, até já falei disso antes.

A maior picaretagem desses shuffle falsos era que ele randomizava as músicas UMA vez, e não toda vez que eu apertava play. Funcionava assim: colocava as músicas lá, apertava o shuffle, ele misturava. Desligava o troço, dia seguinte, apertava o shuffle de novo, estava na mesma ordem de ontem. Não importava quantas vezes eu apertase a porra do shuffle ou desligasse e religasse o troço, a ordem se mantinha - diferente da ordem que eu coloquei os arquivos, mas ainda assim com uma repetição. O que tornava a coisa toda inútil.

Só que aí vem a pergunta: por que não testar de outra marca, mais melhor de boa (isto é um erro gramatical sarcástico, caso alguém queira reclamar), ao invés de insistir nos ching-ling ou ter ido direto para a Apple?

Boa pergunta. Não tenho resposta. Na época, já tinha um Macbook, e já era fã de Macs. Provavelmente foi algo como “integração iTunes - iPod”.

Enfim, ganhei o iPod e, só de colocar músicas nele já foi uma experiência digna de um jorro de luz multicolorida caindo dos céus sobre o meu ser. Foi só escolher as playlists do iTunes e fim. The end. Estavam lá as músicas que eu queria ouvir por aí.

Daí teve o momento “descobri que a vida é boa”, com a click wheel. Era tão legal ficar girando aquela coisa. Bem melhor que ficar apertando o botão para ir um de cada vez. Sei lá, acho que dava uma sensação de brincar de abrir um cofre, ou um sentimento nostálgico por telefones de discar, ou minha imaginação fértil de adolescente loser me fazia imaginar mamilos femininos, mas eu me divertia muito com a click wheel. Pena que é uma tecnologia que vai morrer, já que tá tudo virando touchscreen.

Em seguida, veio o momento das lágrimas de emoção e felicidade Disney. O shuffle. Nossa. Foi lindo. Finalmente, cada hora vinha uma música diferente depois de Bohemian Rhapsody (a música que sempre iniciava o meu dia, na época - hoje em dia estou numa fase Gangnam Style).

Foi mais ou menos assim, se não me engano.

Ou seja, o iPod fez com que eu finalmente gostasse de sair pela rua ouvindo música.

Antes dele, eu tive os ching-ling de merda, que mais me irritavam do que me distríam da realidade, ou o meu discman, que soluçava a cada três passos que eu dava. E não, não tive walkman antes disso.

Bem, só para ser justo, houveram coisas que eu não gostei. O iPod não conseguia atualizar instantaneamente minhas smart playlists, o que me forçava a conectar ele todo santo dia no Mac (na verdade, até hoje o iPhone também é bem burro com smart playlists, mas não é isso que vai fazer com que eu desista da Apple). E não gostei do fonezinho branco, achava ele meio incômodo.

Houve também uma coisa que o iPod trouxe para minha vida, mas que só fui começar a ouvir pra valer depois de algumas semanas com ele: podcasts. Eu sou um grande rato de podcasts hoje em dia, acho até que ouço mais que música. E foi o fato do iTunes baixar eles automaticamente quando atualizam e sincronizar eles com o iPod que facilitou o processo. Imagina ter que baixar o arquivo no site do podcast e arrastá-lo até o mp3 player toda santa vez que o podcast fosse atualizado? Tenho mais o que fazer da minha vida.

Vamos agora para o segundo momento de “digivolvendo para um Apple fanboy”: o iPhone.

Nunca fui muito de usar celular. Ou mesmo telefone. Já não gosto de conversar ao vivo, imagina por telefone. Sei lá, não tenho muito saco.

Mas faz parte da vida moderna ter um celular, logo eu ganhei um quando fui pra faculdade (minha avó ficava preocupada que acontecesse alguma coisa com o netinho querido dela, tão dependente e incapaz de se virar sozinho) (e ela estava coberta de razão, até hoje tenho que pedir ajuda pra amarrar os tênis). Era o clássico Nokia com snake da BCP. Usei ele por anos, acho que até me formar.

Em seguida herdei um celular da minha avó. Era um bem simplão, não lembro agora se era da Samsung ou da Siemens. Enfim, era bom o bastante.

Aí veio o anúncio do iPhone.

Olhei para o iPhone, para quanto ele custava, para todas as suas funcionalidades e para o quanto eu usava o meu celular. E percebi que seria estúpido comprar ele. Afinal, eu usava muito pouco o celular. Recebia ligações de vez em nunca, e SMSs só da Vivo com propaganda. Ver meu e-mail em qualquer lugar? Pra quê? Eventualmente eu volto pra casa, meu e-mail não vai pra lugar nenhum. Música? Tava feliz com meu iPod Gorditos. E eu tinha um DS, fodam-se os games da App Store (como no começo não existia a App Store, essa desculpa do DS só surgiu depois).

*** Antes de eu continuar, uma pequena observação: se você é desses retardados de merda que fala “A-Pê-Pê” Store, me faça um favor e se mata enfiando uma chave de fenda enferrujada na própria uretra e sangrando até a morte. Ou com o tétano te matando. Sério. Se não tem coragem de fazer isso, me chama que eu terei o maior prazer em ajudar. Com o bônus de eu ficar te chutando nas laterais das suas articulações, para seus membros ficarem em posições estranhas, uma coisa meio bonecão de posto. A pronúncia correta é “Ép”. Não é uma porra duma sigla. É um diminutivo para “Application”. Logo, App. Pronunciado “Ép”. Obrigado. ***

Seguindo essa lógica, não fazia sentido algum eu sequer ter um smartphone. Seria um grande investimento que eu acreditava que não ia aproveitar.

Só que, dois anos depois do lançamento do primeiro iPhone,  o meu celular tava ficando velho, com problemas no speaker, dava uns chiados estranhos. Então resolvi correr atrás de um novo. Novamente, olhei pro iPhone (o 3GS, na época), e vi que não valia a pena ainda. Por isso, fui buscar um celular comum (conhecidos, hoje em dia, como dumbphones, pela elite geek chata).

O vendedor acabou me convencendo a levar um modelo da Samsung com touchscreen, o Corby (não que seja difícil me convencer de comprar qualquer coisa, é só ver o tipo de roupas que eu compro quando vou em lugares como a C&A). Ele usou algum argumento como “é mais moderno e next generation” ou coisa parecida.

Ei, pelo menos não estou usando crocs.

Enfim, achei interessante arranjar um com touchscreen por causa da versatilidade que eu vi essa tecnologia trazer através do iPhone.

MAS.

Puta merda.

Caralho.

Como aquele celular era estúpido.

Não me lembro de todos os detalhes, mas me lembro claramente do que me deixou absolutamente insandecido de raiva.

O teclado.

Que aparecia na touchscreen.

Era.

Numérico.

Para digitar letras.

CARALHOPORRACUÂNUSCACETEBUCETAQUEMEEEEEERRRDAAAAAAA!!!

Ok. Respirando. Pronto.

Vamos de novo, passo-a-passo.

• Primeiro, você põe um touchscreen num celular.

• Segundo, você faz com que a tela só tenha um tipo de teclado. O numérico. Para todas as funções de digitação.

• Terceiro, você faz o seu cartão de natal da APAE.

Eu realmente entendo as empresas quererem desconto nos impostos contratando gente com sérias deficiências mentais para planejar os produtos delas, mas tem hora que força a barra.

No momento que esse Corby estúpido não me apresentou nenhum teclado QWERTY quando quis testar mandar SMSs, ele me fez perceber a real genialidade da Apple. Eles não colocaram touchscreen no iPhone pensando que ia ser só “diferentoso” ou “prafrentex”, como o vendedor me disse sobre essa bosta da Samsung. Eles fizeram isso pensando no usuário.

Hora de entender qual o glorioso propósito para titio Steve e Sir Jony Ive terem escolhido o protótipo de iPhone com touchscreen ao invés do que ia ter uma click wheel: VERSATILIDADE.

Deixando a interação do usuário com o aparelho para ser definida pelo software, você libera espaço para a tela, diminui o gadget e simplifica a vida do usuário por disponibilizar apenas o que será necessário para usar o software rodando no momento.

Ou seja, se vou discar um número de telefone, a tela exibe um teclado numérico e, se vou digitar um SMS ou um e-mail, o teclado se torna o clássico QWERTY para eu digitar PALAVRAS. ESCRITAS COM LETRAS.

Foi nessa hora que eu definitivamente vesti a camisa e me batizei na água santa de Cupertino, me tornando um Apple fanboy. Mesmo depois do iPod Gorditos, eu ainda não estava tão comprometido com a causa. Mas, depois do iPhone 4, acredito piamente que os produtos Apple que tenho fazem minha vida melhor. Sério.

Querem saber porquê? Porque os produtos deles são pensados na experiência do consumidor.

Eles olham para os próprios produtos e tentam simplificar a experiência. Torná-la mais acessível. Mais fácil. Melhor. Não ficam inventando utilidades que ninguém usa, ou acrescentam saídas e portas e tecnologias só porque é novidade.

E ainda fazem mais uma coisa, muito importante, na minha opinião: eles educam os consumidores. Mostram pra eles como é design bonito, como é um produto com elegância e como largar tecnologia velha pra trás. Se não fosse isso, ainda teríamos computadores com disquete e todos teriam design by Romero Britto.

Enfim, como a Apple consegue criar a melhor experiência e educar o consumidor? IGNORANDO TODO MUNDO. Ignorando os consumidores, os investidores, as análises de mercado, a mídia e os concorrentes. O que importa é eles se sentirem satisfeitos com o que estão criando.

Sim, sim, eles eventualmente lançam coisas só para agradar os investidores, assim como acabam cedendo a certas pressões dos clientes para manter ou mudar certos produtos. Mas, no geral, a Apple está cagando e andando. Ela só quer fazer o melhor produto.

E é por isso que eu admiro, adoro, venero e boqueteio a Apple.

Antes que alguém me julgue, ele me pagou um drinque e disse que eu era bonito.

Se você não gosta da Apple, ok, você tem o direito. Mas só vou te levar a sério se seu argumento girar em torno de “não supre minhas necessidades com um computador/gadget”, como no caso de gamers hardcore de PC, ou “tive produtos Apple, e realmente não são para mim”, o que tudo bem também. Sério. Nem todo mundo gosta de bacon, chocolate e pizza.

Mas se seu argumento for “porque é só modinha” ou “porque não é aberto” ou “porque é mais caro”, e você nunca teve um produto Apple, me faça um favor: enfia a sua cabeça na buceta da sua mãe e esquece ela lá dentro, que alguma coisa deu muito errado quando tiraram você de lá.

Para finalizar, uma última coisa que eu admiro na Apple, e que eu quero que todos pensem antes do fim.

A Apple, atualmente, é uma das, senão a, maior empresa do mundo. Tem mais dinheiro guardado que o governo Norte-Americano. Seu valor de mercado em Wall Street bateu o recorde histórico. E possui margens de lucro recorde. Tudo isso é impressionante.

Mas o mais impressionante disso tudo é que ela é uma empresa que fabrica e vende produtos direto para o consumidor.

Ela não vende matéria-prima, como petróleo. Ou vende produtos para outras empresas. Ou é uma rede de revendedores de tudo e mais um pouco.

Eles vendem coisas. Tecnológicas. Gadgets. Computadores.

Pára pra pensar um pouco: como é possível que uma empresa que vende tocadores-de-musiquinha (expressão que um tio meu usou para definir o iPod) tenha mais valor e mais dinheiro que uma petrolífera?

Os tempos mudaram? Nem tanto, ainda usamos carros movidos a gasolina, sem contar os inúmeros produtos derivados do petróleo.

O mercado financeiro está louco? Talvez. Aliás, a resposta aqui é “provavelmente”, mas a real é que o mercado financeiro não faz o menor sentido mesmo (algum dia exploro esse tema com mais detalhe).

Eles não vão conseguir manter os números que eles estão tendo, logo, são uma bolha que vai explodir? Muito provável.

Mas isso não muda o fato que, no momento, uma empresa que fabrica e vende produtos para consumidores está no topo do mundo. E esses produtos não são comestíveis.

E sabem o que é o mais legal disso?

Eles chegaram lá fazendo aquilo que eles acreditavam ser o melhor para eles. Criando aquilo que eles acreditavam ser a melhor experiência para o consumidor. Mostrando para o consumidor o que ele queria, ao invés de ficar correndo atrás de números do departamento de vendas ou pesquisas de mercado com grupos-de-público-foco-alvo.

Criando coisas legais, elegantes, fáceis de usar e que funcionam. E não empacotando o que tinha e cortando custos aleatórios para vender a maior quantidade de produtos possível antes do cliente ligar reclamando.

Agora compara isso com a filosofia de mercado da empresa onde você trabalha.

Pois é.