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quinta-feira, 12 de março de 2015

Sobre Sir Terry Pratchett

Hoje faleceu meu autor favorito da vida.

Sir Terry Pratchett.




Estou triste. Muito triste. Até comprei um ovo de oitenta reais da Kopenhagen pra me sentir melhor enchendo a cara de chocolate. Não deu muito certo ainda.

Não sei o que escrever sobre isso, sendo bem sincero.

Mas eu tinha que escrever alguma coisa. Às vezes bate um nervoso, um impulso estranho que eu sinto vontade de escrever, mas normalmente eu consigo contê-lo usando minha depressão, meus videogames, a internet e similares. Só que desta vez eu não quis conter o impulso. Quero dizer, quis, usando chocolate e internet, mas a Bruna me deu um empurrãozinho pra eu largar mão e escrever.

Então aqui estou, escrevendo sobre meu autor favorito da vida.

O autor que é meu objetivo enquanto escritor. Sério, meu sonho é algum dia virar “tão bom quanto a sujeira da unha do dedão do pé esquerdo de Sir Terry Pratchett, o que dá mais ou menos 6.328 Paulos Coelhos”.

Até por isso que eu tenho que escrever mais.

Mas não estou com vontade de comentar a vida e obra dele, até porque eu não conhecia ele tão bem assim e ainda não li todos os livros dele. Outros vão escrever mais, melhor e com mais propriedade sobre isso.

Nesse caso, o que posso falar sobre ele?

Acho que só que tem uma coisa que só eu e a Bruna podemos falar sobre: quando conhecemos ele na New York Comic Con.

Era o segundo dia da feira, 12 de outubro de 2012 (obrigado, meta-data da foto que tiramos). Teve uma palestrinha/entrevista com ele na parte da manhã no pior pseudo-auditório do evento, e me lembro claramente de não ter conseguido ouvir 80% do que ele falou.

Esse palquinho estava num dos galpões, onde circulava muita gente, era uma barulheira danada.

Eu sabia da doença, não sabia que nível ela estava, mas ele parecia bem, visto de longe.

Só que o mais importante veio no final da tarde, quando ele foi para o setor de autógrafos.

Chegamos, pelo que eu me lembro, uns quarenta minutos antes de começar a sessão de autógrafos dele, e já tinha uma fila respeitável. Mas valia a pena esperar, já que estamos falando do Terry Pratchett. Sir Terry Pratchett, desculpa.

Essa era a fila à nossa frente…

Da experiência na fila, só me lembro de três coisas: um, que ela estava bem mais lenta que as demais filas de autógrafo, dois, que ela era a maior fila de autógrafo que a gente viu em todo o evento (provavelmente porque era o Sir Terry Pratchett. E ele estava autografando de graça - para quem não sabe, a maior parte dos artistas cobra pelo autógrafo) e três, que demorou tanto que ainda estávamos na fila quando deu a hora do evento fechar - estavam desmontando as coisas no saguão, os outros artistas já tinham ido embora e o lugar já estava meio vazio. Mas, pelo que um dos staffers falou, Sir Terry Pratchett queria receber todo mundo que tinha ficado na fila.

…e esta era a fila pra trás da gente. Não, ela não chegava até aquela escada no fundo, mas era bem grande mesmo assim.

Quando estava chegando nossa vez, percebi o porquê de demorar tanto: ele estava tirando fotos com todo mundo. Muito legal, não? Só que eu também reparei outra coisa: ele não estava autografando nada. Estavam distribuindo um adesivinho com o autógrafo dele, e fiquei meio encucado com isso, até cair a ficha: ele não estava mais conseguindo assinar por causa da doença. Conversei com uma das moças que estava organizando a fila (e que eu fico tentando lembrar se era a filha dele, a Rhianna Pratchett, mas provavelmente não era) e ela confirmou: ele realmente não conseguia mais dar autógrafos, e até por isso que ele queria tirar foto com todo mundo.

O adesivo com o autógrafo dele. Não tive coragem de grudar em nada até agora, e provavelmente não terei mais para grudar em lugar nenhum.

Finalmente chegou a nossa vez, cumprimentamos ele, falamos que tínhamos vindo do Brasil, o que surpreendeu ele um pouco, e comentei que tinha ficado difícil conseguir comprar os livros dele em português porque a editora que publicava os livros dele tinha falido (olhando agora, em retrospecto, parece que eu falei que a editora faliu por ter publicado os livros dele… devia pensar mais antes de falar), e a resposta dele foi ótima:

– They are better in English anyway.

Traduzindo, para quem não entendeu: “Eles [meus livros] são melhores em inglês mesmo.”

A foto ficou ruim, mas estávamos lá, e é isso o que importa.

Desde então, continuei minha coleção do Discworld em inglês, e por mais que eu pene um pouco em alguns momentos, estou conseguindo ler os livros. Não sei dizer se eles são mesmo melhores em inglês, já que eu não li nenhum dos livros dele nas duas línguas pra falar com propriedade, mas posso dizer, com toda certeza, que os livros dele são espetaculares não importa a língua.

Portanto, se você nunca leu nada do Sir Terry Pratchett, vá ler. Agora. Isto é uma ordem.

Se quiser uma sugestão, comece com “A Cor da Magia” ou “Belas Maldições”. Sim, “Belas Maldições” é escrito junto com o Neil Gaiman, mas dá pra sentir como é o humor de Sir Terry Pratchett.

Quanto a mim, eu tenho que escrever mais. Senão como é que eu vou ficar tão bom quanto a sujeira da unha do dedão do pé esquerdo de Sir Terry Pratchett? Quem sabe, se eu me esforçar bastante, meus textos cheguem no nível da cera de ouvido que fica bem no fundo e nunca sai com o cotonete de Sir Terry Pratchett.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Faixas de pedestres e flatulência cerebral.


Este é o post que eu fui e voltei e fui e não conseguia terminar. Agora consegui. Não tá fantástico, mas eu precisava acabar ele, de um jeito ou de outro. Enfim.

Nova Iorque. De novo.

Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o trânsito de lá. Ou o que eu pude ver do trânsito indo de van do aeroporto até o hotel.

E me pareceu ainda pior que o trânsito de São Paulo.

É, eu sei. Soa impossível, mas realmente parecia pior. Carros cortando as faixas de um lado para o outro, fechando cruzamentos e… bem… essas duas coisas que me chamaram a atenção a princípio. Coisas que você nunca vê em São Paulo.

Como este é o único jeito das pessoas entenderem sarcasmo hoje em dia, aqui está a hashtag.

Depois teve outra coisa que me incomodou muito: os motoristas ignorarem, em grande parte, a faixa de pedestre. Estou falando de parar o carro em cima da faixa no farol vermelho. Parecia que isso simplesmente “é parte do processo”, ou seja, é esperado por todos que os carros parem em cima da faixa. Aqui, pelo menos, ainda dá multa, fazendo com que a maioria dos motoristas evite parar na faixa. Acho.

Enfim, nos primeiros dias, eu tava bem incomodado com o trânsito de Nova Iorque. Me parecia que o pedestre era ainda mais ignorado que em São Paulo.

Só que, depois de alguns dias, eu acabei percebendo uma coisa muito interessante sobre o trânsito lá: não havia semáforos de três fases, como aqui, com o “turno do pedestre”. Lá só tinham duas fases, ambas para os carros. O pedestre? Bem, ele atravessava quando o sinal de pedestre deixava. E era no mesmo momento que os carros que estão indo paralelamente aos pedestres que estão atravessando a rua. Ou seja, o sinal dos carros e o dos pedestres que vão na mesma direção “ficam verdes” ao mesmo tempo. Não sei se deu pra visualizar. Não sou tão bom pra descrever as coisas como o Tolkien.

Só que fica a pergunta: “E se o motorista quiser virar? Vai ter um bando de pedestres atravessando a rua (na faixa, devo ressaltar), o que o motorista nova-iorquino faz?”

Ele pára e espera.

*** Nota não relacionada: o acento agudo de “pára”, do verbo parar, é um dos acentos mais importantes da língua portuguesa, e nunca vou deixar de usar ele, e o novo acordo ortográfico pode ir pra puta que pariu. ***

Sério.

Deixem essa idéia se aprofundar na sua massa cinzenta.

Motoristas parando para pedestres atravessarem sem uma luz mágica específica mandando eles fazerem isso.

No começo, eu ainda parava, olhando para o motorista com cara de cachorro faminto, esperando ele fazer sinalzinho com a mão para eu atravessar (ou não).

Mas o resto da horda de pedestres continuava atravessando como se não houvesse amanhã.

Ou seja, é esperado que o motorista pare para o pedestre atravessar. Por isso, não há semáforo de três fases. O sinal é para todos. E o pedestre tem prioridade.

Acho que é até por causa disso que o trânsito lá é tão horrível - em mais de uma ocasião eu vi só uns dois carros conseguirem passar pelo semáforo por causa da enorme quantidade de pedestres atravessando, gerando um acúmulo de automóveis nos faróis.

Observando mais o comportamento dos pedestres, percebi também que eles (a gigantesca maioria, pelo menos) realmente atravessam na faixa de pedestres. Por aqui é bem um “se dá, sai correndo e atravessa agora”, mas lá as pessoas realmente pareciam dispostas a andar até a faixa e esperar o sinal de pedestres abrir. Acho até que foi um dos momentos que mais me senti turista, quando atravessei uma rua fora da faixa.

Olha só como sou turista, atravessando fora da faixa.

Quando percebi isso, mudei um tanto de idéia sobre trânsito de Nova Iorque. Me pareceu mais civilizado que o de São Paulo.

Agora, porém, olhando em retrospecto, não sei se isso realmente faz o trânsito de NY melhor.

Quero dizer, é legal que o pedestre tem essa prioridade, mas, como já disse, acabava atrapalhando bastante a circulação dos carros. Só que comecei a achar esse esquema relativamente mais perigoso para o pedestre.

É que, a partir de um momento, o pedestre começa a confiar demais no sinal verde e vai atravessando cegamente. Vai que, bem nesse momento, temos um motorista distraído, enviando um SMS enquanto ouve um audiobook e olha o caminho indicado pelo seu GPS?

Pois é.

Aqui chegamos ao assunto que eu realmente queria elaborar, algo que eu fico minhocando bastante toda vez que eu saio a pé por aí (todo dia).

O quanto que eu confio a minha vida nessa luzinha mágica do semáforo?

Muito, aparentemente.

A ponto de ir atravessando a rua sem olhar para os dois lados antes, olhando apenas para o semáforo de pedestres. E arriscando minha vida no processo.

Afinal de contas, o que vai me dar uma visão melhor da rua e do fluxo de carros, o sinal de pedestres ou A PORRA DA RUA?

Mas eu cresci me condicionando a ficar alternando o olhar do semáforo e a rua, sempre tentando ver o melhor momento de atravessar. Se o farol de pedestres tá vermelho, mas não tem carro vindo, eu atravesso. Só que, se o farol de pedestres tá verde, eu não confiro a rua, eu simplesmente vou na fé, crente que o processo civilizatório (o sinal vermelho) vai me proteger.

Os nova-iorquinos elevaram o nível disso, aparentemente, já que nem tem a “fase do pedestre atravessar”. Abriu o sinal, vamos que vamos, a civilização segura as pontas.

Enfim, isso é o glorioso Contrato Social. Nos submetemos a uma série de regras para conseguirmos viver em sociedade. Não quero parecer muito metido, então nem vou me aprofundar no assunto. Se te interessa, vai ler Hobbes. Não, o outro Hobbes.

Mas eu acho que as regras do processo civilizatório superestimam demais o cérebro humano. Afinal de contas, ao confiarmos demais nas engrenagens da sociedade, esquecemos de um fato imutável e absoluto:

Cérebro peida.

O cérebro de todo mundo peida.

E, quando o cérebro peida, a gente perde um momento do desenrolar do tempo-espaço contínuo e isso potencializa a merda.

E sabem o que ajuda a fazer o cérebro peidar?

Excesso de informação.

Muito bem, deixa eu explicar melhor. Voltar para à questão do trânsito. Faixa de pedestre.

Lá estou eu me preparando para atravessar a rua. Tenho duas fontes de informação para dividir meu cérebro. O semáforo e os carros vindo. Uma hora olho pra um e outra pra outro.

Quando meu cérebro conclui que eu posso atravessar, lá vou eu.

Só que, de repente, meu cérebro peida. Olho só para o semáforo. Tá verde pra mim. Não olho a rua. Só que um cara deu aquela aceleradinha pra passar no farol quando ele tá fechando. Pronto, ataque do coração pra todo mundo.

Agora, vamos piorar a situação.

Além do farol e dos carros, estou ouvindo um podcast ou uma música. E estou jogando alguma bobagem no iPhone, como Jetpack Joyride. Ou, quem sabe, estou lendo um livro ou um mangá. E estou bebendo alguma coisa. E, além disso, tem uma “moça da vida” vestida que nem atendente de telemarketing na sexta feira, ou seja, só um tapa-sexo, querendo atravessar a rua também. Ou, ainda, tem alguém com um pug na calçada, algo que sempre me chama a atenção. Sem contar o cheiro nojento de óleo com yakissoba do carrinho na esquina.

Meu cérebro me diz para voltar pra casa.

Resumindo, estou alimentando meu cérebro com feijoada requintada, salada de repolho estragado e torta de batata doce.

Mas eu confio na sociedade. Bato o olho no semáforo, olho de relance para ver se os carros estão parando, e atravesso a rua. Ainda estou vivo.

Acho que estou me perdendo de novo.

O ponto que estou querendo chegar, ou melhor, o questionamento que estou levantando (me senti o lorde filósofo, agora), é o quanto confiamos no nosso cérebro, no cérebro do motorista e no processo civilizatório para fazer uma coisa tão banal quanto atravessar a rua.

Porque nenhum deles é realmente confiável.

Quanto aos nossos cérebros, eles se distraem com qualquer coisa. Não foram feitos para multi-tasking, não importa o quanto nos enganamos quanto à isso. E, quando estamos interagindo no trânsito, a menor distração pode ser fatal.

E a sociedade tenta organizar o seu funcionamento com regras e sinais para nos guiar.

Só que, olhando com calma, um acaba funcionando contra o outro.

Excesso de sinais de trânsito acaba criando pessoas que prestam mais atenção neles que nas outras pessoas, gerando situações perigosas, onde resolvemos atravessar um sinal verde sem antes ter certeza que é realmente seguro.

Sim, o Cracked já falou disso não apenas uma, mas duas vezes. Mas achei tão interessante que quis dar a minha visão dessa merda toda.

Então, basicamente, estou tentando avisar a todos a serem mais cuidadosos no trânsito, preservar mais a vida dos outros, e pararmos de nos distrair com qualquer coisa, dando prioridade às nossas vidas.

Certo?

Mais ou menos.

Que, sinceramente, tenho muitos podcasts para ouvir. Se eu não ouvir enquanto estiver andando por aí, não vou ouvir nunca. E isso é importante. Pra mim.

Assim como tem gente que precisa, sei lá, ler Cinqüenta Tons de Cinza enquanto anda por aí, assim como tem gente que precisa ouvir o jogo do Curíntia enquanto dirige.

E, para isso, precisamos desses sinais cuidando da gente enquanto estamos ocupando nosso cérebro com outras coisas. Mais importantes. Que nossa segurança.

Enfim.

Melhor parar antes que eu aceite os imbecis que tentam mandar SMSs enquanto dirigem.

Não sei mais onde quero chegar com este post.

Vamos concluir assim:

Até inventarem meios de teletransporte ou roupas super resistentes que nos protejam do impacto de um carro a oitenta quilômetros por hora, precisamos equilibrar a atenção que damos para o trânsito e para outras coisas, como podcasts, livros e moças de telemarketing.

Temos todos que seguir a lição que aquela pessoa muito importante para todos nós nos ensinou quando éramos mais jovens:

Seja cuidadoso ou seja atropelado.

Se entender essa imagem, quinhentos pontos de internet pra você.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

This post will change your life!

Bem, talvez seja meio cretino falar sobre minha mui fantástica e deveras divertida viagem para Nova Iorque quando a cidade acabou de ser atingida por uma das piores tempestades da sua história, mas sei lá. Dei sorte, voltei na hora certa, e prefiro falar de coisas legais.

Como, por exemplo, The Book of Mormon. A melhor peça de teatro que eu já vi na minha vida.

Ganhou da outra peça que eu vi, Chapeuzinho Vermelho, em 1991.

É muito bom pra caralho mesmo em excesso ao quadrado alfa plus com microcápsulas de amaciante com cheiro de eucalipto.

A melhor definição que existe para The Book of Mormon é a frase do Jon Stewart que está em alguns cartazes do teatro: “É tão bom que dá raiva”.

Sério, é revoltante de tão bom. Dá vontade de ir assistir algo como apresentação de Macunaíma através de dança performática na feirinha da Vila Madalena só pra recuperar o próprio ego e assim voltar a tentar criar qualquer coisa.

Para quem não sabe, The Book of Mormon é um musical da Broadway criado por Matt Stone e Trey Parker, criadores de South Park (junto com Robert Lopez, compositor e letrista). Conta a história de dois jovens mórmons indo cumprir sua missão na Terra.

Se você conhece pelo menos um pouco de South Park e a visão que Matt e Trey têm de religião, dá pra saber como é o tom da história. Aliás, se você conhece pelo menos um pouco sobre mormonismo e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (como é chamada no Brasil), você já sabe que é algo hilário por si só.

Mas The Book of Mormon não é só engraçado. Tem todo um lado questionador, que te faz refletir sobre religião, e possui uma pitada de análise social, mas sem “brasileirar” e ficar pedante. Sem contar as músicas chiclete que eu estou ouvindo em loop desde que eu voltei (só pra constar, comprei o CD, uma vez que ele está ligado a uma experiência).

Se algum dia você tiver a chance de ver, vá. Mesmo que a alternativa seja fazer sexo com a Scarlett Johansson coberta de chantilly (ou o Hugh Jackman coberto de chocolate, caso prefira) numa cama King Size com enchimento de notas de cem dólares dentro da Estação Espacial Internacional, sério, vá ver The Book of Mormon que vai ser uma experiência mais gratificante. Até porque a questão da cama se torna irrelevante em gravidade zero.

A parte mais difícil é escolher entre o chantilly e o chocolate.

Aliás, até recomendo começar a aprender inglês para entender bem o que eles falam/cantam e a orçar um dos seus rins, que o ingresso é caro pra cacete (sem contar toda a questão de ir pra Nova Iorque - não, não estou querendo exibir minha conta bancária, só quero exibir minha capacidade de economizar dinheiro ao invés de gastar em baladas, bebidas e vômito).

Resumindo, é tão bom assim. Aqui está um link para a apresentação que eles fizeram da primeira música (Hello!) no Tony deste ano para vocês terem uma idéia do clima da peça. Diria para evitarem qualquer outra música, que todas as outras têm spoilers, em maior ou menor grau.

Falando em spoilers, me esforcei bastante para não escrever nenhum, justamente para não desanimar ninguém de ir, nem estragar a experiência de quem conseguir ir e ficar esperando o final, onde é revelado que tudo não passa de uma visão de um budista meditando.

Mas tem um assunto que eu quero desenvolver neste post, e é capaz dos meus leitores mais perspicazes acabarem sacando certas coisas da história, então diria para lerem com cuidado o que vem a seguir. Ou, como meu mui didático professor de direção me instruiu sobre o uso da embreagem, “vai na manha”.

Posso começar? Legal.

Já faz algum tempo que eu tenho pensado em escrever sobre religião no blog. Já fiz umas piadinhas, mas queria fazer um post inteiro sobre o assunto. Afinal de contas, é algo que eu tenho opiniões bem fortes.

Bem, caso ainda não tenha dado pra perceber, sou ateu. Eu não acredito em Deus. Deus não existe. Ponto.

Imagem de Deus. É uma imagem em branco. Vazia. Representando o nada. Porque não há Deus. Deus não existe. Daí, uma imagem em branco. Não discute.

Sim, sim, eu sei que na verdade é impossível realmente saber se Deus existe ou não, tornando todo mundo agnóstico, na prática, mas como o mesmo pode ser dito de qualquer coisa, como duendes, fadas, fantasmas e o Acre, prefiro cortar o caminho e afirmar duma vez que Deus não existe e ponto.

Enfim, não vou discutir a existência divina, não é essa a idéia hoje. Meu objetivo é refletir a utilidade da religião.

Mais que ateu, por muito tempo eu me classifiquei como “anti-teísta”, ou seja, alguém que é ativamente contra a crença em Deus. Eu era daqueles que vestia a camisa do Richard Dawkins e afirmava com um tom de orgulho e desprezo na voz que religião é “a raiz de todo o mal” e devia ser expurgada da face da Terra. Achava que todo e qualquer tipo de organização religiosa devia ser considerada criminosa, perseguida e extinta.

No fundo, ainda penso isso.

Mas com motivo.

Meu principal problema com religião é que a premissa dela gira em torno da “verdade”. Cada religião existente tenta estabelecer uma “verdade” sobre o mundo. Meu Deus que criou o mundo, meu Deus que determinou o caminho da humanidade, meu Deus que escreve o certo por linhas tortas.

Por isso que dá merda.

A partir do momento que alguém chega pra você e fala que sua visão de mundo é errada, que a sua “verdade” não é real, você fica meio puto. Você passa por aquele sentimento de “então eu estive desperdiçando minha vida acreditando nisso, é isso o que você está falando?” e acaba ficando na defensiva, querendo proteger com unhas e dentes a sua crença.

Aliás, mais que a sua crença, ela (provavelmente) é a crença da sua família e de seus amigos. Tá falando que minha mãe mentiu pra mim? É isso, seu filho da puta?

Estão entendendo como isso é uma pilha de merda explosiva?

Por isso que eu gosto da Ciência, com sua premissa de encontrar evidências e se atualizar de acordo com o que for descoberto. Houve uma época que os cientistas e os médico acrediavam que lobotomia frontal era um dos melhores tratamentos existentes contra males psicológicos? Sim. Hoje em dia, não mais. Ainda bem que encontraram novas evidências e perceberam que existem caminhos melhores.

Se bem que podiam agilizar e achar meios melhores para outros procedimentos médicos.

Nessas horas que aparece alguém falando que isso, na verdade, é só uma pequena parcela dos religiosos, que a maior parte das pessoas não leva tão ao pé da letra o conceito da “verdade” que o livro sagrado da sua religião vende.

Então POR QUE CARALHO CONTINUAR COM ESSES LIVROS ESTÚPIDOS?

Sabe, se a maior parte das pessoas só “pesca” o que interessa dos livros religiosos, ignorando todo o resto, pra quê manter viva essa merda? Atualiza essa porra, cria um livro novo, sei lá.

Bem, deixa eu focar um pouco senão vou me perder no argumento. De novo.

Voltando para a questão anterior: a "verdade". Religião, a meu ver, nasceu com o mesmo propósito que a ciência: explicar o mundo e como ele funciona.

Só que ela também ganhou o papel de servir como “justificativa política”. Ou seja, por que o Josuílson é o rei? Porque Deus quis. Ponto.

Assim, por muito tempo e em diversos lugares do mundo, religião, ciência e política foram a mesma coisa. Ainda são, na verdade.

Só que parte dos humanos percebeu que ficar associando tudo o que acontece a figuras mágicas invisíveis não satisfazia sua curiosidade. Então foram analisar. Entender. Buscar evidências. Testar hipóteses. Achar a melhor explicação para um fenômeno natural. Se encontrassem novas evidências, mudariam a explicação. Atualizariam ela. Assim a ciência se separou da religião.

E, poucos séculos atrás, parte da população de certos lugares se encheu o saco de ter que ficar abaixando a cabeça pra gente escrota que estava no poder só porque “Deus quis”. Eles foram lá e tomaram o poder. Criaram uma idéia nova: o Estado laico. O Estado desligado da religião. A política se separa da religião também.

Resumindo: acho que estamos num tipo de período de transição, onde (espero) a religião vá perder definitivamente seu papel de “ciência” e de “política”.

Só que aí fica a pergunta: então pra que a religião vai servir?

Bem, se eu for bem sincero, minha primeira resposta é “porra nenhuma, amassa, joga fora, taca fogo e mija em cima depois”.

Muito importante a parte do mijo, não esquecer.

Só que não dá pra fazer isso. Pelo menos, não tão imediatamente.

Voltando: para que serve religião?

Se ela não explica como o mundo funciona nem justifica a hierarquia social, pra que serve essa porra?

Bem, tem a resposta básica “para cuidar do lado espiritual das pessoas”.

Pena que eu não acredito nisso também. Quero dizer, não acredito na existência de um “lado espiritual”. Existe a consciência, ligada ao cérebro e etc e tal, mas não existe uma “alma” para ser cuidada por um padre.

Existe a versão cínica da resposta anterior, de que ela serve como uma “muleta” para as pessoas conseguirem levantar da cama pela manhã. A premissa é mais ou menos a seguinte: sem o conforto da crença numa eternidade após a morte ou na existência de um ser mágico para responsabilizarmos pelo que acontece no mundo, não conseguiríamos realizar nada porque ficaríamos pensando no propósito de viver.

É aquela coisa de, ao invés de tomar as rédeas da própria vida e fazer alguma coisa com ela, ficar responsabilizando os outros pelo que acontece. Se for uma coisa boa, é graças a Deus. Se for ruim, é culpa do Diabo. Tira um peso das costas.

Provavelmente este será o papel da religião de agora em diante: muleta.

Só que tem ainda mais uma utilidade que eu vejo a religião tendo nesse futuro-não-tão-próximo-quanto-eu-gostaria. Que é a utilidade que eu já vi algumas pessoas falarem, e que The Book of Mormon me fez considerar como algo válido:

Comunidade.

Religião é algo que une as pessoas. Faz elas se aproximarem. Cria vínculos. E isso é importante.

É importante porque…



Ok, acabei de perceber que não sei explicar como isso é uma coisa boa.

Mas é.

Vamos tentar assim:

O ser humano é um bicho social. Nós somos pré-programados pelos nossos genes para viver em um grupo, em maior ou menor grau. Nós precisamos fazer parte de uma sociedade para sobreviver.

Eu realmente acredito que buscamos nos relacionar, mesmo que seja só um pouquinho, com outros seres humanos. Faz parte da nossa vida. Queremos encontrar pessoas com quem nos identificamos, com quem vale a pena se relacionar, com quem conseguimos elaborar um diálogo além de “Esquentou, não?” “É, mas deu no jornal que vai chover de tarde.”

Ou seja, queremos pertencer a um grupo, a uma comunidade.

E religião é um meio de providenciar isso para as pessoas.

Atualmente, esses grupos giram em torno da “verdade” que eles acreditam em comum. O que pode levar para a merdaiada toda já descrita de “minha verdade é mais verdadeira que a sua verdade mentirosa, leve uma bala no seu globo ocular esquerdo.” E isso é ruim.

Mas, se tirarmos essa bosta de querer explicar o mundo e de vender uma verdade, a religião pode ser simplesmente um conjunto de rituais (muito importante, nós gostamos de rituais e afins) e ensinamentos de auto-ajuda para as pessoas se unirem e se ajudarem.

Se jogarmos fora tudo o que se tornou irrelevante na Bíblia, deixando ela com umas seis páginas, temos um tipo de “guia para uma vida moral de acordo com Jesus”, onde as pessoas que se identificam com os ensinamentos de Jesus, esse guru de auto-ajuda, podem se encontrar e conversar sobre suas vidas e como ele está ajudando elas.

Assim como fariam os seguidores de Maomé, do Dalai Lama ou do Deepak Chopra.

Sim, a meu ver, religião vai virar só mais um tipo de auto-ajuda, uma desculpa para as pessoas se encontrarem e conversarem. E isso, sinceramente, não é ruim.

Também não é bom, veja bem. Até porque parte desse bando de gurus retardados de auto-ajuda vendem  bobagens como “cura do câncer através do quiabo” ou “músculos mais fortes injetando purê de mandioquinha na veia”. Ou seja, essa merdaiada “New Age” tem que largar mão de querer ser ciência também. Mas temos que ir um passo de cada vez. O ideal seria que eles (os caras de auto-ajuda e as religiões) só vendessem auto-estima.

Enfim, para essa minha realidade utópica virar realidade, aquela coisa toda de separação da ciência, política e religião tem que acontecer antes.

Infelizmente, não creio que isso acontecerá enquanto eu estiver vivo. Mas espero que meu tataraneto possa viver num mundo onde não existam pessoas que tentam usar termodinâmica para desprovar evolução.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

There, and back again

Olá, pessoas.

Estive viajando. Fui para a América, mais especificamente, Nova Iorque. Passear. E foi legal pra caralho.

Recebendo a América de braços abertos. Falando nisso, só chamo os EUA de América porque irrita as pessoas.

E tem um puta monte de coisa que eu quero escrever e postar aqui no blog sobre essa viagem, o que vai transformar isto aqui num blog mais “normal”, falando da minha vida pessoal, tão agitada, emocionante e conturbada.

Se bem que a quantidade de blogs feitos com o objetivo de cuspir ódio na cara de terceiros provavelmente ultrapassa a quantidade de blogs voltados para experiências pessoais, até por causa do Facebook, que é onde as pessoas gostam de exibir a vida fantástica delas.

Mas eu não uso muito o Facebook, então vou usar o blog aqui. E sei lá quando vou postar o primeiro texto sobre a viagem (além deste, que é o post zero), mas me deu vontade de avisar vocês, todos os catorze leitores deste blog (é o que o Google Analytics me mostra) (e eu sempre achei muito estranho escrever quatorze, me parece errado, sei lá porquê) que eu não desapareci nem desisti do blog (ainda).

Aliás, até acho uma boa começar a colocar posts mais curtos, como este, para manter o blog mais movimentado. Principalmente agora que eu estou usando menos o Tuíter. Percebi que sou muito verborrágico pra ele.

Enfim.

Por enquanto é só. Mas eu volto. Eventualmente.