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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre até onde uma empresa tem controle sobre seus funcionários

O assunto deste post surgiu por causa de assuntos ligados à industria de games, mas eu sinto que ele tem mais a ver com o meu blog pessoal, só que, ao mesmo tempo, acho que o assunto é interessante para o blog de games. Solução: postá-lo nos dois. Porque os blogs são meus e eu faço o que eu quero com eles, e eu sou um preguiçoso que não quer pensar em outro assunto para o blog de games nesta semana.

De qualquer maneira, o assunto de hoje nasceu por causa de dois acontecimentos recentes: a matéria do jornal japonês Nikkei sobre as condições de trabalho na Konami e a demissão de Chris Pranger da Nintendo.

Sobre o primeiro caso, esta matéria da Nikkei trouxe à tona as péssimas condições de trabalho na Konami, onde os desenvolvedores são vigiados de maneira orwelliana, tendo praticamente todo passo seu observado e documentado dentro da empresa e até mesmo fora dela, e uma cultura da empresa de realocar funcionários que não considera mais tão úteis para funções braçais, como limpeza ou a linha de produção de máquinas de pachinko. Seguindo essa matéria, outros lugares fizeram investigações próprias, descobrindo mais, como o fato da Konami já ter entrado em contato com empresas que contrataram ex-funcionários para denegrir suas imagens (dos ex-funcionários, não dela mesma ou das outras empresas).

Não é bem um Big Brother, mas é Big e é quem a Konami usa para vigiar os funcionários.

Quanto ao segundo, a história é que Chris Pranger, um funcionário da Nintendo Treehouse, a divisão da Nintendo of America que cuida da tradução de jogos, foi demitido após ter participado de um podcast chamado Part-Time Gamers. Não se sabe ao certo se foi simplesmente o fato dele ter ido ao podcast ou se foi alguma coisa específica que ele falou que levou à demissão, mas teorias é o que não falta por aí. Mesmo eu tenho a minha, que o que pegou com a matriz da Nintendo, no Japão, foi ele ter falado do Masahiro Sakurai, diretor de Smash Bros e criador de Kirby, como se ele fosse uma diva, por mais que ele (provavelmente, baseado no que já li) seja uma.

Estas duas histórias são semelhantes não apenas por envolverem empresas japonesas de games, mas porque elas giram em torno de algo que sempre me deixou pensativo: o quanto empresas podem/devem confiar nos funcionários, principalmente em relação à quantidade de informação detida por eles. É uma paranóia corporativa, um medo por parte das empresas de que seus funcionários as traiam e divulguem todos os seus segredos para o mundo, o que criou essa cultura de Acordos de Confidencialidade, ou Non-Disclosure Agreements, como é chamado em inglês (vou me referir a eles como NDAs daqui pra frente, por preferir a sigla em inglês).

Quanto mais eu pensava sobre esses dois episódios e sobre meu histórico como funcionário, mais eu não chegava à conclusão nenhuma. Por isso, resolvi escrever sobre o assunto, tanto para ver se eu descubro algum desfecho satisfatório na minha cabeça quanto para ver se alguém me ilumina quanto à questão (em outras palavras, comentem).

Porém, antes de começar, para variar um pouco, quero deixar claro sobre o que eu não estou falando aqui: isto não é sobre leis trabalhistas, isto não é sobre abuso de poder e bullying emocional em ambientes corporativos, isto não é sobre cultura empresarial que foca em competição e que transforma a vida dos funcionários em um inferno e isto não é sobre “o capitalismo é assim e ponto”. Talvez eu comente um pouco esses assuntos, mas eles não são o foco deste post (pelo menos eu acho que não).

Vamos lá, então?

Controlando a informação


Acredito que existam dois motivos principais para as empresas ficarem paranóicas com vazamento de informações.

O primeiro, e mais óbvio, é medo de que concorrentes conheçam segredos industriais e assim consigam copiar e lançar o mesmo produto antes. Ou, pior ainda, lançar uma versão melhorada. Ou, no pior dos piores dos casos, eles consigam patentear antes.

Por isso, faz sentido as empresas quererem proteger tais informações. Daí a marcação pra cima dos funcionários, tudo para proteger o mojo, baby. Simples assim, nem sei o que mais acrescentar.

Só que, nos dias de hoje (toda vez que alguém usa a expressão “nos dias de hoje”, além de demonstrar um vocabulário pobre, a pessoa fica parecendo uma velha), existe um segundo motivo, tão grave quanto o primeiro: perder o controle da informação e “queimar” o produto no mercado (até já falei mais ou menos disto antes).

Estamos vivendo numa era de hype, spoilers e facilidade de acesso à informação, então é do interesse das empresas informar os consumidores num ritmo calculado, tanto para eles não esquecerem que o produto existe como para que não desistam dele antes mesmo do lançamento, seja por ficar de saco cheio de tanto ser bombardeado por propagandas quanto por saber que no final tudo era um sonho exibicionista do Coisa, e que ele sempre quis andar pelado por aí. Um exemplo bom é com trailers, tanto de filmes quanto de games: há um planejamento forte quanto à data de lançamento de cada trailer e o que cada trailer vai revelar, justamente para que o filme/game fique na mente das pessoas, e quanto mais próximo do lançamento, mais “lembretes” a empresa manda.

Por isso, quando uma informação vaza, seja por causa de um funcionário, seja por causa de um consumidor com um celular, todo o plano vai por água abaixo, e as empresas menos competentes ficam de mimimi enquanto que as mais espertas tentam usar isso a seu favor.

De qualquer maneira: as empresas querem manipular a informação ao máximo e qualquer furo no plano é um stress desgraçado, por isso é preciso garantir que a ela não vaze.

Em última instância, esses dois motivos giram em torno de garantir um mercado para o produto, seja evitando que a concorrência roube consumidores em potencial, seja evitando que os próprios consumidores percam o interesse. E, sem um mercado, a empresa corre o risco de falir. E falência é ruim.

Como os funcionários são aqueles que mais informações detêm sobre o produto, é preciso encontrar um meio de impedí-los de vazar essas informações. Daí a existência de NDAs e a marcação toda sobre o que eles fazem na internet e com quem eles conversam.

Só que tem hora que isso passa dos limites.

Controlando os funcionários


Eu não sei como falar isso sem ser constatando aquilo que era para ser o óbvio: não é para as empresas ficarem tratando os empregados como se eles fossem propriedade delas. Ou melhor, vamos refrasear isso assim: é para as empresas tratarem os funcionários como seres humanos. Ponto.

Pikmins, em compensação, podem ser destratados e abusados à vontade.

Portanto, essa coisa da Konami de ficar vigiando a vida dos empregados e querendo controlar cada santo passo que eles dão é um absurdo. Acho que esse é um dos motivos para existirem leis trabalhistas: evitar que o trabalhador vire um escravo. Mas, como já disse antes, não vou discutir essas leis, até porque elas variam de país para país, e é bem possível que tudo o que a Konami fez esteja dentro da lei japonesa. Sem contar que não sou advogado nem nada parecido.

Ao mesmo tempo, acho que as empresas estão no direito delas de exigir sigilo dos funcionários. Afinal, como já expliquei antes, é importante para elas controlarem a informação.

Só que aqui está a parte que muitas empresas não entendem: também é do interesse dos funcionários que essas informações continuem sigilosas. Elas podem influenciar o sucesso do trabalho ou mesmo o futuro do emprego deles.

Quero dizer, é do interesse deles se eles entendem a importância delas.

Que eu acho que esse é outro grande problema: uma falta de alinhamento entre o que a empresa e o que o funcionário acha importante ser sigiloso. É o que me pareceu que aconteceu no caso do Chris Pranger: a Nintendo começou a dar mais liberdade para os empregados, ele achou que tudo bem falar certas coisas num podcast, só que não era. Faltou deixar mais claro para ele o que podia e o que não podia ser dito, assim como faltou da parte dele ir perguntar para os chefes se tudo bem ele ir num podcast.

Aliás, essa é outra coisa complicada, pois ele devia ter que pedir permissão, como uma criança, sobre o que ele pode ou não pode fazer? Como envolve a mídia, quero dizer que sim, mas como alguém que quer confiar mais nos seres humanos e quer tratar outros adultos como pessoas responsáveis, quero dizer não. No final das contas, acho que a resposta correta é que ele devia ter pedido orientação. É diferente de permissão, porque ir ou não é algo que ele deve decidir, mas como ele estaria representando a empresa e não é alguém da área de relações públicas, seria do interesse dela orientá-lo sobre o que ele poderia ou não falar.

No final das contas, tenho a impressão que tudo volta a uma coisa que nunca entendi direito: esse antagonismo entre a empresa e seus empregados, que muita gente, tanto chefes quanto funcionários, gostam de cultivar, como se fossem inimigos mortais que estão em guerra.

A não ser que você trabalhe para este filho da puta, que esse é um inimigo da humanidade.
Só de olhar pra cara dele quero socar o monitor (referência, para quem não conhece).

Agora que vou escancarar os anos que passei trabalhando com comunicação corporativa, treinamento de gestão e e-learning, mas eu realmente acredito que, numa empresa, todo mundo é um profissional responsável cumprindo uma função combinada, e se alguém falta com suas responsabilidades, seja o chefe atrasando salário (coisa que já passei), seja o funcionário que faz tudo de qualquer jeito e sobra para os outros consertarem (coisa que também já passei), é para resolver o problema com o indivíduo em questão, e não rotular todos como “o inimigo”. E estou falando tanto dos funcionários que tratam todos os chefes como escrotos que só querem ferrá-los como dos chefes que encaram todos os funcionários como vagabundos que só querem sugar o dinheiro da empresa.

E, antes que pareça que estou propagandeando aquela visão cor-de-rosa de gestão onde todo mundo veste a camisa e faz parte da família e sei lá o que mais, estou falando de uma visão mais mercenária e “honrada” do mundo mesmo: se existe um acordo com recompensa financeira e um contrato, é para cumprir com ele porque é assim que pessoas responsáveis e legais devem agir, e é para nos tratarmos como pessoas responsáveis e legais. Se alguém é irresponsável e/ou escroto, aí a gente muda de postura, mas só com o irresponsável escroto, e não com todo mundo.

Já estou ficando redundante de novo mais uma vez, repetindo a mesma idéia com palavras diferentes. Acho melhor concluir logo a coisa toda.

Conclusão


Até onde uma empresa pode controlar a vida dos funcionários?

A resposta ideal seria “nenhum lugar, não é para empresa nenhuma se meter na vida dos funcionários e ponto.”

Mas nós não estamos no mundo ideal, então a melhor resposta que consegui chegar enquanto escrevia isto é: “depende de acordo com o que for combinado entre a empresa e o funcionário, e ambas as partes tem que saber o que é e o que não é importante para cada uma e assim determinar quais informações podem ou não podem sair da empresa.”

Gostaria de acrescentar também um “e também não é para ser escroto.” Óbvio.

E, só para voltar para os dois acontecimentos que me levaram a escrever tudo isto, do modo como enxergo, a Konami está sendo escrota com os funcionários e o Chris Pranger e a Nintendo não souberam se comunicar, levando a uma decisão drástica. Infelizmente, acontece. Tanto as decisões drásticas quanto as empresas escrotas.

Links


Report: Konami Is Treating Its Staff Like Prisioners (Kotaku)

• Sources: When You Work At Konami, Big Brother Is Always Watching (Kotaku)

• The Silent Hell That Is Konami (The Jimquisition)

• Nintendo Fires Employee For Speaking On Podcast (Kotaku)

• Talking Point: Nintendo's Dismissal of Chris Pranger Highlights Issues With Company Culture (Nintendo Life)

• No, the gaming industry isn't too secretive (Polygon)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Engenharia, design e cabos de força

Olá. Este vai ser um post bem “first-world problem”, mas eu tenho que descarregar o meu ódio no coração, Ikki.

Esta história começa ainda ano passado, em novembro de 2014, quando meu Hard Drive externo de backup morreu. Resolvi, então, arranjar dois HDs de backup substitutos: um para o Time Machine (o software de backup que vem com o OSX), como o antigo, e um para eu clonar com o Carbon Copy Cloner. Caso queiram saber o porquê de arranjar esses dois, o motivo é que eles suprem necessidades diferentes, porém complementares: o do Time Machine é um tipo de versionador, que mantém todas as versões dos meus arquivos salva para que, caso necessário, eu ache versões antigas de arquivos meus; já o clone é para ser um HD de boot para eu conseguir ligar o meu computador caso meu HD principal morra e assim eu conseguir trabalhar no computador (hahaha, trabalhar, claro) até conseguir substituir o HD principal. O ideal seria que eu ainda tivesse uma solução de backup online, que supre a emergência chamada “incêndio”, mas tô com preguiça no momento, sem contar o custo.

Enfim, comprei os HDs num dos xing-lings da Paulista (não tenho mais saco de passear pela Santa Ifigênia e nunca fui muito fã do Mercado Livre, antes que vocês me julguem por pagar um pouco mais caro por hardware) (agora que acabei de escrever esta expressão, “xing-ling”, que percebi como ela é preconceituosa. Aceito sugestões de substitutas, mas a melhor que me ocorre por enquanto é “stand center”, em homenagem ao falecido) e, ao voltar para casa, tive que encarar um dos meus grandes traumas: cabos e mais cabos e mais cabos. E mais cabos. Cabos.

Não sei dizer exatamente quando, mas a partir de um certo ponto da minha vida resolvi manter os cabos do computador e etc minimamente organizados, prendendo sobras com braçadeiras plásticas e tagueando tudo com fita crepe ou similar. Não conseguia deixar no nível que algumas pessoas mais obsessivas, mas ficava contente com os meus resultados.

Só que eu sempre tive um grande arqui-inimigo nessa coisa toda de organizar os cabos: os adaptadores de corrente alternada, ou como eu sempre chamei, os “power bricks”.

Se ao menos eles perdessem seus poderes de maneira estúpida, ia ser ótimo.

Mais especificamente, os power bricks tipo wall wart (daqui em diante chamados de PBWW).

Seguinte: esses PBWW são uma grande merda. Uma merda gigantesca. Eles são um ótimo exemplo daquilo que eu chamo de Produtos Projetados Para Ninguém™, onde o pessoal que cuidou de desenhar isso não levou em conta como as pessoas usam o produto. Antigamente chamava coisas assim de Produto Projetado Por Engenheiros™, e antes disso chamava de Produto Projetados Por Desãããinnn-ers™, mas hoje em dia eu sei que muita coisa tosca por aí não é culpa nem do engenheiro nem do designer, provavelmente é culpa do pessoal de vendas, do chefe ou, na gigantesca maioria dos casos, do cliente.

Enfim, para melhor justificar porque eu acho os PBWW uma grande merda, vou falar um pouco do meu escritoriozinho aqui, onde crio estas peças de texto que vocês encontram neste blog.

Comecemos listando o que tenho aqui que precisa de uma tomada: um iMac, um modem, um roteador wi-fi, uma multifuncional, um hub USB e, desde novembro passado, dois HDs de backup. Total: sete.

Alguém aqui tem sete tomadas enfileiradas em casa, uma do lado da outra?

Não. Ninguém tem. É óbvio que ninguém tem.

Tudo bem, também é preciso ressaltar que nem todo mundo tem sete aparelhos para plugar na tomada, imagino que a maior parte das pessoas fique na casa dos três (PC, modem e impressora), mas ainda assim é difícil conseguir uma tomada exclusiva para cada aparelho.

Mas é preciso conectar tudo na tomada.

Solução? Benjamins. Extensões. Estabilizadores. Filtros de linha. Gambiarras. Aquela maravilha.

No meu caso, a solução foi um no-break (aliás, sabiam que no-break é o nome que brasileiro deu para essa coisa, e que o nome em inglês é completamente diferente - Uninterruptible Power Supply, ou UPS?) com alguns benjamins (meu no-break só tem quatro entradas e tenho sete aparelhos, caso tenham esquecido). Por muito tempo foi um estabilizador, mas um dia perdi trabalho por causa de uma queda de energia e aprendi a lição e arranjei um no-break.

Só que aí aparece meu grande arqui-inimigo, meu nêmesis, minha pedra no sapato, minha fonte de fúria incontrolável: os PBWW.

A parte de trás do meu no-break…

…onde tenho que encaixar estes quatro PBWW do apocalipse, além de outros plugues minimamente inteligentes, mas…

…acontece isto.

Ahem.

Essa merda egocêntrica de PBWW é tão metida a estrelinha brilhante que brilha lá no céu que ocupa de duas a três tomadas da merda do no-break! Puta que pariu! Tá se achando a porra da última bolacha do pacote, sua bosta? Tá se achando a foda? Sinistra? Avassaladora? No escuro é um perigo? Caralho! Você é só a porra do plugue da merda do hub usb, porque cacetaralho você tem que ocupar toda a existência com sua mesquinharia galopante? Caralho! Porra! Cu! Cacete! Merda! Cocô! Xixi! Toba! Aaaaaaaaaaah!

[Respira fundo]

Ah…

Ok.

De volta à historinha.

Fiz do jeito que deu a conexão da coisa toda, criando uma lambança horrorosa de benjamins e extensões que parecia que ia explodir a qualquer momento quando alguma coisa soltasse uma fagulha elétrica indesejada, mas enfim, foda-se, tava tudo plugado e funcionando.

arranjamos gatos de estimação.

E eles ADORAM a parte de trás do computador. É um tipo de Disney para os gatos, eles adoram passear sobre todos os cabos, principalmente aqueles que estão super-não-bem presos no benjamim que está plugado na extensão que conecta na tomada mais exposta do no-break.

Ou seja, fiquei com um puta cagaço dos gatos causarem uma explosão no no-break e tacarem fogo em tudo, inclusive neles mesmos.

O que me trouxe de volta à minha eterna briga com os PBWW. Esses malditos. Os PBWW, não os gatos. Vocês entenderam.

A origem do problema com os PBWW é que temos uma falta de conversa entre o pessoal dos produtos eletrônicos (que precisam de adaptadores de corrente alternada) e o pessoal das soluções elétricas (no-breaks, extensões, etc). E este problema de comunicação nasce do fato dos dois grupos terem o mesmo briefing:

“Faça o produto mais slim possível.”

Os designers/engenheiros de produtos eletrônicos estão sempre tentando diminuir o tamanho de suas criações. Só que, ao mesmo tempo, essas maravilhas tecnológicas continuam precisando de energia elétrica do jeito certo, o que gera a necessidade de um adaptador de corrente alternada, senão o troço não vai. E essa porra de adaptador é enormemente gigantesca. Solução: esconder o adaptador no cabo, já que a foto do produto que vai na caixa e nas campanhas publicitárias nunca mostra o cabo do maldito.

Já os designers/engenheiros de soluções elétricas querem entrouxar (essa palavra existe de verdade! Eu sempre usei ela me achando o Guimarães Rosa, como se tivesse inventado ela. Grande lição de humildade para mim, vivendo e aprendendo) a maior quantidade de tomadas nos seus produtos, mas sem deixar o aparelho do tamanho de um frigobar. Resultado: um monte de tomada, uma do lado da outra, apertadinhas como sardinhas numa lata.

Daí, quando o consumidor quer plugar seus produtos eletrônicos na sua solução elétrica (nota mental: usar essa expressão como eufemismo para sexo em um post futuro), ele não consegue aproveitar todas as tomadas extras porque algum imbecil concluiu que o melhor lugar para esconder o adaptador era na porra do plugue.

E assim chegamos na parte que mais me irrita nesta história toda, e que vocês provavelmente estão pensando: já existe uma solução para este problema.

É só pôr a porra do adaptador no meio do cabo (ou próximo ao final do cabo), deixando o plugue com um tamanho aceitável. Óbvio.

Ó-BÊ-VÊ-Ô!

Aqui um exemplo inteligente de posicionamento de power brick, feito pela HP (dando crédito para quem merece).

Mas nãããããããooo, temos que ser especiais e fazer o plugue gigante para nosso produto não-tão-fundamental-assim ficar pequeno (e nem sempre bonito, tem muito produto eletrônico que é minúsculo e horroroso) e ocupar três tomadas da solução elétrica do consumidor.

Adivinha só: vocês não são especiais. São só uns imbecis que não pararam para ver como o consumidor usa os seus produtos. Provavelmente nem pensaram no cabo de força, só mandaram a fábrica chinesa fazer a opção mais barata e ligaram o botão do foda-se. Seus merdas.

E não é a única solução, já que também tem a “meu produto é grande sim, e daí”, que é bater o pau na mesa e aumentar o tamanho do produto, colocando o adaptador dentro dele. E, se as vendas do PS4 (e mesmo do PS3, em certo grau) forem indicativos, se seu produto é bom (e é a única opção para quem quer jogar Tales of), as pessoas compram seu produto gigante e arranjam espaço para ele, além da vantagem de não gastarem dezevinte tomadas com ele.

Porém, a verdade é que a estupidez do cabo de força nunca vai ser efetivamente um fator decisivo na hora da compra. Não vejo a NET ou a Vivo fazendo uma propaganda com a frase “nosso modem não ocupa duas tomadas!” ou mesmo alguém num stand center ou na Santa Ifigênia pedindo pro vendedor abrir as embalagens e comparar os cabos de força. No fim, é só um problema que temos que conviver com, por mais que seja um “first-world problem” (esta expressão só pode ser usada em inglês, até para reforçar seu significado). Nem eu vou realmente desconsiderar um produto com base nisso, tanto que comprei direto os HDs que pareciam ser os mais confiáveis (da Seagate com case da Samsung), e teria comprado eles mesmo se o vendedor tivesse me mostrado um concorrente com um plugue inteligente.

Mas que irrita o fato de existir uma solução e os fabricantes de produtos eletrônicos cagarem e andarem pra isso, irrita.

Antes de terminar o post, queria mostrar a solução que eu encontrei na Kalunga e que resolveu os meus problemas, este “polvo” de tomadas:

Não achei vendendo online (achei num lugar, mas não tinha foto e não queria indicar sem ter 100% de certeza que era o certo), mas aqui tem o site do fabricante.

Basicamente, alguém percebeu este problema, provavelmente OBSERVANDO SEUS CONSUMIDORES, QUEM DIRIA, e criou a solução.

Lindo. Perfeito. E recomendado por este blog.

Sr. Forceline, pode pôr este selo na embalagem do seu produto!


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Faixas de pedestres e flatulência cerebral.


Este é o post que eu fui e voltei e fui e não conseguia terminar. Agora consegui. Não tá fantástico, mas eu precisava acabar ele, de um jeito ou de outro. Enfim.

Nova Iorque. De novo.

Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o trânsito de lá. Ou o que eu pude ver do trânsito indo de van do aeroporto até o hotel.

E me pareceu ainda pior que o trânsito de São Paulo.

É, eu sei. Soa impossível, mas realmente parecia pior. Carros cortando as faixas de um lado para o outro, fechando cruzamentos e… bem… essas duas coisas que me chamaram a atenção a princípio. Coisas que você nunca vê em São Paulo.

Como este é o único jeito das pessoas entenderem sarcasmo hoje em dia, aqui está a hashtag.

Depois teve outra coisa que me incomodou muito: os motoristas ignorarem, em grande parte, a faixa de pedestre. Estou falando de parar o carro em cima da faixa no farol vermelho. Parecia que isso simplesmente “é parte do processo”, ou seja, é esperado por todos que os carros parem em cima da faixa. Aqui, pelo menos, ainda dá multa, fazendo com que a maioria dos motoristas evite parar na faixa. Acho.

Enfim, nos primeiros dias, eu tava bem incomodado com o trânsito de Nova Iorque. Me parecia que o pedestre era ainda mais ignorado que em São Paulo.

Só que, depois de alguns dias, eu acabei percebendo uma coisa muito interessante sobre o trânsito lá: não havia semáforos de três fases, como aqui, com o “turno do pedestre”. Lá só tinham duas fases, ambas para os carros. O pedestre? Bem, ele atravessava quando o sinal de pedestre deixava. E era no mesmo momento que os carros que estão indo paralelamente aos pedestres que estão atravessando a rua. Ou seja, o sinal dos carros e o dos pedestres que vão na mesma direção “ficam verdes” ao mesmo tempo. Não sei se deu pra visualizar. Não sou tão bom pra descrever as coisas como o Tolkien.

Só que fica a pergunta: “E se o motorista quiser virar? Vai ter um bando de pedestres atravessando a rua (na faixa, devo ressaltar), o que o motorista nova-iorquino faz?”

Ele pára e espera.

*** Nota não relacionada: o acento agudo de “pára”, do verbo parar, é um dos acentos mais importantes da língua portuguesa, e nunca vou deixar de usar ele, e o novo acordo ortográfico pode ir pra puta que pariu. ***

Sério.

Deixem essa idéia se aprofundar na sua massa cinzenta.

Motoristas parando para pedestres atravessarem sem uma luz mágica específica mandando eles fazerem isso.

No começo, eu ainda parava, olhando para o motorista com cara de cachorro faminto, esperando ele fazer sinalzinho com a mão para eu atravessar (ou não).

Mas o resto da horda de pedestres continuava atravessando como se não houvesse amanhã.

Ou seja, é esperado que o motorista pare para o pedestre atravessar. Por isso, não há semáforo de três fases. O sinal é para todos. E o pedestre tem prioridade.

Acho que é até por causa disso que o trânsito lá é tão horrível - em mais de uma ocasião eu vi só uns dois carros conseguirem passar pelo semáforo por causa da enorme quantidade de pedestres atravessando, gerando um acúmulo de automóveis nos faróis.

Observando mais o comportamento dos pedestres, percebi também que eles (a gigantesca maioria, pelo menos) realmente atravessam na faixa de pedestres. Por aqui é bem um “se dá, sai correndo e atravessa agora”, mas lá as pessoas realmente pareciam dispostas a andar até a faixa e esperar o sinal de pedestres abrir. Acho até que foi um dos momentos que mais me senti turista, quando atravessei uma rua fora da faixa.

Olha só como sou turista, atravessando fora da faixa.

Quando percebi isso, mudei um tanto de idéia sobre trânsito de Nova Iorque. Me pareceu mais civilizado que o de São Paulo.

Agora, porém, olhando em retrospecto, não sei se isso realmente faz o trânsito de NY melhor.

Quero dizer, é legal que o pedestre tem essa prioridade, mas, como já disse, acabava atrapalhando bastante a circulação dos carros. Só que comecei a achar esse esquema relativamente mais perigoso para o pedestre.

É que, a partir de um momento, o pedestre começa a confiar demais no sinal verde e vai atravessando cegamente. Vai que, bem nesse momento, temos um motorista distraído, enviando um SMS enquanto ouve um audiobook e olha o caminho indicado pelo seu GPS?

Pois é.

Aqui chegamos ao assunto que eu realmente queria elaborar, algo que eu fico minhocando bastante toda vez que eu saio a pé por aí (todo dia).

O quanto que eu confio a minha vida nessa luzinha mágica do semáforo?

Muito, aparentemente.

A ponto de ir atravessando a rua sem olhar para os dois lados antes, olhando apenas para o semáforo de pedestres. E arriscando minha vida no processo.

Afinal de contas, o que vai me dar uma visão melhor da rua e do fluxo de carros, o sinal de pedestres ou A PORRA DA RUA?

Mas eu cresci me condicionando a ficar alternando o olhar do semáforo e a rua, sempre tentando ver o melhor momento de atravessar. Se o farol de pedestres tá vermelho, mas não tem carro vindo, eu atravesso. Só que, se o farol de pedestres tá verde, eu não confiro a rua, eu simplesmente vou na fé, crente que o processo civilizatório (o sinal vermelho) vai me proteger.

Os nova-iorquinos elevaram o nível disso, aparentemente, já que nem tem a “fase do pedestre atravessar”. Abriu o sinal, vamos que vamos, a civilização segura as pontas.

Enfim, isso é o glorioso Contrato Social. Nos submetemos a uma série de regras para conseguirmos viver em sociedade. Não quero parecer muito metido, então nem vou me aprofundar no assunto. Se te interessa, vai ler Hobbes. Não, o outro Hobbes.

Mas eu acho que as regras do processo civilizatório superestimam demais o cérebro humano. Afinal de contas, ao confiarmos demais nas engrenagens da sociedade, esquecemos de um fato imutável e absoluto:

Cérebro peida.

O cérebro de todo mundo peida.

E, quando o cérebro peida, a gente perde um momento do desenrolar do tempo-espaço contínuo e isso potencializa a merda.

E sabem o que ajuda a fazer o cérebro peidar?

Excesso de informação.

Muito bem, deixa eu explicar melhor. Voltar para à questão do trânsito. Faixa de pedestre.

Lá estou eu me preparando para atravessar a rua. Tenho duas fontes de informação para dividir meu cérebro. O semáforo e os carros vindo. Uma hora olho pra um e outra pra outro.

Quando meu cérebro conclui que eu posso atravessar, lá vou eu.

Só que, de repente, meu cérebro peida. Olho só para o semáforo. Tá verde pra mim. Não olho a rua. Só que um cara deu aquela aceleradinha pra passar no farol quando ele tá fechando. Pronto, ataque do coração pra todo mundo.

Agora, vamos piorar a situação.

Além do farol e dos carros, estou ouvindo um podcast ou uma música. E estou jogando alguma bobagem no iPhone, como Jetpack Joyride. Ou, quem sabe, estou lendo um livro ou um mangá. E estou bebendo alguma coisa. E, além disso, tem uma “moça da vida” vestida que nem atendente de telemarketing na sexta feira, ou seja, só um tapa-sexo, querendo atravessar a rua também. Ou, ainda, tem alguém com um pug na calçada, algo que sempre me chama a atenção. Sem contar o cheiro nojento de óleo com yakissoba do carrinho na esquina.

Meu cérebro me diz para voltar pra casa.

Resumindo, estou alimentando meu cérebro com feijoada requintada, salada de repolho estragado e torta de batata doce.

Mas eu confio na sociedade. Bato o olho no semáforo, olho de relance para ver se os carros estão parando, e atravesso a rua. Ainda estou vivo.

Acho que estou me perdendo de novo.

O ponto que estou querendo chegar, ou melhor, o questionamento que estou levantando (me senti o lorde filósofo, agora), é o quanto confiamos no nosso cérebro, no cérebro do motorista e no processo civilizatório para fazer uma coisa tão banal quanto atravessar a rua.

Porque nenhum deles é realmente confiável.

Quanto aos nossos cérebros, eles se distraem com qualquer coisa. Não foram feitos para multi-tasking, não importa o quanto nos enganamos quanto à isso. E, quando estamos interagindo no trânsito, a menor distração pode ser fatal.

E a sociedade tenta organizar o seu funcionamento com regras e sinais para nos guiar.

Só que, olhando com calma, um acaba funcionando contra o outro.

Excesso de sinais de trânsito acaba criando pessoas que prestam mais atenção neles que nas outras pessoas, gerando situações perigosas, onde resolvemos atravessar um sinal verde sem antes ter certeza que é realmente seguro.

Sim, o Cracked já falou disso não apenas uma, mas duas vezes. Mas achei tão interessante que quis dar a minha visão dessa merda toda.

Então, basicamente, estou tentando avisar a todos a serem mais cuidadosos no trânsito, preservar mais a vida dos outros, e pararmos de nos distrair com qualquer coisa, dando prioridade às nossas vidas.

Certo?

Mais ou menos.

Que, sinceramente, tenho muitos podcasts para ouvir. Se eu não ouvir enquanto estiver andando por aí, não vou ouvir nunca. E isso é importante. Pra mim.

Assim como tem gente que precisa, sei lá, ler Cinqüenta Tons de Cinza enquanto anda por aí, assim como tem gente que precisa ouvir o jogo do Curíntia enquanto dirige.

E, para isso, precisamos desses sinais cuidando da gente enquanto estamos ocupando nosso cérebro com outras coisas. Mais importantes. Que nossa segurança.

Enfim.

Melhor parar antes que eu aceite os imbecis que tentam mandar SMSs enquanto dirigem.

Não sei mais onde quero chegar com este post.

Vamos concluir assim:

Até inventarem meios de teletransporte ou roupas super resistentes que nos protejam do impacto de um carro a oitenta quilômetros por hora, precisamos equilibrar a atenção que damos para o trânsito e para outras coisas, como podcasts, livros e moças de telemarketing.

Temos todos que seguir a lição que aquela pessoa muito importante para todos nós nos ensinou quando éramos mais jovens:

Seja cuidadoso ou seja atropelado.

Se entender essa imagem, quinhentos pontos de internet pra você.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

This post will change your life!

Bem, talvez seja meio cretino falar sobre minha mui fantástica e deveras divertida viagem para Nova Iorque quando a cidade acabou de ser atingida por uma das piores tempestades da sua história, mas sei lá. Dei sorte, voltei na hora certa, e prefiro falar de coisas legais.

Como, por exemplo, The Book of Mormon. A melhor peça de teatro que eu já vi na minha vida.

Ganhou da outra peça que eu vi, Chapeuzinho Vermelho, em 1991.

É muito bom pra caralho mesmo em excesso ao quadrado alfa plus com microcápsulas de amaciante com cheiro de eucalipto.

A melhor definição que existe para The Book of Mormon é a frase do Jon Stewart que está em alguns cartazes do teatro: “É tão bom que dá raiva”.

Sério, é revoltante de tão bom. Dá vontade de ir assistir algo como apresentação de Macunaíma através de dança performática na feirinha da Vila Madalena só pra recuperar o próprio ego e assim voltar a tentar criar qualquer coisa.

Para quem não sabe, The Book of Mormon é um musical da Broadway criado por Matt Stone e Trey Parker, criadores de South Park (junto com Robert Lopez, compositor e letrista). Conta a história de dois jovens mórmons indo cumprir sua missão na Terra.

Se você conhece pelo menos um pouco de South Park e a visão que Matt e Trey têm de religião, dá pra saber como é o tom da história. Aliás, se você conhece pelo menos um pouco sobre mormonismo e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (como é chamada no Brasil), você já sabe que é algo hilário por si só.

Mas The Book of Mormon não é só engraçado. Tem todo um lado questionador, que te faz refletir sobre religião, e possui uma pitada de análise social, mas sem “brasileirar” e ficar pedante. Sem contar as músicas chiclete que eu estou ouvindo em loop desde que eu voltei (só pra constar, comprei o CD, uma vez que ele está ligado a uma experiência).

Se algum dia você tiver a chance de ver, vá. Mesmo que a alternativa seja fazer sexo com a Scarlett Johansson coberta de chantilly (ou o Hugh Jackman coberto de chocolate, caso prefira) numa cama King Size com enchimento de notas de cem dólares dentro da Estação Espacial Internacional, sério, vá ver The Book of Mormon que vai ser uma experiência mais gratificante. Até porque a questão da cama se torna irrelevante em gravidade zero.

A parte mais difícil é escolher entre o chantilly e o chocolate.

Aliás, até recomendo começar a aprender inglês para entender bem o que eles falam/cantam e a orçar um dos seus rins, que o ingresso é caro pra cacete (sem contar toda a questão de ir pra Nova Iorque - não, não estou querendo exibir minha conta bancária, só quero exibir minha capacidade de economizar dinheiro ao invés de gastar em baladas, bebidas e vômito).

Resumindo, é tão bom assim. Aqui está um link para a apresentação que eles fizeram da primeira música (Hello!) no Tony deste ano para vocês terem uma idéia do clima da peça. Diria para evitarem qualquer outra música, que todas as outras têm spoilers, em maior ou menor grau.

Falando em spoilers, me esforcei bastante para não escrever nenhum, justamente para não desanimar ninguém de ir, nem estragar a experiência de quem conseguir ir e ficar esperando o final, onde é revelado que tudo não passa de uma visão de um budista meditando.

Mas tem um assunto que eu quero desenvolver neste post, e é capaz dos meus leitores mais perspicazes acabarem sacando certas coisas da história, então diria para lerem com cuidado o que vem a seguir. Ou, como meu mui didático professor de direção me instruiu sobre o uso da embreagem, “vai na manha”.

Posso começar? Legal.

Já faz algum tempo que eu tenho pensado em escrever sobre religião no blog. Já fiz umas piadinhas, mas queria fazer um post inteiro sobre o assunto. Afinal de contas, é algo que eu tenho opiniões bem fortes.

Bem, caso ainda não tenha dado pra perceber, sou ateu. Eu não acredito em Deus. Deus não existe. Ponto.

Imagem de Deus. É uma imagem em branco. Vazia. Representando o nada. Porque não há Deus. Deus não existe. Daí, uma imagem em branco. Não discute.

Sim, sim, eu sei que na verdade é impossível realmente saber se Deus existe ou não, tornando todo mundo agnóstico, na prática, mas como o mesmo pode ser dito de qualquer coisa, como duendes, fadas, fantasmas e o Acre, prefiro cortar o caminho e afirmar duma vez que Deus não existe e ponto.

Enfim, não vou discutir a existência divina, não é essa a idéia hoje. Meu objetivo é refletir a utilidade da religião.

Mais que ateu, por muito tempo eu me classifiquei como “anti-teísta”, ou seja, alguém que é ativamente contra a crença em Deus. Eu era daqueles que vestia a camisa do Richard Dawkins e afirmava com um tom de orgulho e desprezo na voz que religião é “a raiz de todo o mal” e devia ser expurgada da face da Terra. Achava que todo e qualquer tipo de organização religiosa devia ser considerada criminosa, perseguida e extinta.

No fundo, ainda penso isso.

Mas com motivo.

Meu principal problema com religião é que a premissa dela gira em torno da “verdade”. Cada religião existente tenta estabelecer uma “verdade” sobre o mundo. Meu Deus que criou o mundo, meu Deus que determinou o caminho da humanidade, meu Deus que escreve o certo por linhas tortas.

Por isso que dá merda.

A partir do momento que alguém chega pra você e fala que sua visão de mundo é errada, que a sua “verdade” não é real, você fica meio puto. Você passa por aquele sentimento de “então eu estive desperdiçando minha vida acreditando nisso, é isso o que você está falando?” e acaba ficando na defensiva, querendo proteger com unhas e dentes a sua crença.

Aliás, mais que a sua crença, ela (provavelmente) é a crença da sua família e de seus amigos. Tá falando que minha mãe mentiu pra mim? É isso, seu filho da puta?

Estão entendendo como isso é uma pilha de merda explosiva?

Por isso que eu gosto da Ciência, com sua premissa de encontrar evidências e se atualizar de acordo com o que for descoberto. Houve uma época que os cientistas e os médico acrediavam que lobotomia frontal era um dos melhores tratamentos existentes contra males psicológicos? Sim. Hoje em dia, não mais. Ainda bem que encontraram novas evidências e perceberam que existem caminhos melhores.

Se bem que podiam agilizar e achar meios melhores para outros procedimentos médicos.

Nessas horas que aparece alguém falando que isso, na verdade, é só uma pequena parcela dos religiosos, que a maior parte das pessoas não leva tão ao pé da letra o conceito da “verdade” que o livro sagrado da sua religião vende.

Então POR QUE CARALHO CONTINUAR COM ESSES LIVROS ESTÚPIDOS?

Sabe, se a maior parte das pessoas só “pesca” o que interessa dos livros religiosos, ignorando todo o resto, pra quê manter viva essa merda? Atualiza essa porra, cria um livro novo, sei lá.

Bem, deixa eu focar um pouco senão vou me perder no argumento. De novo.

Voltando para a questão anterior: a "verdade". Religião, a meu ver, nasceu com o mesmo propósito que a ciência: explicar o mundo e como ele funciona.

Só que ela também ganhou o papel de servir como “justificativa política”. Ou seja, por que o Josuílson é o rei? Porque Deus quis. Ponto.

Assim, por muito tempo e em diversos lugares do mundo, religião, ciência e política foram a mesma coisa. Ainda são, na verdade.

Só que parte dos humanos percebeu que ficar associando tudo o que acontece a figuras mágicas invisíveis não satisfazia sua curiosidade. Então foram analisar. Entender. Buscar evidências. Testar hipóteses. Achar a melhor explicação para um fenômeno natural. Se encontrassem novas evidências, mudariam a explicação. Atualizariam ela. Assim a ciência se separou da religião.

E, poucos séculos atrás, parte da população de certos lugares se encheu o saco de ter que ficar abaixando a cabeça pra gente escrota que estava no poder só porque “Deus quis”. Eles foram lá e tomaram o poder. Criaram uma idéia nova: o Estado laico. O Estado desligado da religião. A política se separa da religião também.

Resumindo: acho que estamos num tipo de período de transição, onde (espero) a religião vá perder definitivamente seu papel de “ciência” e de “política”.

Só que aí fica a pergunta: então pra que a religião vai servir?

Bem, se eu for bem sincero, minha primeira resposta é “porra nenhuma, amassa, joga fora, taca fogo e mija em cima depois”.

Muito importante a parte do mijo, não esquecer.

Só que não dá pra fazer isso. Pelo menos, não tão imediatamente.

Voltando: para que serve religião?

Se ela não explica como o mundo funciona nem justifica a hierarquia social, pra que serve essa porra?

Bem, tem a resposta básica “para cuidar do lado espiritual das pessoas”.

Pena que eu não acredito nisso também. Quero dizer, não acredito na existência de um “lado espiritual”. Existe a consciência, ligada ao cérebro e etc e tal, mas não existe uma “alma” para ser cuidada por um padre.

Existe a versão cínica da resposta anterior, de que ela serve como uma “muleta” para as pessoas conseguirem levantar da cama pela manhã. A premissa é mais ou menos a seguinte: sem o conforto da crença numa eternidade após a morte ou na existência de um ser mágico para responsabilizarmos pelo que acontece no mundo, não conseguiríamos realizar nada porque ficaríamos pensando no propósito de viver.

É aquela coisa de, ao invés de tomar as rédeas da própria vida e fazer alguma coisa com ela, ficar responsabilizando os outros pelo que acontece. Se for uma coisa boa, é graças a Deus. Se for ruim, é culpa do Diabo. Tira um peso das costas.

Provavelmente este será o papel da religião de agora em diante: muleta.

Só que tem ainda mais uma utilidade que eu vejo a religião tendo nesse futuro-não-tão-próximo-quanto-eu-gostaria. Que é a utilidade que eu já vi algumas pessoas falarem, e que The Book of Mormon me fez considerar como algo válido:

Comunidade.

Religião é algo que une as pessoas. Faz elas se aproximarem. Cria vínculos. E isso é importante.

É importante porque…



Ok, acabei de perceber que não sei explicar como isso é uma coisa boa.

Mas é.

Vamos tentar assim:

O ser humano é um bicho social. Nós somos pré-programados pelos nossos genes para viver em um grupo, em maior ou menor grau. Nós precisamos fazer parte de uma sociedade para sobreviver.

Eu realmente acredito que buscamos nos relacionar, mesmo que seja só um pouquinho, com outros seres humanos. Faz parte da nossa vida. Queremos encontrar pessoas com quem nos identificamos, com quem vale a pena se relacionar, com quem conseguimos elaborar um diálogo além de “Esquentou, não?” “É, mas deu no jornal que vai chover de tarde.”

Ou seja, queremos pertencer a um grupo, a uma comunidade.

E religião é um meio de providenciar isso para as pessoas.

Atualmente, esses grupos giram em torno da “verdade” que eles acreditam em comum. O que pode levar para a merdaiada toda já descrita de “minha verdade é mais verdadeira que a sua verdade mentirosa, leve uma bala no seu globo ocular esquerdo.” E isso é ruim.

Mas, se tirarmos essa bosta de querer explicar o mundo e de vender uma verdade, a religião pode ser simplesmente um conjunto de rituais (muito importante, nós gostamos de rituais e afins) e ensinamentos de auto-ajuda para as pessoas se unirem e se ajudarem.

Se jogarmos fora tudo o que se tornou irrelevante na Bíblia, deixando ela com umas seis páginas, temos um tipo de “guia para uma vida moral de acordo com Jesus”, onde as pessoas que se identificam com os ensinamentos de Jesus, esse guru de auto-ajuda, podem se encontrar e conversar sobre suas vidas e como ele está ajudando elas.

Assim como fariam os seguidores de Maomé, do Dalai Lama ou do Deepak Chopra.

Sim, a meu ver, religião vai virar só mais um tipo de auto-ajuda, uma desculpa para as pessoas se encontrarem e conversarem. E isso, sinceramente, não é ruim.

Também não é bom, veja bem. Até porque parte desse bando de gurus retardados de auto-ajuda vendem  bobagens como “cura do câncer através do quiabo” ou “músculos mais fortes injetando purê de mandioquinha na veia”. Ou seja, essa merdaiada “New Age” tem que largar mão de querer ser ciência também. Mas temos que ir um passo de cada vez. O ideal seria que eles (os caras de auto-ajuda e as religiões) só vendessem auto-estima.

Enfim, para essa minha realidade utópica virar realidade, aquela coisa toda de separação da ciência, política e religião tem que acontecer antes.

Infelizmente, não creio que isso acontecerá enquanto eu estiver vivo. Mas espero que meu tataraneto possa viver num mundo onde não existam pessoas que tentam usar termodinâmica para desprovar evolução.

sábado, 15 de setembro de 2012

Hail Apple!

Finalmente, depois de enrolar por uns dez meses, terminei de ler a biografia do titio Steve. E foi muito legal. Deu pra ver bem como ele era um grandessíssimo cuzão. Escroto pra caralho. Sabia manipular as pessoas como ninguém, fazendo-as trabalhar mais e melhor para cumprir com suas idéias loucas. De um certo modo, ele era o cliente/chefe mais mimado e desagradável que qualquer um poderia ter.

Mas, ainda assim, ele era um gênio.

Um gênio em descobrir e perceber o que acontecia à sua volta e criar um produto que não apenas fosse bonito e prático, mas que também funcionasse. E isso meio que virou o DNA da Apple, criar produtos que façam direito tudo que os dos concorrentes estão fazendo de errado, unindo funcionalidade e elegância, fazendo algo que as pessoas efetivamente queiram ter.

Sim, eu sou um Apple fanboy. Mas com motivo. Os produtos deles podem não ser perfeitos, mas eles funcionam. Funcionam infinitamente melhor que as outras merdas que existem por aí, isso eu te garanto. E, por eu querer viver uma vida mais fácil num mundo funcional, uso produtos Apple. Foda-se que Windows é melhor para games. Foda-se que usar Linux me ensina mais sobre o funcionamento de computadores (isso que eu trampo com programação). Foda-se que um telefone Android é mais “aberto”. Eu uso Apple porque, para mim, é melhor e ponto final.

E sim, este post inteiro vai ser eu punhetando uma para a Apple.


Nunca confie num homem com uma mão debaixo da mesa. Nunca.

Bem, mais ou menos isso.

Na verdade, quero falar de dois pontos: sobre a repercussão retardada que eu vi nas internets sobre a espetacular vitória da Apple sobre a Samsung na corte americana e sobre a visão que muita gente tem de que produtos Apple são para “criancinhas retardadas que só se importam com a modinha”.

Comecemos pelo primeiro ponto. O caso de quebra de patentes da Apple contra a Samsung.

Bem.

Então.

De algum modo mágico, a Apple virou a vilã dessa história.

As pessoas se convenceram de duas coisas:

Uma, que a Apple está praticando concorrência desleal, processando para fora do mercado os concorrentes que chupinham seus produtos. Essas pessoas também acreditam em coisas como duendes, papai noel e sistemas judiciários funcionais com decisões imediatamente executadas. Além de não entenderem o que é uma apelação judicial.

Basicamente, a Samsung vai apelar da decisão, o que faz a coisa toda enrolar mais uns meses, e até um juiz bater o martelo (literalmente) e mandar a Samsung pagar o que deve e calar a boca, sem mais apelações, deu tempo para ela tirar todos os smartphones que infrigiram as patentes da Apple do mercado, tornando a “parte 2” dessa história toda inútil.

Qual é a “parte 2”? É a parte onde a Apple tenta tirar do mercado todos os smartphones da Samsung que quebraram intencionalmente as patentes da Apple. Então, se você não sabia, a decisão do júri lá só gira em torno da multa. Para tirar esses aparelhos do mercado, a Apple tem que fazer outro processo (não sei se esse é o termo certo, algum advogado me corrija depois).

Então, essa visão que a Apple vai processar os concorrentes à falência é uma puta viagem de adolescente deslumbrado com teorias da conspiração. Não é assim que o mundo funciona.

Por enquanto, só falei da parte logística da coisa toda. Vamos para a parte, digamos, ética.

A Samsung chupinhou SIM os produtos da Apple. Basta ver o famoso slide que a Apple apresentou para os jurados durante o julgamento. Ou ver A PORRA DA DECISÃO DO JÚRI.

Sutil, não?

Isso gera a questão de “o que você faria se roubassem seu trabalho?”

Acho que não tenho que levantar essa questão para todos que já trabalharam de freela neste mundo. Principalmente aqueles que trabalham numa área criativa.

Por exemplo:

“Ah, mas é só um desenhinho/sitezinho/layoutezinho, meu sobrinho fez curso online disso, ele faz de graça.”

Ou…

“Então, gostamos do seu trabalho, mas como não vamos usar agora, também não vamos te pagar, ok?”

Vocês sabem do que eu estou falando. Se freelancers pudessem proteger judicialmente seu trabalho contra clientes pilantras, eles iam levar bem menos na bunda.

“Mas é um absurdo conseguir patentear ‘deslizar o dedo para destravar o telefone’!”

Mesmo? O que foi patenteado foi “um método para destravar uma touchscreen sem foder tudo”. Agora, vamos fingir que a Apple não criou/patenteou isso. Tente inventar um jeito de destravar um telefone com touchscreen QUE NÃO SEJA ACIONADO SEM QUERER PELA SUA BUNDA. É fácil tirar valor das descobertas quando já sabemos a solução. Ou seja, não é uma patente vazia. Há um propósito por trás.

O que eu quero dizer com isso é que, assim como o fundo azul-turquesa pastel e a fonte Helvetica Neue do seu design tem um propósito (melhorar a leitura, valorizar o conteúdo), diversos detalhes de software e hardware nos produtos da Apple (e de qualquer empresa) têm um objetivo prático. E, antes do primeiro produto com tais especificações, ninguém pensava na diferença que esses detalhes faziam.

“Ah, e a patente das bordas arredondadas? Isso é ridículo.”

Ok, vamos por partes. Eu não sou advogado. E não entendo como funciona o sistema jurídico americano, principalmente em relação à patentes, copyright e essas merdas. E também não sou engenheiro nem designer de produtos.

Tendo dito isto, fui lá ver a tal patente das bordas arredondadas (não consigo deixar um link direto pra patente, é preciso buscar ela nesse banco de dados - o número dela é D593087).

Até onde eu consegui entender, me parece que a patente não protege exatamente “bordas arredondadas”, mas sim a “quininha” do iPhone 3G/3GS. A partezinha prateada que você vê quando olha de frente para o aparelho. Só aquilo. E não “gadget com bordas arredondadas”. Só a porra da quina.

Ok, concordo que é tonto conseguir patentear isso, afinal, é só uma porra de um detalhezinho do design geral das coisas. Mas, convenhamos, também não é muito difícil fazer uma coisa diferente. E, caso vocês não tenham lido com cuidado a decisão do júri, essa foi a única patente que foi declarada como “quebrada sem querer”, ou seja,  a única patente que a Samsung quebrou inconscientemente, enquanto que o resto foi decidido que foi de propósito.

Resumindo, esse não foi aquilo que eu chamaria de um grande momento do sistema de patentes americano, ou melhor, do sistema de patentes, ponto. Mas não é como o povo tá berrando por aí, que agora ninguém mais vai poder fazer bordas arredondadas além da Apple. Ninguém mais vai poder fazer gadgets com uma quininha arredondadinha no mesmo ângulo que o da patente da Apple. Se isso era crucial para o seu design, desculpa, vai ter que pagar royalties ou uma licença pra Apple. Ou, se posso dar uma alternativa para o você, desiste dessa carreira e vai trabalhar com algo que não precise de criação, como colher lixo, dirigir ônibus ou telemarketing.

“Mas a Apple também roubou de outras empresas, como a Xerox.”

Errado. A Apple pagou à Xerox. Em ações. E a Xerox ganhou uma bela grana nessa. Se você pagou, não é mais roubo.

E outras coisas que as pessoas falam que a Apple “roubou”, ou já foram acertadas judicialmente ou, na verdade, são diferentes o bastante para serem qualificadas como “outra coisa”. O que não aconteceu com os telefones da Samsung.

“Mas a Apple não foi a primeira a fazer X, Y ou Z.”

Ela foi a primeira a fazer direito. A fazer com um propósito. Com um objetivo maior que “só para falar que tem”. Vou voltar ao assunto mais pra frente, então vamos deixar por aqui.

Eu poderia ficar respondendo argumento por argumento tonto que eu vi por aí, mas a real é: a Samsung roubou designs da Apple, e isso é errado. Eticamente, moralmente e legalmente errado. Ela tem que pagar por isso. Ninguém gosta de ser roubado, por isso fizeram leis protegendo a propriedade de cada um. Ponto.

Mas, sendo bem sincero, existe sim um problema aí.

Se alguém devia ser considerado o vilão dessa história, devia ser a porra do sistema de patentes e copyright, que não faz o menor sentido e está completamente ultrapassado. Com o palavreado certo, é possível patentear qualquer coisa. Basta conferir o cara que patenteou um “aparelho circular facilitador de transporte”, também conhecido como “roda”.

Mas o sistema não é culpa da Apple. Assim como não é responsabilidade dela tentar mudar ele.

Quando você está participando de um jogo, você segue as regras dele. Mão na bola é falta, você não tenta começar uma revolução durante o jogo onde você acha que futebol vai ficar mais dinâmico se inserirem elementos de vôlei.

A não ser que você esteja jogando Calvinbol.
Enfim, chega de falar de patentes e roubo de trabalho alheio. Vamos para a segunda coisa que eu vi as pessoas tirando do cu e jogando na internet sobre a vitória da Apple.

Que a Apple vai acabar com a inovação do mercado de smartphones.



Isso é tipo falar que a religião vai acabar com as guerras.

Sério, se alguma empresa merece um troféu por ter inovado e revolucionado essa merda de mercado de smartphones, essa empresa é a Apple.

Vamos começar revendo como eram os smartphones antes e depois do iPhone.

É, tô preguiçoso hoje, foda-se.

Agora vamos para a real questão em torno desse argumento: ao proteger a sua invenção, a Apple limita o que outros podem criar, pois eles vão ficar com medo de serem processados pela Apple.

Bem.

Então.

Novidade pra você, amiguinho.

Se você não consegue se esforçar e pensar em algo diferente, chegando ao ponto de ser processado por quebra de patentes ou plágio, VOCÊ NÃO ESTÁ INOVANDO PORRA NENHUMA. Você só está imitando o que deu certo na esperança de pegar a rabeira de um mercado criado por outros. O que leva à questão que muitos concorrentes do iPhone usam como campanha: “sou quase igual, mas melhor”.

Nesse momento que devemos dar uma salva de palmas à Microsoft, que ela está tentando fazer diferente. E, na minha opinião, inovação vem de “diferente”, e não de “quase igual”.

A alternativa é aquilo que a Samsung e outras empresas (inclusive a Apple, sendo bem sincero) fizeram com inúmeros produtos: modificar ele o bastante para não ser qualificado como uma quebra de patente. E isso não é inovação. É mais do mesmo.

E, além disso, a Apple está disposta a licenciar suas patentes para quem quiser usar nos seus produtos. Assim como a Nokia fez com todo mundo (incluindo a Apple) e a Microsoft fez com o Google no Android.

Enfim. Chega de falar da magnífica vitória da Apple sobre a Samsung. Caso alguém queira ler uma análise melhor e mais inteligente, escrita por alguém do meio, vai aqui.

Vamos ao segundo ponto. O modo como muita gente despreza usuários de produtos Apple como “seguidores de modinha”.

Ok, não duvido que existam usuários Apple que são, de fato, pessoas superficiais que só seguem “modinhas”. Assim como devem ter usuários Linux que nem sabem usar o terminal direito, mas usam só para parecer mais “h4x0rz t0 t3h m4x0rz”. Ou ainda pessoas que têm pênises enormes que dirigem Ferraris. Não devíamos generalizar tão rápido as pessoas.

Mas esse é um argumento muito “tucano”, como gosto de falar. Basicamente, estou apelando para “a paz entre os povos, cada um é cada um, vamos todos conviver numa utopia de aceitação”, sem tomar partido nenhum.

Então vou tentar ser mais macho (sinônimo de escroto), bater o pau metafórico na mesa e fazer uma declaração em voz (caixa) alta:

PRODUTOS APPLE SÃO OS MELHORES QUE EXISTEM! …ISTEM! …ISTEM!

POR ISSO QUE AS PESSOAS COMPRAM! …OMPRAM! …OMPRAM! …OMPRAM!

NÃO SEI COMO DESCER DAQUI! ..QUI! ...QUI! ...QUI!

Pronto.

Tendo dito isto, vou falar sobre minha experiência com a Apple. Os dois momentos que me transformaram em um Apple fanboy. E não teve nada a ver com “modinha” nem porra nenhuma. Teve a ver com “perceber que a vida pode ser melhor”.

Primeiro momento: iPod.

Meu primeiro iPod foi o iPod Nano Gorditos (3ª geração). Até hoje é meu design de iPod favorito. Me identifico com ele. Sei lá, ele é adiposo como eu.

Antes de ganhar ele, eu tentei uns 700 mp3 players genéricos de 50 reais do ching-ling. E todos eram uma bosta. Davam pau, a música ficava zoada, só saía som de um lado do fone, enfim. Problema atrás de problema.

Mas tinha uma coisa que realmente me deixava absolutamente puto: o shuffle. Que não funcionava, ou simplesmente não existia. Aliás, até já falei disso antes.

A maior picaretagem desses shuffle falsos era que ele randomizava as músicas UMA vez, e não toda vez que eu apertava play. Funcionava assim: colocava as músicas lá, apertava o shuffle, ele misturava. Desligava o troço, dia seguinte, apertava o shuffle de novo, estava na mesma ordem de ontem. Não importava quantas vezes eu apertase a porra do shuffle ou desligasse e religasse o troço, a ordem se mantinha - diferente da ordem que eu coloquei os arquivos, mas ainda assim com uma repetição. O que tornava a coisa toda inútil.

Só que aí vem a pergunta: por que não testar de outra marca, mais melhor de boa (isto é um erro gramatical sarcástico, caso alguém queira reclamar), ao invés de insistir nos ching-ling ou ter ido direto para a Apple?

Boa pergunta. Não tenho resposta. Na época, já tinha um Macbook, e já era fã de Macs. Provavelmente foi algo como “integração iTunes - iPod”.

Enfim, ganhei o iPod e, só de colocar músicas nele já foi uma experiência digna de um jorro de luz multicolorida caindo dos céus sobre o meu ser. Foi só escolher as playlists do iTunes e fim. The end. Estavam lá as músicas que eu queria ouvir por aí.

Daí teve o momento “descobri que a vida é boa”, com a click wheel. Era tão legal ficar girando aquela coisa. Bem melhor que ficar apertando o botão para ir um de cada vez. Sei lá, acho que dava uma sensação de brincar de abrir um cofre, ou um sentimento nostálgico por telefones de discar, ou minha imaginação fértil de adolescente loser me fazia imaginar mamilos femininos, mas eu me divertia muito com a click wheel. Pena que é uma tecnologia que vai morrer, já que tá tudo virando touchscreen.

Em seguida, veio o momento das lágrimas de emoção e felicidade Disney. O shuffle. Nossa. Foi lindo. Finalmente, cada hora vinha uma música diferente depois de Bohemian Rhapsody (a música que sempre iniciava o meu dia, na época - hoje em dia estou numa fase Gangnam Style).

Foi mais ou menos assim, se não me engano.

Ou seja, o iPod fez com que eu finalmente gostasse de sair pela rua ouvindo música.

Antes dele, eu tive os ching-ling de merda, que mais me irritavam do que me distríam da realidade, ou o meu discman, que soluçava a cada três passos que eu dava. E não, não tive walkman antes disso.

Bem, só para ser justo, houveram coisas que eu não gostei. O iPod não conseguia atualizar instantaneamente minhas smart playlists, o que me forçava a conectar ele todo santo dia no Mac (na verdade, até hoje o iPhone também é bem burro com smart playlists, mas não é isso que vai fazer com que eu desista da Apple). E não gostei do fonezinho branco, achava ele meio incômodo.

Houve também uma coisa que o iPod trouxe para minha vida, mas que só fui começar a ouvir pra valer depois de algumas semanas com ele: podcasts. Eu sou um grande rato de podcasts hoje em dia, acho até que ouço mais que música. E foi o fato do iTunes baixar eles automaticamente quando atualizam e sincronizar eles com o iPod que facilitou o processo. Imagina ter que baixar o arquivo no site do podcast e arrastá-lo até o mp3 player toda santa vez que o podcast fosse atualizado? Tenho mais o que fazer da minha vida.

Vamos agora para o segundo momento de “digivolvendo para um Apple fanboy”: o iPhone.

Nunca fui muito de usar celular. Ou mesmo telefone. Já não gosto de conversar ao vivo, imagina por telefone. Sei lá, não tenho muito saco.

Mas faz parte da vida moderna ter um celular, logo eu ganhei um quando fui pra faculdade (minha avó ficava preocupada que acontecesse alguma coisa com o netinho querido dela, tão dependente e incapaz de se virar sozinho) (e ela estava coberta de razão, até hoje tenho que pedir ajuda pra amarrar os tênis). Era o clássico Nokia com snake da BCP. Usei ele por anos, acho que até me formar.

Em seguida herdei um celular da minha avó. Era um bem simplão, não lembro agora se era da Samsung ou da Siemens. Enfim, era bom o bastante.

Aí veio o anúncio do iPhone.

Olhei para o iPhone, para quanto ele custava, para todas as suas funcionalidades e para o quanto eu usava o meu celular. E percebi que seria estúpido comprar ele. Afinal, eu usava muito pouco o celular. Recebia ligações de vez em nunca, e SMSs só da Vivo com propaganda. Ver meu e-mail em qualquer lugar? Pra quê? Eventualmente eu volto pra casa, meu e-mail não vai pra lugar nenhum. Música? Tava feliz com meu iPod Gorditos. E eu tinha um DS, fodam-se os games da App Store (como no começo não existia a App Store, essa desculpa do DS só surgiu depois).

*** Antes de eu continuar, uma pequena observação: se você é desses retardados de merda que fala “A-Pê-Pê” Store, me faça um favor e se mata enfiando uma chave de fenda enferrujada na própria uretra e sangrando até a morte. Ou com o tétano te matando. Sério. Se não tem coragem de fazer isso, me chama que eu terei o maior prazer em ajudar. Com o bônus de eu ficar te chutando nas laterais das suas articulações, para seus membros ficarem em posições estranhas, uma coisa meio bonecão de posto. A pronúncia correta é “Ép”. Não é uma porra duma sigla. É um diminutivo para “Application”. Logo, App. Pronunciado “Ép”. Obrigado. ***

Seguindo essa lógica, não fazia sentido algum eu sequer ter um smartphone. Seria um grande investimento que eu acreditava que não ia aproveitar.

Só que, dois anos depois do lançamento do primeiro iPhone,  o meu celular tava ficando velho, com problemas no speaker, dava uns chiados estranhos. Então resolvi correr atrás de um novo. Novamente, olhei pro iPhone (o 3GS, na época), e vi que não valia a pena ainda. Por isso, fui buscar um celular comum (conhecidos, hoje em dia, como dumbphones, pela elite geek chata).

O vendedor acabou me convencendo a levar um modelo da Samsung com touchscreen, o Corby (não que seja difícil me convencer de comprar qualquer coisa, é só ver o tipo de roupas que eu compro quando vou em lugares como a C&A). Ele usou algum argumento como “é mais moderno e next generation” ou coisa parecida.

Ei, pelo menos não estou usando crocs.

Enfim, achei interessante arranjar um com touchscreen por causa da versatilidade que eu vi essa tecnologia trazer através do iPhone.

MAS.

Puta merda.

Caralho.

Como aquele celular era estúpido.

Não me lembro de todos os detalhes, mas me lembro claramente do que me deixou absolutamente insandecido de raiva.

O teclado.

Que aparecia na touchscreen.

Era.

Numérico.

Para digitar letras.

CARALHOPORRACUÂNUSCACETEBUCETAQUEMEEEEEERRRDAAAAAAA!!!

Ok. Respirando. Pronto.

Vamos de novo, passo-a-passo.

• Primeiro, você põe um touchscreen num celular.

• Segundo, você faz com que a tela só tenha um tipo de teclado. O numérico. Para todas as funções de digitação.

• Terceiro, você faz o seu cartão de natal da APAE.

Eu realmente entendo as empresas quererem desconto nos impostos contratando gente com sérias deficiências mentais para planejar os produtos delas, mas tem hora que força a barra.

No momento que esse Corby estúpido não me apresentou nenhum teclado QWERTY quando quis testar mandar SMSs, ele me fez perceber a real genialidade da Apple. Eles não colocaram touchscreen no iPhone pensando que ia ser só “diferentoso” ou “prafrentex”, como o vendedor me disse sobre essa bosta da Samsung. Eles fizeram isso pensando no usuário.

Hora de entender qual o glorioso propósito para titio Steve e Sir Jony Ive terem escolhido o protótipo de iPhone com touchscreen ao invés do que ia ter uma click wheel: VERSATILIDADE.

Deixando a interação do usuário com o aparelho para ser definida pelo software, você libera espaço para a tela, diminui o gadget e simplifica a vida do usuário por disponibilizar apenas o que será necessário para usar o software rodando no momento.

Ou seja, se vou discar um número de telefone, a tela exibe um teclado numérico e, se vou digitar um SMS ou um e-mail, o teclado se torna o clássico QWERTY para eu digitar PALAVRAS. ESCRITAS COM LETRAS.

Foi nessa hora que eu definitivamente vesti a camisa e me batizei na água santa de Cupertino, me tornando um Apple fanboy. Mesmo depois do iPod Gorditos, eu ainda não estava tão comprometido com a causa. Mas, depois do iPhone 4, acredito piamente que os produtos Apple que tenho fazem minha vida melhor. Sério.

Querem saber porquê? Porque os produtos deles são pensados na experiência do consumidor.

Eles olham para os próprios produtos e tentam simplificar a experiência. Torná-la mais acessível. Mais fácil. Melhor. Não ficam inventando utilidades que ninguém usa, ou acrescentam saídas e portas e tecnologias só porque é novidade.

E ainda fazem mais uma coisa, muito importante, na minha opinião: eles educam os consumidores. Mostram pra eles como é design bonito, como é um produto com elegância e como largar tecnologia velha pra trás. Se não fosse isso, ainda teríamos computadores com disquete e todos teriam design by Romero Britto.

Enfim, como a Apple consegue criar a melhor experiência e educar o consumidor? IGNORANDO TODO MUNDO. Ignorando os consumidores, os investidores, as análises de mercado, a mídia e os concorrentes. O que importa é eles se sentirem satisfeitos com o que estão criando.

Sim, sim, eles eventualmente lançam coisas só para agradar os investidores, assim como acabam cedendo a certas pressões dos clientes para manter ou mudar certos produtos. Mas, no geral, a Apple está cagando e andando. Ela só quer fazer o melhor produto.

E é por isso que eu admiro, adoro, venero e boqueteio a Apple.

Antes que alguém me julgue, ele me pagou um drinque e disse que eu era bonito.

Se você não gosta da Apple, ok, você tem o direito. Mas só vou te levar a sério se seu argumento girar em torno de “não supre minhas necessidades com um computador/gadget”, como no caso de gamers hardcore de PC, ou “tive produtos Apple, e realmente não são para mim”, o que tudo bem também. Sério. Nem todo mundo gosta de bacon, chocolate e pizza.

Mas se seu argumento for “porque é só modinha” ou “porque não é aberto” ou “porque é mais caro”, e você nunca teve um produto Apple, me faça um favor: enfia a sua cabeça na buceta da sua mãe e esquece ela lá dentro, que alguma coisa deu muito errado quando tiraram você de lá.

Para finalizar, uma última coisa que eu admiro na Apple, e que eu quero que todos pensem antes do fim.

A Apple, atualmente, é uma das, senão a, maior empresa do mundo. Tem mais dinheiro guardado que o governo Norte-Americano. Seu valor de mercado em Wall Street bateu o recorde histórico. E possui margens de lucro recorde. Tudo isso é impressionante.

Mas o mais impressionante disso tudo é que ela é uma empresa que fabrica e vende produtos direto para o consumidor.

Ela não vende matéria-prima, como petróleo. Ou vende produtos para outras empresas. Ou é uma rede de revendedores de tudo e mais um pouco.

Eles vendem coisas. Tecnológicas. Gadgets. Computadores.

Pára pra pensar um pouco: como é possível que uma empresa que vende tocadores-de-musiquinha (expressão que um tio meu usou para definir o iPod) tenha mais valor e mais dinheiro que uma petrolífera?

Os tempos mudaram? Nem tanto, ainda usamos carros movidos a gasolina, sem contar os inúmeros produtos derivados do petróleo.

O mercado financeiro está louco? Talvez. Aliás, a resposta aqui é “provavelmente”, mas a real é que o mercado financeiro não faz o menor sentido mesmo (algum dia exploro esse tema com mais detalhe).

Eles não vão conseguir manter os números que eles estão tendo, logo, são uma bolha que vai explodir? Muito provável.

Mas isso não muda o fato que, no momento, uma empresa que fabrica e vende produtos para consumidores está no topo do mundo. E esses produtos não são comestíveis.

E sabem o que é o mais legal disso?

Eles chegaram lá fazendo aquilo que eles acreditavam ser o melhor para eles. Criando aquilo que eles acreditavam ser a melhor experiência para o consumidor. Mostrando para o consumidor o que ele queria, ao invés de ficar correndo atrás de números do departamento de vendas ou pesquisas de mercado com grupos-de-público-foco-alvo.

Criando coisas legais, elegantes, fáceis de usar e que funcionam. E não empacotando o que tinha e cortando custos aleatórios para vender a maior quantidade de produtos possível antes do cliente ligar reclamando.

Agora compara isso com a filosofia de mercado da empresa onde você trabalha.

Pois é.