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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Jessica Jones, uma super-heroína

Olá. Faz tempo que não escrevo aqui, não? É que o blog sobre games tem consumido todo meu tempo livre para escrever nos últimos tempos (tenho um blog sobre games, aliás, visitem-no).

Mas surgiu um assunto que eu realmente quero escrever sobre e que não tem a ver com games, por isso aqui estou. Antes de começar, porém, alguns avisos:

1 - SPOILER ALERT! Se você não viu Jessica Jones e não quer spoilers, não leia este texto ainda. Não pretendo pôr muitos spoilers, na verdade, mas vão ter alguns inevitavelmente. Sem contar que o que é spoiler para alguns não é nada de mais para outros, então prefiro deixar avisado que vai ter spoilers de qualquer jeito.

2 - Outras pessoas, provavelmente mais inteligentes e com mais autoridade do que eu, já devem ter discursado sobre o tema deste post em diversos outros momentos da história da humanidade. Mas eu quero dar a minha mijadinha intelectual aqui para marcar como meu o território referente ao assunto, então me deixem em paz para falar disto.

3 - Não li Alias, a série em quadrinhos que inspirou a série no Netflix, então é bem capaz de eu falar alguma bobagem sobre a personagem. Na real, nunca fui muito de ler HQs de super-heróis em geral, o que tira ainda mais credibilidade do que eu vou dissertar aqui. Mas sou um grande fã dos filmes e séries de super-heróis que andam saindo (mais as da Marvel, mas tenho muita curiosidade em ver o Flash).

4 - Este post não é uma indireta específica para ninguém em especial, só para a Thaísa do RH. Então, se você não é a Thaísa do RH e sentir que este post é sobre você, desculpa, não era a intenção te ofender, espero apenas que este post te ajude a refletir. Agora, se você é a Thaísa do RH, você está claramente errada e eu estou certo.

Ótimo, chega de avisos, vamos logo para o assunto:

O(s) tema(s) de Jessica Jones




Jessica Jones é muito bom. Muito mesmo. Espetacular. Não me considero um grande crítico de obras audiovisuais, mas senti que todos os atores mandaram muito bem, que os roteiros eram fantásticos, que a fotografia ficou foda e que praticamente tudo funcionou. Eu até tenho algumas pequenas críticas para pequenos detalhes da série, mas vou deixar elas fora deste texto que elas não vão acrescentar muito aqui.

De qualquer maneira: eu gostei pra cacete da série. Mais até que do Demolidor, virou a minha série de TV não animada favorita de super-heróis (ainda tenho um carinho nostálgico muito forte pela série animada do Batman). E eu sei que não fui o único a adorar a série, pois vi muita gente, tanto críticos quanto pessoas normais (vocês entenderam o que eu quis dizer com esta comparação) falando muito bem da série.

Mas eu vi um certo discursinho surgindo sobre Jessica Jones que me irritou profundamente:

“Jessica Jones não é uma série sobre super-heróis, é sobre relacionamento abusivos/abuso sexual.”

Muito bem.

Então.

Seguinte.

Antes que alguém queira gritar na minha cara, deixem-me esclarecer o que me irrita nessa frase.

Comecemos com a segunda parte da frase: relacionamentos abusivos/abuso sexual.

Sim, este é um dos, ou melhor, é O Principal Tema de Jessica Jones™. Não tem nem o que discutir, o comportamento do Kilgrave é praticamente um espelho de um parceiro abusivo, se colocando como um tipo de salvador da Jessica, e tratando todas as merdas que ele fez (e ainda faz) como se fossem um mimo, um agrado, para ela, sem perceber como ele está sendo intrusivo, violento e escroto. E, vendo o stress pós-traumático da Jessica, não tem como não perceber os paralelos com vítimas reais de abuso. Sem contar que eles tiveram a coragem de ir até o ponto mais crucial e horrível desse tipo de história, que é a reação das pessoas ao redor. Ninguém acreditava no que tinha acontecido com a Jessica e com a Hope, pelo menos não até ter acontecido com eles mesmos. Sério, se você não percebeu que este era O Principal Tema de Jessica Jones™, assista de novo prestando mais atenção.

E, só porque eu sinto que tenho que admitir isto, percebi que eu mesmo já fiz ou pensei em fazer algumas das escrotices do Kilgrave. Fiquei com um certo nojo de mim mesmo em alguns momentos da série, pra dizer a verdade.

Tipo o porão do meu apartamento, onde guardo todas as fotos da minha namorada. Espero que ela nunca descubra.

Mas enfim, não sou alguém com a capacidade ou a autoridade de aprofundar sobre algo tão complexo quanto O Principal Tema de Jessica Jones™ (apesar de que vou retomar o assunto mais pra frente).

O que eu quero dizer com tudo isto é que não é a parte sobre relacionamentos abusivos/abuso sexual que me irritou na citação acima.

O que me irritou foi a desconsideração pelos super-heróis.

Que super-poderes e heroísmo são, sim, temas de Jessica Jones.

Super-poderes para dar e vender


Qual foi a parte onde um cara pega uma serra circular Bosch e tenta serrar o próprio abdome e não acontece nada que você não percebeu que demonstrava a existência de super-poderes na história? Ou a moça que pula facilmente até o segundo andar de um prédio? Ou o cara que controla a mente dos outros só falando?

Sério, Jessica Jones fica alardeando a presença de super-poderes na série como se não houvesse amanhã. Acho até que tem mais super-poderes por página de roteiro em Jessica Jones que nos filmes do Capitão América, e num deles tem o Agente Smith Elrond Hugo Weaving com uma cabeça vermelha como se fosse uma caveira viva. (Nossa, é daí que vem o nome dele nos quadrinhos, o Caveira Vermelha! Que coisa.)

Além disso, é a super-força da Jessica que alimenta um dos principais questionamentos da personagem, sobre ela se tornar ou não a heroína que a Trish quer que ela seja (sim, tem toda a questão dela questionar os próprios valores morais, assim como o sentimento de culpa por ter matado a Reva, mas convenhamos: sem sua super-força, ela não ia ficar se cobrando tanto sobre se tornar uma heroína) (pelo menos na minha opinião).

E, é óbvio, os poderes do Kilgrave, que só fazem a história existir.

O que eu quero dizer é: Jessica Jones não apenas possui super-poderes, super-vilões e super-heroínas, como super-poderes fazem parte das motivações dos personagens e da estrutura da história. Falar que a série não é sobre super-heróis é uma afirmação tola, para dizer o mínimo.

– Mas, Vitor, – diz uma voz vinda do RH – a pessoa que fez tal afirmação só estava querendo fazer uma hipérbole com o objetivo de chamar a atenção para O Principal Tema de Jessica Jones™, que é algo importante de ser discutido em cultura pop e na sociedade como um todo!

Ok. Tudo bem. Se tem uma coisa que eu sei muito bem como funciona, é o uso de hipérbole na internet com o objetivo de chamar a atenção e manipular um discurso. E, de fato, O Principal Tema de Jessica Jones™ é infinitamente mais importante do que super-poderes, tanto culturalmente quanto socialmente falando.

Mas isso não muda o fato que essa hipérbole despreza o valor dos super-heróis, e eu acho que fazer isso só ajuda a piorar a discussão em torno d’O Principal Tema de Jessica Jones™.

O valor dos super-heróis


Comecemos admitindo o óbvio: super-heróis, ou pelo menos o conceito moderno de super-heróis na cultura pop (porque, se perguntar pra mim, personagens mitológicos como Hércules, Isis e Jesus são super-heróis também), nasceram como uma diversão para crianças. As histórias eram simples, coloridas e fantásticas, valores considerados até hoje exclusivamente infantis (por mais que não sejam, mas isto é assunto para outro dia), deixando esse estigma nas histórias de super-heróis como coisa de criança. Por isso que quando sai uma obra mais adulta ou com temas mais sérios envolvendo super-heróis, uma das primeiras reações de quem não conhece o assunto é dizer que nem parece ou que não é uma história de super-heróis.

Só que acontece o seguinte: super-heróis não são uma coisa só para crianças. Faz tempo. Ou vocês acham que a bilheteria dos filmes da Marvel consistem apenas de pais levando os filhos pro cinema? Claro que não. Super-heróis conquistaram diversas pessoas, das mais variadas idades e origens.

A questão é que super-heróis, na minha opinião, vão além de ser um tema ou um gênero de história: eles podem ser um instrumento diegético. Ou seja, super-heróis podem ser utilizados como um elemento do universo como outro qualquer para passar seu tema principal, sem necessariamente ser o foco central da narrativa.

Vou tentar dar um exemplo do que eu estou pensando com outra coisa que eu sinto que pode tanto ser um tema quanto um instrumento diegético (guardadas as devidas proporções): guerras.

O que você considera um filme de guerra? Um que foca nos soldados? Um que relata a sobrevivência dos civis envolvidos? Nós devíamos ensacar todos os filmes que envolvem alguma batalha de algum tipo no mesmo gênero também? Guerra nas Estrelas é tematicamente parecido com Nascido para Matar?

Não. Claro que não. Por mais que existam trocentas histórias sobre guerras, o foco varia muito. As mensagens que essas histórias buscam passar variam muito. Em muitas, a idéia é simplesmente narrar a superioridade do lado vencedor (pensem nas epopéias clássicas), em muitas outras o objetivo é mostrar a dor e o sofrimento dos sobreviventes. Histórias de guerra podem tanto focar no egoísmo e no lado negro dos seres humanos, assim como podem mostrar o lado bom da humanidade, onde alguns fazem o que podem para salvar a maior quantidade de pessoas possível.

Super-heróis, para mim, podem ser o mesmo (novamente: guardadas as devidas proporções).

Posso criar uma história onde o foco é nesse indivíduo especial que obtém super-poderes e como seus super-poderes o deixam super-poderoso? Posso. Mas eu também posso criar uma história que trabalha os problemas do vício, como isso afeta a vida de uma pessoa, mesmo que ela tenha super-poderes. Uma história sobre preconceito e racismo, onde os indivíduos com super-poderes são excluídos da sociedade. Uma história sobre encarar a própria morte, ainda mais quando se tem super-poderes e você é um ícone para muitos. Ou mesmo uma história de assalto com elementos humorísticos onde o assaltante possui super-poderes.

Se depois de ver esta página, que é a melhor história já escrita sobre o Super-Homem,
você ainda não ver o potencial diegético de super-poderes, vai enfiar a cara na privada.

E, é claro, uma história sobre relacionamentos abusivos e abuso sexual, onde os super-poderes do estuprador funcionam bem como metáfora para os poderes que a sociedade dá para aqueles que estão em posição de superioridade e cometem abusos.

Deu pra entender porque Jessica Jones é, sim, uma história de super-herói, ou melhor, uma história de super-heroína? E que isso não diminui, em absoluto, a qualidade da série?

Vou presumir que vocês responderam “sim”, até para eu poder continuar o texto e trabalhar a outra parte da questão toda: a importância de uma história de super-heroína abordar o tema de abuso sexual e relacionamentos abusivos.

Apresentando O Principal Tema de Jessica Jones™ para quem mais precisa entendê-lo


Vou fazer a próxima afirmação sem ir atrás de dados estatísticos que a comprovem, mas imagino que não precisarei deles para estar certo: o principal público consumidor das histórias de super-heróis, historicamente falando, sempre foi masculino.

Não estou falando que não existiam consumidoras do sexo feminino, mas sim que a maioria era masculina.

Isso, infelizmente, gerou uma conseqüência um tanto desagradável: muitas histórias de super-heróis sempre tiveram um forte cunho sexista. Na verdade, agora que estou pensando, não sei dizer se o sexismo existente na maioria das histórias de super-heróis foi conseqüência do principal público consumidor ser homem ou se ele foi usado nas histórias justamente para atrair o público masculino. Provavelmente foi uma mistura das duas coisas, com uma pitada de “a sociedade em que vivemos é sexista”.

Acho que podemos acrescentar uma dose de “burrice crônica”
e “completa falta de noção” na conta.

A questão é: histórias de super-heróis não são aquilo que eu chamaria de igualitárias na questão de gênero (nem de raça e nem de orientação sexual, mas essa deixemos essas discussões para outro dia).

A situação está melhorando nos últimos anos, mas ainda têm muitos problemas para serem resolvidos, tanto do lado da produção quanto do lado dos consumidores.

Com isso em mente, posso voltar a falar de Jessica Jones.

Para começo de conversa, a personagem principal de Jessica Jones é uma mulher (dã). Mais do que isto: é uma personagem complexa, com forças, fraquezas, virtudes e vícios. Pode parecer estranho, mas ter uma mulher retratada como um ser humano complexo já é um feito por si só. E não é só ela, temos também sua irmã adotiva/melhor amiga e sua advogada, outras personagens femininas com uma profundidade maior que o pires rosa usado normalmente para personagens assim.

Em seguida, temos o fato que todas essas mulheres não são desnecessariamente sexualizadas só para prender a atenção da audiência masculina na base da ereção. Se alguém foi sexualizado na série, foi o Luke Cage (aaaaabs), e nem foi muito exagerado. Só um pouquinho.

Para finalizar, temos O Principal Tema de Jessica Jones™.

Novamente, não me sinto com a capacidade ou a autoridade para aprofundar o assunto, mas só quero lembrar que o modo como a nossa “civilização” trata o assunto é terrivelmente escrota e sexista: temos a horrível tendência a duvidar e culpar a vítima (tipicamente uma mulher) e a justificar e atenuar as motivações do criminoso (tipicamente um homem). Mas, como já falei antes, Jessica Jones soube trabalhar bem o assunto e escancarar a canalhice do abusador (Kilgrave), a dor e o sofrimento das vítimas (Jessica, Hope e mesmo o Malcolm e o Simpson, entre outros) e a atitude escrota das pessoas em volta (Jeri, Luke, Clemons, etc).

Resumindo: Jessica Jones é uma história que soube representar mulheres como seres humanos e não como objetos e ainda trabalhou de maneira inteligente e realista (mesmo com super-poderes) um assunto que possui um forte viés sexista na sociedade, passando uma mensagem feminista importantíssima para as pessoas pensarem e analisarem sobre si mesmas.

E isso tudo é ainda mais importante porque Jessica Jones é uma história de super-heroína.

Porque ela representa uma evolução das histórias de super-heróis.

Porque ela é outro passo importante na questão de representatividade nas histórias de super-heróis.

Porque ela atinge um público que nunca teve muito acesso a obras desse tipo.

Porque ela amplia e apresenta para mais pessoas o potencial desse instrumento diegético que são os super-heróis.

Tirar isso de Jessica Jones, tirar da série a classificação de “história de super-herói” não a faz melhor, apenas reduz a importância histórica dela dentro da evolução das histórias de super-herói.

Apenas a diminui.

Conclusão


Super-heróis, super-vilões e super-poderes não são uma coisa inerentemente incultas ou pobres (narrativamente falando), eles são um instrumento diegético que, nas mãos certas, funcionam muito bem para criar analogias e metáforas com o mundo real e, assim, refletirmos sobre ele.

Infelizmente, esse instrumento foi, por muito tempo, usado para criar narrativas com um forte viés sexista e focadas num público-alvo masculino.

Mas a situação está melhorando. Novas histórias estão surgindo e tendo um tom mais inclusivo e igualitário.

Histórias como a de Jessica Jones.

Não sei se esta série vai ser realmente um grande marco da evolução da representatividade feminina em histórias de super-herói, ou sequer se ela realmente vai fazer uma grande diferença cultural em como lidamos com O Principal Tema de Jessica Jones™.

Mas uma coisa eu sei: Jessica Jones é uma história de super-heroína feminista que aborda uma questão social séria.

Tirar qualquer parte desta afirmação serve apenas para tirar mérito da série ou demonstrar sua ignorância.

E me irritar. Vocês não querem me ver irritado.

E aí? Já estão com medo?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cidadão Kent

Oi. Depois de assuntos sérios, voltemos às nerdices.

O assunto de hoje é o filme novo do Superman, “Man of Steel”. Se você não viu ainda, vou contar uma série de detalhes da história, então se você não gosta de spoilers, o Superman na verdade é o Clark Kent e você deve parar de ler agora.

Muito bem, vamos falar do filme.

Eu gostei do filme. Menos do que eu achei que ia gostar, mas me diverti bastante. Fui com uma expectativa meio alta também, e isso sempre estraga as coisas. Mas gostei do filme.

Quando saí do cinema.

Agora que já passou algum tempo e estou digerindo a experiência toda, estou começando a ficar incomodado com uma série de coisas. Na verdade, tiveram algumas coisas que me incomodaram ainda no cinema, mas que agora estão crescendo sem parar e me irritando.

Mas vamos por partes. Minha proposta, neste post, é recontar a história do filme do meu jeito. Sim, eu, este grande fã do Superman que nunca leu nenhuma HQ dele e que só viu aproximadamente metade dos episódios da série animada da Warner. Sem contar toda a minha credencial como escritor/roteirista, com todos os meus um fanzine de sucesso e o glorioso e aclamado prêmio de roteiro de mangá da AnimeFriends 2003 (ou 2004, não lembro e não me importo).

E aqui é onde ficaria algum prêmio decente para minhas capacidades literárias... Se eu tivesse algum

Em outras palavras,o blog é meu e eu escrevo o que eu quero e foda-se.

Muito bem, vamos do começo.

O começo é bom e eu deixava do jeito que está.

Por “começo”, estou falando da coisa toda em Krypton, com o Jor-El, a Lara e o Zod, contando o nascimento do Kal e o fim do planeta. Por mim, tá perfeito, deixa do jeito que está, até a parte que mostra a cápsula espacial chegando na Terra.

Daí temos o que eu chamo de “segundo ato”, que é a vida do Clark na Terra até a chegada do Zod. A partir daqui que eu mudaria as coisas. E faria o seguinte: ao invés de acompanharmos ele, como está no filme, eu deixaria a Lois conduzir a história.

Começaríamos com a Lois chegando no Canadá para reportar sobre a nave que encontraram debaixo do gelo. Acompanharíamos ela naquela coisa toda dela ver o Clark indo para o meio do nada durante a noite, com ela entrando no túnel no gelo e etc, mas sem mostrar o que ele está fazendo em momento algum. Ela seria atacada pelo robozitos de segurança e coisa e tal, o Clark aparece pra salvá-la e cauterizar o ferimento dela. Veríamos a nave indo embora e a Lois sendo encontrada.

Seqüência seguinte, ela discutindo com o Perry White Morpheus sobre a matéria, ela “vazando” a história e sendo afastada do Planeta Diário. Aí começava o que estou chamando de “Cidadão Kent”.

Para quem não viu “Cidadão Kane”, e não vou criticar quem não viu, a história gira em torno do repórter Jerry Thompson explorando a vida do milionário Charles Foster Kane, tentando descobrir porque sua última palavra foi “rosebud” antes de morrer (spoiler: é o apelido do pênis dele). E acompanhamos a vida de Kane através das diversas entrevistas que Thompson conduz com as pessoas que se envolveram com o milionário. Em outras palavras, flashbacks. Minha descrição não faz jus ao filme, quem tem saco de ver filme em PB eu recomendo, que é realmente bom.

E para quem não tem saco de ver filme em PB, vai largar a mão de ser idiota que muitos dos melhores filmes da história são em PB.

Enfim, voltando ao Superman. Uma das críticas que mais vi sobre o filme foram os flashbacks, que seriam excessivos e desconectados com o que acontece no “presente”, dando uma impressão meio aleatória para eles. Devo dizer que não me incomodei tanto com eles, mas concordo que poderiam ter sido melhor trabalhados.

Como?

Sendo narrados pelas pessoas que a Lois foi descobrindo ao investigar o cara com poderes mágicos que a salvou dentro da nave debaixo do gelo.

Funcionaria que nem “Cidadão Kane”, com ela encontrando e entrevistando uma pessoa, que narraria o episódio muito louco em que sua vida foi salva (ou seu caminhão foi destruído) pelo moreno smexy de peito peludo. Veríamos a trajetória do Clark em retrospectiva, até chegar na Martha, a mãe dele. Nesse momento poderíamos ter a história da morte do pai terráqueo (Jonathan) e, em seguida, a cena do cemitério, em que ela finalmente se reencontra com Clark, que contaria do dia que o pai revelou que ele é um alienígena.

Sim, eu sei que, do jeito que os flashbacks estão, eles não encaixariam perfeitamente nessa minha proposta, mas a idéia seria adaptar de acordo com a necessidade. E acho que assim fica uma coisa mais interessante, onde vamos criando essa imagem do Super sem vermos ele efetivamente. É como se recríassemos o Clark na nossa cabeça, fugindo de tudo o que já sabemos dele.

E tem uma coisa que eu “forçaria” nesse ato, que é demonstrar que “Superman não mata”. Conforme vou falar mais pra frente, acho importante construir essa idéia desde já.

Enfim, aí terminaria o ato “Cidadão Kent”. Na verdade, até esticaria mais um pouco, até a parte da Lois falando com o Perry White Morpheus que ela desistiu da história.

Só que ficou faltando uma seqüência: o Clark aprendendo o seu passado na nave com o Jor-El.

Antes de eu encaixar ela na minha versão do filme, tem duas coisas que me incomodaram profundamente nessa seqüência.

A primeira é a Lara-El não aparecer. Eu realmente acho uma certa puta sacanagem só o Jor-El ficar aparecendo como holograma-consciente-resolvedor-de-buraco-no-plot. Eu entendo o argumento “o Russel Crowe é mais caro, temos que aproveitar a grana que pagamos e fazer ele aparecer e falar bastante”, mas eu realmente acho estúpido não aparecer o holograma da Lara e o Clark/Kal NÃO PERGUNTAR SOBRE A MÃE NÃO ESTAR LÁ.

Até poderia ter a desculpa que naquele pen-drive kryptoniano não cabia a consciência dela, mas não cola: ficou uma coisa machista. Talvez Krypton seja mesmo só uma sociedade uber-patriarcal de merda.

A outra coisa que me deixou profundamente irritado foi a parte do discurso do Jor-El onde ele fala “você representa a liberdade de escolha, sem um futuro pré-definido” e em seguida diz “por isso sua missão é salvar e guiar as pessoas deste planetinha”.



Muitas memórias desagradáveis de familiares falando coisas como “faça a faculdade que quiser, desde que seja engenharia ou medicina”.

Jor-El, em nome de todo filho/filha que ouviu algum tipo de variação do seu discursinho hipócrita, vai tomar bem no meio do olho do seu cu.

O que eu faria ele dizer ao invés disso? Acho que ficaria só na questão do “você representa a libertação do povo de Krypton dos seus erros” e não falaria nada sobre missão nem porra nenhuma. O Clark/Kal perguntaria sobre o porquê de estar na Terra e Jor-El e Lara respondem “isso é você quem decide e constrói”.

Fica clichê melosinho e com um certo ar de chantagem emocional passivo-agressiva onde eles estão dando a entender que “se você escolher o caminho errado, vamos ficar profundamente decepcionados”? Fica, mas acho menos irritante que a versão hipócrita que tá lá.

Corrigido o que me incomoda nessa seqüência, falta encaixar ela na minha estrutura do filme. Eu a transformaria em outro flashback (quietos, não discutam), que ele contaria na sala de interrogação para a Lois, depois da ameaça em escala global do Zod e depois dele ter se entregado para o exército. Do jeito como a história está indo, funciona. Acho.

“Mas ele não pode contar para os militares sobre o planeta dele.”

Não vejo porque não, pra dizer a verdade. Até porque ele estaria contando para a Lois, que ele sabe que acredita nele. Ah, ele contaria também sobre aprender a voar, que eu gosto bastante dessa seqüência, é um dos momentos que mais me identifiquei com o Superman, já que eu provavelmente faria as mesmas caras de felicidade divertida que ele.

Agora que terminamos com o passado do Clark e ele virou oficialmente o Superman, podemos resolver o resto do filme, o ato final, que é a chegada e a treta com o Zod (sim, o Zod já chegou, mas deixem estar).

No geral, gosto de como o Zod é retratado no filme, assim como as tretas do Superman com ele, a Faora e o “camiseta vermelha”. E eu gosto da coisa da atmosfera terrestre versus a atmosfera kryptoniana, apesar de ter visto algumas pessoas (acho que umas duas) reclamarem disso. Eu prefiro isso que kryptonita. De uma maneira meio tonta, faz mais sentido que “esta pedra verde/preta/rosa/furta-cor de Krypton”. Espero que não tirem kryptonita do cu no próximo filme, a fraqueza dele tem que ser o Batman e fim.

Só que, como não podia deixar de ser, tem algumas coisas que me incomodaram. Profundamente.

A primeira: por que eles levaram a Lois para a nave?

Não lembro da explicação dada no filme. Se alguém se lembra, por favor me ilumine, talvez até tenha sido algo muito válido e que faça todo o sentido do mundo.

Mas, no momento, não consigo pensar em nenhuma explicação lógica o bastante para ela ter sido levada pra lá.

Para ser uma refém e chantagearem o Super? Bem, então eles realmente não sabem usar uma refém, pois não me lembro de ninguém apontando uma arma na cabeça da Lois exigindo informação dele. Sem contar que eles tinham sete bilhões de reféns, não precisavam da Lois na nave - eles dão a entender que podem matar todos os humanos desde que chegam na Terra, bastaria seguir o exemplo do Grand Moff Tarkin.

Tudo o que eu vi acontecer foi eles assistirem o Superman passar mal e prenderem ele, COMO ELES ESPERAVAM QUE FOSSE ACONTECER. Ou seja, se eles sabiam que, no mínimo, Kal ia perder os poderes na nave, não ia ser difícil prum bando de soldados kryptonianos prenderem ele, o que tiraria a necessidade de ter uma refém. Na nave.

Ok, então ela não era uma refém. Existe outra explicação possível para terem levado ela: extrair as informações que eles queriam dela (no caso, o local da cápsula com que Kal-El chegou na Terra), caso não conseguissem com ele.

Bem, eles demonstraram que possuem uma tecnologia capaz de invadir e ler a mente de qualquer um. E não tinha como eles terem certeza de que ela saberia onde estava a cápsula. Mas eles tinham certeza mais que absoluta que Kal saberia. Tipo, sem a menor sombra de dúvida. Logo, não precisavam da Lois lá, pois eles conseguiriam a informação com o Kal de qualquer jeito.

No final das contas, o verdadeiro motivo da Lois estar na nave é: “nós, roteiristas, precisamos fazer com que o Superman consiga escapar” e ela era a solução mais próxima, além de servir pra ela ser mais “útil” que uma mocinha em perigo esperando o príncipe pra salvá-la. Nada contra essa parte dela ser mais “útil”, acho muito válido, mas preferia que os roteiristas tivessem se esforçado um pouco mais para justificar a ida dela à nave.

O problema é que não tenho nenhuma alternativa melhor. Podia ser o clássico “ela quis ir e encheu tanto o saco que a Faora levou ela junto”, mas essa é uma alternativa pior, que ia fazer todo mundo (tanto os personagens do filme quanto o público) ficar meio de saco cheio com a Lois. Outra possibilidade é a Terra (subentenda: os EUA) ter preparado uma comitivazinha pra ir na nave como embaixadores da Terra (América) e a Lois conseguiu sei lá como ser a representante da mídia da Terra (Iú És Ei! Iú És Ei! Iú És Ei!). Só que essa também é ruim, já que ninguém em sã consciência iria preparar embaixadores depois de ter recebido uma ameaça de extermínio.

No final, por mais que eu queira manter a importância da Lois como parte da solução (ou seja, ela ajudando o Super a fugir), acho que o melhor seria o Superman ter conseguido fugir “sozinho”, com a ajuda do pai-holograma e a mãe-holograma, e a Lois nunca ter ido pra nave. Sei lá, ele enfiou o pen-drive do pai, que estaria escondido, numa das diversas entradas USB da nave.

Enfim, segunda coisa que me incomodou, e que, novamente, não me lembro com todos os detalhes e posso estar falando do cu: o fato do Zod ter levado a nave “última esperança de Krypton” para a treta, o que, em última estância, colaborou para o Superman ter destruído ela.

Acho que essa é bem auto-explicativa: se aquela nave era tão importante, por que caralho levar ela pro meio da merdaiada?

Aí que entra em cena minhas memórias fabricadas do filme e eu precisaria de mais gente me corrigindo (a pessoa com quem vi o filme me disse que estou lembrando errado, mas queria ter mais gente apontando o dedo na minha cara e falando que estou enganado) ou confirmando o que eu lembro: o Zod foi com outra nave até a Nave Jesus, logo ele podia simplesmente ter largado a Nave Maomé lá na neve e ter ido com a outra nave até a treta, mantendo a Nave Luke Skywalker a salvo.

Só que eu posso estar errado e, na verdade, ele foi de carona pra lá e ficou de voltar com a nave Frodo mesmo. Aí não tinha muito o que fazer. A não ser, por exemplo, ter estacionado a Nave Harry Potter perto de Metropolis e ter ido saltitando pra treta.

Ou, quem sabe, ter deixado pra ir pegar a Nave Siddhartha depois que tudo estivesse 100% garantido e salvo. Acho até que essa teria sido a melhor solução, principalmente para criar o dilema para o Clark/Kal se ele ressuscita ou não os kryptonianos.

Mas era importante para a luta final deixar o Zod sem ter nada a perder, então eu entendo os roteiristas terem destruído a Nave Acabaram Os Salvadores Do Meu Repertório E Não Estou A Fim De Pesquisar Mais. Mas que pareceu uma péssima decisão do Zod, pareceu.

E, assim, chegamos à terceira coisa que me incomodou nesse ato final, e que foi o que mais me irritou no filme inteiro: a seqüência da Grand Central Station.

A parte que o Superman mata o Zod.

Muito bem.

Caralho.

Como eu me irritei com essa parte.

Comecemos com o motivo mais banal possível: milhões de pessoas já tinham morrido até aquela parte do filme, por que caralhacete aqueles transeuntes tontos que não sabem fugir duma cidade sendo destruída seriam tão importantes assim?

Sério, o Super não percebeu que eles arrasaram a cidade inteira enquanto lutavam, não? Acho até que era para ter umas manchas de sangue alheio nas roupas deles, ou mesmo um membro arrancado de alguém que foi explodido quando um dos dois saiu voando dentro de um prédio.

Como sou um fresco, não tive muita coragem de procurar imagens de "membros decepados ensangüentados" no Google, por isso desenhei alguns. Só que depois de dez minutos, cansei, e deixei só esses. Me deixem em paz.

Ou seja, que bosta, heim, Superman? Saiu destruindo tudo e agora que você fica preocupadinho que uns quatro ou cinco inocentes vão morrer?

Na verdade, o problema não é bem pesar a vida de poucos contra a vida de milhões (apesar de que é exatamente isso que eu fiz nos parágrafos anteriores), mas sim que faltou “drama” nessa cena. Faltou impacto cinematográfico-emocional. Ou seja, pelo menos pra mim, ficou uma coisa meio “sério que você matou o Zod só por isso?”

Voltando ao que eu falei lá na parte do “Cidadão Kent”: do jeito que o filme está, acho que não foi bem passada a idéia de que “Superman não mata”. Por causa disso, imagino que quem não conhece essa faceta dele, não entende direito o porque dele ter sofrido tanto ao matar o Zod, o que tira boa parte do peso emocional dessa seqüência.

A outra coisa é que temos (ou eu tive, pelo menos) a sensação que o Superman só sofreu com a morte do Zod, e não percebeu todas as outras milhões de mortes que aconteceram, em certo grau, por causa dele.

Faltou o Super ter olhado em volta, visto o rebosteio que ele causou na cidade lutando com o Zod (ou mesmo ter percebido todas as mortes que foram causadas pelo Zod antes da treta ter começado) e isso ter pesado ainda mais na consciência dele para matar o cara, e não só os transeuntes tontos sendo ameaçados.

E, por fim, temos os transeuntes tontos.

Sim, é moralmente discutível pesar a morte de milhões contra a morte de quatro/cinco pessoas, mas eu realmente acho que poderia ter sido algo mais exagerado, como o Zod ameaçando derrubar mais alguns prédios com a visão de calor. Ou uma usina nuclear, sei lá.

Só que ameaçar algumas estruturas de concreto não causa tanto impacto emocional quanto ameaçar pessoas de carne e osso com olhares de desespero e choro para a câmera captar, então vale mais a pena ameaçar os tais transeuntes tontos.

Mas aí eu sinto que foi desperdiçada uma chance de ouro de terem “hollywoodizado” ao máximo essa parte.

Estou falando do Zod ter ameaçado um pai com o seu filho, e ter tido aquela troca de olhares entre o Super e a criança, deixando a coisa bem melosa pra caralho, com o pai em tal posição que percebemos que ele está disposto a dar a vida pelo filho.

Sério, como foi que não fizeram essa cena assim?

Hollywood, tem hora que você me decepciona.

E, quanto mais penso em todo o potencial perdido dessa seqüência, principalmente no sentido de não ter sido trabalhada a coisa toda do “Superman não mata” e o apelo emocional de “pais estão sempre dispostos a dar a vida pelos filhos”, fico irritado. Pra cacete.

No fundo, repensando o filme inteiro, a sensação que eu tenho é de “potencial desperdiçado”. Poderíamos ter tido um filme mais interessante, com um Superman mais humanizado e uma narrativa mais trabalhada. Mas parece que quiseram cortar uns caminhos e fazer do jeito mais fácil.

E eu também tenho plena consciência que a minha versão da história não é tão melhor assim, até por ser um tipo de “salada tonal”, onde o ritmo da narrativa muda demais de um ato para outro.

Só que, como um bom nerd, tenho que reclamar e inventar minha versão da história e acreditar que ela é melhor que a que está lá. Afinal, isso é algo que nerds fazem, não é mesmo?

sábado, 30 de março de 2013

Da necessidade de salvar putaria

Meu HD morreu outro dia. Sem nenhuma salvação, de acordo com o pessoal da assistência técnica.

Caso queiram saber, invadi um velório só pra tirar esta foto. E enterrar o HD perdido.

Não sei o quanto confio no diagnóstico deles, mas não é como se eu tivesse escolha. O problema é que eu fiquei meio nóia depois da história de chantagem que aconteceu com o Penn, onde o pessoal da assistência técnica do note dele ameaçou ele de publicar “fotos indecentes” caso ele não pagasse o que pediam (isso que ele já apareceu pelado na TV) (nota sobre o link: ele contou essa história num dos podcasts dele, acho que peguei o episódio certo, não tenho certeza).

Mas não estou aqui para falar de funcionários inescrupulosos de assistências técnicas, mas dos arquivos que eu perdi. Mais especificamente, os quinze gigas de putaria que eu tinha salvo.

Quinze gigas é pouco, até. Teve época que minha coleção chegava perto dos oitenta. E imagino que muita gente tenha mais de um tera de putaria.

Isso que eu nem salvo muitos vídeos, a maior parte da minha coleção sempre foi hentai. Um puta monte de mangá de putaria - sim, eu me masturbo pra desenhinhos.

Se bem que não tenho culpa que algumas são desenhadas assim.

Só que fazem alguns anos que eu tenho deixado de salvar putaria. Comecei a “ler” online os hentais, assim como vejo vídeos em streaming. A não ser que seja um mangá de mais de 100 páginas ou um vídeo de mais de meia hora, eu vejo online ao invés de baixar e salvar. E o mangá ou o vídeo em questão tem que ser muito bom ou muito divertido para eu querer manter.

Mas ainda assim eu tinha uma coleçãozinha de putaria no meu mac (sim, eu conspurco meus produtos Apple com iPorn), e ela se perdeu para sempre com a morte o meu HD.

Só que nem uma lágrima foi derramada por essa perda.

Fiquei surpreso comigo mesmo. Nem liguei de perder a putaria toda. A maior parte das coisas não-putaria importantes eu tinha backup, então nem estressei, mas eu sempre fiz questão de NÃO fazer backup de putaria. Sei lá, me sentia muito loser de fazer isso.

Ou eu sempre soube, no fundo, o pensamento que eu materializei com a perda desse HD: não é mais necessário salvar putaria.

Sério, pra quê eu vou gastar espaço do meu HD com putaria? Deixem os milhares de servidores ao redor do mundo cuidar disso, eu acesso a putaria “on demand”.

O único problema disso é que, se acabar a luz ou der pau na internet, não tem como acessar a putaria. Na época da putaria analógica, sua coleção de revistas estava sempre disponível, não importa a situação. O mesmo não vale para a putaria digital - tanto que você perde tudo quando o HD morre.

Então, talvez, quem sabe, eu faça uma pastinha chamada “putaria de emergência” para quando estiver sem internet. Quando acabar a luz, sei lá, eu tento usar a imaginação ou ainda, quem sabe, faço o esforço hercúleo de me abster de putaria por mais de três horas (meu recorde são onze horas, vinte e dois minutos e quarenta e quatro segundos - fiquei tão desesperado que apelei depois para o Deviantart).

Ou foda-se.

Hora de encararmos a verdade.

Os tempos mudaram. Não precisamos mais salvar ou guardar putaria.

Porque a internet nos dá tanta, mas tanta putaria “on demand”, e dos mais diversos tipos e gostos, que não faz o menor sentido salvar qualquer coisa.

Afinal de contas, se tem algo que a ciência nos mostrou, é que nós enjoamos do mesmo tipo de putaria o tempo inteiro. É por isso que começamos com a Playboy e terminamos no “Blind Albine Egyptians Facializing Blonde Dwarves From Liechenstein 6: Special On Ice Edition”. Então, por que caralho salvar qualquer putaria? Vamos enjoar dela mesmo, e ela só vai ficar lá ocupando espaço do HD, até o dia que ele morre e perdemos ela.

Portanto, da próxima vez que estiver admirando suas pastas de putaria, pense se realmente vale a pena torrar o espaço do HD com isso. Guarda aqueles vídeos que têm um lugar especial no seu coração, como o “Dirty Sluts Synchronized Fucking Olympics - Atlanta 1996 Edition” (primeiro vídeo com mais de cinco minutos que você conseguiu baixar no Kazaa, quando ainda tinha internet discada), aqueles que te fazem rir, como o “The Simpsons - a XXX Parody” e, principalmente, aquele que “sempre funciona”, para dias que a internet não está muito inspirada (o fato de existirem certas putarias com essa classificação devia ser analisado como exemplo de comportamento monogâmico na raça humana - ou eu sou o único que tem isso?) e o resto que se foda.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Morcegos, aranhas e lidando com o que não funciona na HQ


Olá.

Voltei.

Nem pergunta.

Enfim. Vamos ao que interessa.

Vi The Dark Knight Rises. E gostei pra caralho. Muito bom pra cacete. Sensacional. Espetacular. Se você não viu, vá ver, ou leia os gloriosos spoilers que vou pôr neste post.

Não gostei mais que The Dark Knight, mas gostei muito, e de um jeito diferente.

No caso do The Dark Knight (de agora em diante chamado de Segundo), eu fui com uma espectativa razoavelmente alta e o filme deixou minhas expectativas no chinelo. Foi tipo uma corrida entre o Rubinho e [insira qualquer outro corredor de Fórmula 1 aqui]. O Coringa deu um puta show e eu realmente fiquei impressionado com a história, toda séria e tensa e etc. Enfim, não estou a fim de continuar babando ovo para o Segundo, mas ele fez o feito de superar minhas já altas expectativas, coisa muito rara de acontecer - já que eu possuo um olhar muito crítico e tenho a tendência a julgar profundamente cada detalhe dos filmes que assisto.

Como vocês percebem por aquele que considero o filme mais importante da minha vida.

Agora, no caso do The Dark Knight Rises (de agora em diante chamado de Terceiro), eu fui com uma expectativa bem baixa. Fui esperando um filme meh, algo próximo a Spider-man 3, mas um pouquinho melhor. E nem é por causa da sina do terceiro filme de super-herói (como visto em Aranha 3 e X-Men 3 - agora que estou pensando nisso, Motoqueiro Fantasma 3 vai ser um marco cultural lembrado por gerações, quando resolverem fazer), mas por causa da escolha do vilão.

Vejam bem, eu não gosto do Bane.

Eu realmente não gosto do Bane.

Eu odeio o Bane.

E não é porque ele quebrou a espinha do Batman nos quadrinhos ou coisa parecida. Aliás, eu sequer acompanho Batman nas HQs - li The Dark Knight Returns e tenho o Year One me esperando na estante, mas nunca li Batman pra valer. Meu principal contato com o Batman foi através da série animada de 1992 (20 anos atrás, estou me sentindo muito velho agora).

O meu problema com o Bane é que ele sempre me pareceu um exagero estúpido de moleque empolgado. Um personagem tonto criado por alguém de 13 anos de idade querendo maximizar a testosterona dele, querendo provar alguma coisa para alguém, ou inventando um poder novo toda vez que alguém apontava alguma fraqueza dele.

Tipo o processo criativo que gerou o Shadow e o Poochie.

Não, mas é sério. Ler a descrição dele na Wikipedia é um exercício de paciência com a mente púbere. Vou tentar resumir: forte como um elefante com esteróides, inteligente como o Stephen Hawking, fator de cura, memória fotográfica, fala seis línguas diferentes, é um mestre de disfarces, estrategista nível “jogador coreano de Starcraft”, criou um estilo próprio de arte marcial chamado “Derrota-Batman-Fu”, além de um de meditação e um de malhação e ainda consegue recitar as obras completas de Sheakspeare enquanto ganha uma corrida da Nascar num monociclo sob uma chuva de balas de uma minigun (como visto em Batman #738). E, nesse novo reboot, vão consertar o que faltava, tornando ele intangível, voador, imortal, psíquico, jogador profissional da NFL, rock star e capaz de se alimentar de qualquer fonte de carbono e cagar diamantes depois. Sem contar que em cada quadro que ele aparece tem uma gostosa diferente dando um boquete nele.

Sério, pensar no Bane me dá vontade de ver Sex & the City, de tanta testosterona burra acumulada num único personagem.

Deviam fazer um crossover dos dois, agora que estou pensando.

Isso que nem cheguei no pior de tudo, que é o motivo pelo qual ele não gosta do Batman: pesadelos com morcegos quando ele era criança. Sério.

Enfim, voltando ao Terceiro: eu acreditava que não importava o que o Nolan ou o Tom Hardy fizessem, não tinha como tornar esse personagem minimamente bom.

Mas…

MAS.

Eles conseguiram.

Caralho, não consigo acreditar nisso até agora.

Eles conseguiram fazer com que esse persongem ridículo, tonto, estúpido, babaca, vazio, desnecessário, retardado, patético e Jar Jar Bínkico ficasse fodão.

Ficou fodão ao ponto de que, quando é revelado que ele é só um brutamontes apaixonado seguindo o plano da mulher, fiquei decepcionado. Não por ele estar seguindo ordens de uma mulher, vejam bem, mas por não ter sido tudo idéia dele. Queria que ele fosse mesmo um estrategista nível “jogador coreano de Starcraft”, mas tive que me contentar com apenas “muito inteligente”.

E, quanto mais penso nisso, mais chego à conclusão que ele me pareceu fodão por terem jogado fora um puta monte de coisa das HQs, aliado a uma certa magia cinematográfica.

Primeiro, o que foi jogado fora.

Comecemos pelo químico com o nome mais original da história dos quadrinhos, o Veneno (Venom, no original). É a bomba que ele toma pelos tubinhos da máscara que deixam ele ainda mais forte. Trocaram por algo que, por mais que tenha seus problemas naquilo que chamamos de “mundo real”, é melhor que toda a baboseira do Veneno: Analgésicos. Pain-killers. Ou, como ia ser muito legal se tivessem os cojones para falar, Vicodin.

Pra quem não pegou a referência anterior. Do Vicodin. É o analgésico do House. Eu quis dizer que ia ser legal se o Bane fosse viciado no mesmo analgésico do House. Vicodin.

Basicamente, ele sentia dor o tempo inteiro por causa de uma doença degenerativa do puta monte de porrada que ele levou [Correção: viajei na maionese aqui, não sei daonde tirei essa história de doença] e o remédio não apenas aliviava a dor, como fazia com que ele ficasse mais resistente aos golpes do Batman, já que, bem, ele NÃO SENTE DOR.

Outra coisa que ajudou muito foi o fato de fazerem ele ter sido treinado pelo mesmo mestre do Batman. Precisa inventar o “Derrota-Batman-Fu”? Ser um exemplo grego clássico de preparo físico e muscular? Inventar que ele ficava puxando ferro enquanto tirava PhD em Astrofísica Teórica? NÃO. Por que ele consegue lutar pau-a-pau com o Batman? Porque ele passou pelo mesmo treinamento que o Batman. Ponto.

Quanto à questão dele ser inteligente, a questão toda se resume a “ele é inteligente”. Não é um Stephen Hawking ou um Neil deGrasse Tyson ou um Beakman. Ele é inteligente o bastante para liderar um grupo de terroristas e seguir um plano direito. Ele sabe falar Klingon? Não. Ele precisa falar Klingon? NÃO.

Enfim, jogaram fora um monte de lixo e mantiveram o mínimo necessário: um cara forte o bastante para enfrentar o Batman com um plano bom o bastante para estar sempre um passo à frente do Batman.

Que é, no fundo, a essência do personagem, ou o aparente propósito pelo qual criaram ele: alguém que desafiasse o Batman em dois níveis: físico e intelectual.

E, agora, aquilo que realmente fez TODA a diferença, a magia cinematográfica que realmente salvou e engrandeceu o Bane: a voz dele.

Você olha pro Spawn-Mucha-Lucha dos quadrinhos, e você imagina um cara com a voz do Homer ou do Patrick. Você olha pro cara do filme, você imagina uma voz meio Schuarza, ou ainda meio Stallonesca. Mas aí seus ouvidos são agraciados que aquele sotaque britânico smexy…

Pronto.

Você sabe que ele é bom. Você sabe que ele tem o completo controle da situação. Você sabe que ele é alguém que merece ser seguido numa operação terrorista.

Sério, não sei quem decidiu fazer essa coisa fria, calculista e britânica, se foi o Tom Hardy ou o Nolan, mas eles merecem um abraço. Que, se você tinha alguma dúvida que esse vilão conseguiria enfrentar o Batman, bem, agora você não tem mais nenhuma. E não é por causa da quantidade de veias saltadas nos braços dele, ou a quantidade de pêlos em torno dos mamilos dele, ou ainda por causa das citações da teoria das supercordas em aramaico. É porque ele é gente que faz - e que mostra que sabe o que está fazendo.

Engraçado, pois é o oposto dos dois vilões do Segundo, onde um é o caos e o outro deixa as decisões para a sorte e o acaso.

Resumindo: um filme bom baseado em uma HQ não é aquele que faz a HQ ao pé da letra, mas aquele que sabe jogar fora tudo que é ruim na HQ e contar sua própria história, mas sem desrespeitar o material original.

No caso do Bane, não havia muito o que respeitar mesmo, então foda-se.

Até tinha uma molecada de trinta anos fã de Batman na minha sessão reclamando da origem do Bane no filme, durante os créditos. Deu vontade de mostrar que o Bane da HQ é só uma resposta desesperada da DC ao sucesso do Spawn e do Venom (tirei isso do cu, não pesquisei mais que as datas de lançamento, podem me criticar à vontade) e que a origem lixo dele nos quadrinhos que vá a merda. Se a questão são personagens com medinho de morcego, prefiro o Panthro.

Enfim, depois de toda essa lambeção pra cima do Bane, vem agora minha outra crítica a algo relacionado a filmes de super-herói baseado em HQs.

Spider-man.

Mais especificamente, vamos falar de algo que eu abomino no universo do Spider-man: o atirador de teias.

Eu ODEIO o conceito do atirador de teias.

Consegue me irritar tanto quanto o Bane.

Mas é algo muito mais difícil de criticar, uma vez que existe desde a origem do personagem, nos idos de 1962. O Bane, por sua vez, é lixo dos anos 90, muitos fãs mais antigos e puristas do Batman também odeiam aquela aberração. Mas falar mal do atirador de teia é tipo questionar o incesto na bíblia - sempre esteve lá, você vai é irritar muita gente.

Se bem que eu estou no meu blog, então foda-se. Até porque, ao contrário de Batman que eu li um pouco, eu não li NADA do Spider-man, então vamos para a minha hipocrisia nível um milhão, já que eu não tenho tanta propriedade para falar mal do atirador de teia além do filme, do desenho animado dos anos 90 e o que eu pesquisei nas internets e perguntei para fãs do Aranha que eu conheço.

Seguinte: o atirador de teia é uma coisa muito estúpida. Diegeticamente estúpida.

Não é uma coisa estúpida enquanto um aparato de um herói fictício numa história voltada, a princípio, para crianças. Nesse sentido, é algo absolutamente brilhante. Ele permite a premissa de que, para você ser “quase” que nem o Spider-man, basta ter os atiradores de teia. Oficiais, da Hasbro. Ou seja , é algo extremamente “brinquedável”, como a capa do Superman, o escudo do Capitão América ou o anel do Lanterna Verde.

QUASE que nem o Spider-man. Quase.

Mas, indo além do ponto de vista capitalista do mundo real, ele ajuda com a fantasia de ser um super-herói - coisa que todos nós queremos ser. Se eu tivesse um atirador de teia, ia ser uma pessoa mais feliz. Não ia usar pra me balançar de prédio em prédio ou lutar contra o crime, mas usaria, e muito, para calar a boca e os celulares de gente escrota no cinema/ônibus/metrô. Iria usar pra lutar contra gente bosta.

Tendo dito isto, ele é um elemento muito burro dentro do universo do Aranha.

Não estou questionando ele conseguir construir o negócio, já que isso é importante para mostrar que o Parker é inteligente e consegue construir coisas (não que não existam outras duzentas mil formas de mostrar o mesmo), estou questionando o químico que (dependendo da versão) ele criou para as teias.

Sim, meu problema é o fluído de teia. E não é pelo paralelo que ele faz com esperma (como visto naquela famosa capa da Mary Jane coberta de fluído de teia). Minha birra com o negócio é que ele gera dois grandes problemas para o Aranha, a meu ver.

O primeiro, é que ele é “rastro”. Digamos que, basicamente, qualquer um (vilão, herói ou J. J. Jameson) consegue descobrir quem é o Spider-man por causa do fluído de teia. Nem estou pensando no caminho de teias à lá "João e Maria" que ele larga por NY, estou falando de conseguir uma amostra, analisar os químicos e observar quem compra altas quantidades disso. Pronto, você achou o Peter. The end.

O segundo, e muito mais importante, é a questão de que ele torna o Spider-man “comum”. A partir do momento que alguém consegue uma amostra do fluído de teia, é possível fazer a “engenharia reversa” (reverse engineering, não sei se existia o termo em português, mas agora existe) e replicar a torto e direito o fluído. Podemos ter Spider-cops, Spider-Thieves, Spider-Girl-Scouts e Spider-Playboy-Bunnies (alguém talentoso desenha esse último pra mim, por favor).

Ok, vamos dizer que é preciso o “senso-aranha” pra poder usar corretamente a teia e não sair se arrebentando pelos prédios. Mas, só com o fluído, podemos fazer, digamos, armas não-letais para as forças policiais do mundo. Ou uma versão médica para fechar ferimentos em emergências. Ou ainda uns estilingues muito loucos.

Mas tudo bem, só porque podemos fazer um puta monte de outras coisas com o fluído de teia, não quer dizer que poderia haver um outro herói que zumbeteasse por NY com a eficiência do Aranha.

Isso só quer dizer que poderíamos ter heróis MELHORES que o Aranha.

Pra começar: Iron Man. Se ele quisesse, o Tony Stark podia fazer um atirador de teia e acoplar na armadura dele. Pronto, outro herói com teias.

O Banner, também, podia fazer um atirador de teias pro Hulk. Que, obviamente, não ia ter o problema de se machucar chocando-se com prédios e afins.

O Hank Pym, esse escroto, podia se tornar o “Homem-Formiga-Só-Que-Útil”, tendo umas teiazinhas sei lá pra quê.

Ou o professor Xavier podia arranjar alguém pra fazer atiradores de teias para os X-Men. Pensa só: Wolverine com teias de aranha.

Ou Nick Fury podia ter todo mundo da SHIELD com atiradores de teias. Inclusive o Coulson. Seria o melhor personagem do universo Marvel, o Spider-Coulson.

Aqui estão eles, os Aracno-Avengers!

Tô me sentindo o criador do Bane, falando essas merdas.

Enfim, todo mundo teria uma porra dum atirador de teias. Logo, o Spider-man seria só um moleque tonto que sabe balançar por aí.

Depois de todo esse monte de ódio contra o atirador de teias, vamos ao que interessa: os “filmes de origem” do Aranha. Quem não viu The Amazing Spider-man, aí vem spoilers.

No Spider-man de 2002, do Sam Raimi (de agora em diante chamado simplesmente de o Original), eles tiveram a magnífica idéia de sumir com essa bosta e fazer com que ele simples e magicamente disparasse teias dos pulsos. The end.

Afinal de contas, se existe uma aranha geneticamente modificada que deu super-poderes para o Tobey Maguire, ela ter dado um poder a mais não é um problema para a suspensão de descrença. Funcionou.

Agora, no The Amazing Spider-man (de agora em diante chamado de o Reboot), eles resolveram manter a porra do atirador de teias.

Muito bem, antes de continuarmos, vamos voltar a falar de expectativas. Eu tinha certeza que o Reboot ia ser uma pilha de lixo. E não conseguia criar a menor vontade de ver no cinema, pelo menos não mais que “como nerd, tenho que ir, senão estaria traindo a raça”. Só na semana de estréia que fiquei mais animado pra ver, em grande parte por causa do novo Peter Parker, que parecia muito bom nos trailers e naquela aparição na San Diego Comic-con.

Mas o que mais me incomodava era a porra do retorno do atirador de teia. Nossa, como eu tinha certeza que isso ia estragar o filme.

Pois bem, depois de ver o filme, devo dizer que eu gostei bastante dele. Pelo menos, mais do que eu achava que ia gostar. E o grande responsável por isso foi…

O novo Peter Parker.

Esse Andrew Garfield mandou muito bem. Mas não estou aqui para falar dele.

Estou aqui para falar que a porra do atirador de teia não ajudou em merda alguma. Não foi o que estragou o filme (esse mérito vai para o design do Lagarto), mas fodeu forte com a minha suspensão de descrença.

Querem saber como?

Assim:

No Reboot, a criação do químico não é responsabilidade do Peter, provavelmente por que devem ter pensado algo como “acho que o público vai questionar um moleque desses ter inventado o fluído de teia”. Então, deixaram a honra para o pai dele. Mas quem que produz em massa o fluído para nosso amigo da vizinhança?

A OSCORP.

Essa mera CORPORAÇÃO MULTINACIONAL BILHARDÁRIA. Que poderia facilmente fazer (se é que já não faz, sendo essa CORPORAÇÃO MULTINACIONAL BILHARDÁRIA e coisa e tal) um tipo de assinatura química para todos as encomendas de fluído e assim chegar no Aranha no dia seguinte que começam a aparecer bandidos presos em teias.

Sem contar a questão daonde está vindo a grana pra comprar essa porra (porra - fluído de teia - viram o que eu fiz aqui?).

Enfim, eu fiquei pensando nisso assim que apareceu o primeiro pacotinho de fluído na casa dele. Provavelmente vai ser o plot do filme novo com o Duende Verde.

Mas, ei, pelo menos ele voltou a ter o atirador de teias. Ficou mais parecido com a HQ.

De fato. E FICOU PIOR.

CARALHO.

Mesmo que não fosse algo que já é tonto nas HQs, nem sempre é bom trazer um coisa completamente intocada dos quadrinhos para o cinema. Às vezes é importante alguém parar e falar: “sabe, isso não é bom para o filme, vamos limar isso”.

Por isso que tiraram os uniformes da maior parte dos X-Men. Não ia dar pra levar a sério o Hugh Jackman com uniforme amarelo.

Caso alguém queira contestar.

Ah, e antes que alguém me venha com o glorioso e altamente acéfalo argumento de que “então, seguindo sua lógica, o filme do Spirit ou da Liga Extraordinária são bons, já que limaram um monte de coisas para o filme”, vamos falar o seguinte:

Estou falando de ALGUNS elementos. ALGUNS. Não tudo. Que é o que aconteceu nesses filmes. E em outros. Basicamente, só pegaram os nomes dos personagens e fizeram outra coisa, outra história.

O importante é, ao fazer uma adaptação, saber pegar a essência de cada elemento, ou melhor, de cada personagem e de cada evento da história, e então trabalhar a melhor versão da história para a nova mídia que você está adaptando a história.

Qual que é a premissa do Bane, no fundo? Um vilão que compete tanto intelectualmente quanto fisicamente com o Batman. Aliás, um vilão que supera ele.

E é isso que o Nolan e o Hardy fizeram. Aliás, acrescentemos a Thalia Al’Ghul (Marion Cotillard) nessa conta, já que boa parte do plano foi dela.

E qual é a premissa do atirador de teia? Um modo do Spider-man lançar teias e balançar de lá pra cá. Ou seja, NÃO É UM PERSONAGEM. NÃO É UM EVENTO DA HISTÓRIA. O personagem em questão, o Aranha, tá lá. O Aranha não é menos Aranha só porque ele magicamente solta teias automaticamente dos pulsos no Original. Ele é menos Aranha lá porque agora comparamos o Tobey com o Andrew e ficamos espantados de como chegamos a aceitar ele como Peter Parker.

Enfim, tá na hora de acabar com este post, resumindo tudo.

O importante é o propósito do elemento na história. Se você precisa de um vilão que supere o Batman, não deixe a criação nas mãos de um moleque de treze anos que você achou num fliperama em 1992. Se você precisa de um modo para Aranha soltar teias e balançar de prédio em prédio, não crie um ponto sem nó que TODOS precisam ignorar para que o universo funcione.

É tipo a história do cara que nasceu com um pênis no meio da testa. Todo mundo em volta dele fingia que não tinha nada lá, mas tinha. E isso fazia com que ele se sentisse um bosta. Até o momento que ele conseguiu encontrar sua essência e fazer carreira em filmes pornô.

Ou sei lá.

Alguém pensa em outra metáfora, que eu cansei.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Do potencial do Hulk enquanto personagem


Para quem ainda não assistiu os Avengers, desculpa, mas aí vêm spoilers.

Se bem que, se você não viu ainda e queria evitar spoilers, se fudeu, esses filmes têm que ver na primeira semana, senão você leva spoilers mesmo.

Acho até que vou começar a colocar como toque de celular coisas como “O Agente Coulson morre” ou “o Hulk enche o Loki de porrada”. Seria eu falando, bem alto, spoilers de filmes. Só pra irritar quem não viu.

Enfim, saí numa tangente antes mesmo de entrar no assunto. Deve ser meu novo recorde.

Ou como era chamado na primeira versão do roteiro, "Iron Man and Pals" 

Voltando.

Depois de assistir os Avengers, resolvi rever os filmes-trailer dele, ou seja: Iron Man, Incredible Hulk, Iron Man 2, Thor e Captain America (só pra constar, estou usando os nomes em inglês para manter uma unidade com o fato que eu prefiro chamar de Iron Man que Homem de Ferro. E eu sou metido). Queria ver como que foi o planejamento geral da Marvel pra história dos Avengers.

Mas, principalmente, queria confirmar que o Ruffalo é mesmo o “the best fucking Hulk ever”, como todo mundo (incluindo eu e os monges tibetanos) está afirmando.

E, sim, o Ruffalo é mesmo o melhor Hulk/Banner de todos.

Mas o que mais me incomodou não foi a atuação do Edward Norton, mas o roteiro tonto do filme (já, já volto neste ponto).

O filme me fez ficar pensando sobre o personagem do Hulk/Banner, e, como uma pá de sites e podcasts tem falado sobre o filme, calhou de eu descobrir mais coisas sobre o personagem, além de uma pesquisa básica na Wiki.

E cheguei a uma conclusão muito simples: o Hulk é um incompreendido. Enquanto personagem.

Alguém vai e faz o Iron Man Trollface que eu tô com preguiça.

Vamos começar pelos filmes.

Ou melhor, vamos começar com o filme do Ang Lee.

E pelo fato que eu gosto do filme do Hulk do Ang Lee. Sério. Mesmo. Sem sarcasmo aqui. E não, não gosto dele “ironicamente”, que nem eu gosto dos filmes do Ghost Rider, que de tão ruins ficam bons.

É que eu não encaro ele como um filme do Hulk. Ele não é bem um filme do Hulk. É um filme do Ang Lee. E isso fez toda a diferença. Me fez apreciar o filme.

Mas quem procura um filme do Hulk lá não acha nada, e se frustra.

Dar a direção do filme do Hulk para o Ang Lee foi uma decisão equiparável a dar a direção dum filme do Batman para o Woody Allen, dum filme do Wolverine para o Almodóvar ou dum filme de Star Wars para o George Lucas. Ou seja, uma péssima idéia. São coisas incompatíveis. É fácil falar isso agora, anos depois, mas, em retrospecto, alguém devia ter tido a visão de falar “esse cara não é o tipo de diretor que vai fazer o blockbuster pipoca que o público espera”.

E foi o que aconteceu. Não "recoisei" (muito orgulho dessa referência a outro post meu, vou te contar) o filme (ainda), mas me lembro dele tentar ser um tipo de “Hulk, o sensível”. Que é um assunto interessante, podendo ser trabalhado direito, quando você tira do contexto de super-herói e torna uma história sobre um cara angustiado com o que a vida transformou ele.

Mas não funciona com o Hulk.

A frase é “Hulk esmaga”, e não “Hulk reflete e sofre em angústia”.

Por isso que ninguém gostou. Foi uma confusão de objetivos e expectativas, mais ou menos que nem fazer trabalhos para [insira nome de cliente aqui].

Os roteiristas queriam um filme de ação tonto, o Ang Lee queria uma pegada sensível de um personagem atormentado e o estúdio queria dinheiro. No fim, deu no que deu.

Enfim, concluindo sobre o primeiro filme do Hulk: é um filme (fraco, mas ainda assim bonzinho) do Ang Lee. Assistam O Tigre e o Dragão, Brokeback Mountain e em seguida assistam ao Hulk, vai fazer mais sentido.

Menos o Poodle-Hulk. Aquilo, ninguém explica.

Agora vamos ao segundo filme, The Incredible Hulk. O do Edward Norton.

Esse sim é blockbuster pipoca. Porrada, porrada, porrada.

Quando eu assisti no cinema, achei divertido. Legal. Aquele tipo de filme que você não precisa pensar. E ele fala “Hulk smashes” no final. Valeu o ingresso.

Sem contar que eu fui ver o filme com um espírito de “quero gostar do filme do Hulk, o do Iron Man foi legal pra caralho”.

Mas, nesta segunda vez que assisti, achei uma bosta. Muito ruim. MUITO RUIM PRA CARALHO MESMO ALPHA PLUS.

Sim, tem uma certa influência do Hulk bom do Ruffalo, mas mesmo assim, esse filme é muito tosco.

E na minha opinião, o problema não é, como já disse, o Norton, que tem mais cara de contador fazendo hora extra que de cientista. Nem a Liv Tyler, nem o Abomination castrado, nem o fato que o Banner não fica nervoso em nenhum momento e nem todos os problemas de lógica e coerência da história.

Nem é o Brasil, que tem a tendência de estragar tudo.

O problema é que o filme tenta ser King Kong (com umas pitadas de A Bela e a Fera), quando o Hulk é, na verdade, O Médico e o Monstro.

Esse romancezinho mela-cueca do Hulk com a Betty Ross é de querer morrer afogado no próprio vômito. Nossa, como esse nhénhénhé cansa. Aquela cena do Hulk na caverna com ela é nível Julia Roberts. Puta merda.

Sim, eu sei que o amor é lindo.

Mas a história ficar minhocando em cima desse romancezinho, e o “lado humano” do Hulk ser a paixão pela Betty Ross é uma bosta. Ponto.

Não quero continuar falando disso.

Vamos para a questão O Médico e o Monstro. Obra que eu li, ao contrário de qualquer HQ do Hulk.

O Médico e o Monstro, num resumo beeeem simplificado, é sobre um senhor respeitável (o médico, Dr. Jekyll) que cria uma poção que permite ele liberar o lado “não-civilizado” dele (o monstro, Mr. Hyde), que sempre esteve lá, nas entranhas dele. Até o ponto que o monstro toma conta da consciência do médico.

Ou seja, é uma história sobre o conflito do lado ético e civilizado da consciência de um homem (vamos dar o nome aleatório de “Superego”) contra o seu lado primitivo, animal e egoísta (vamos dar o nome aleatório de “Blanka”). Nesse conflito do Superego com o Blanka, o pobre Jekyll acaba cedendo cada vez mais para seu “lado negro”, até o ponto que ele se mata.

Um exemplo do que acontece na cabeça do Dr. Jekyll. O Superego dele é daltônico, diga-se de passagem.
Transferindo agora isso tudo para o Hulk, podemos ter uma história muito melhor.

Não, não estou falando que o Banner tem que se matar para a história funcionar. Até porque, como ele mesmo disse, o Hulk cuspiu a bala.

O que faria essa merda toda funcionar e criaria um personagem muito mais interessante é o Banner ter esse “lado negro” dentro dele o tempo inteiro, mas que ele só consegue liberar ao sofrer o acidente com raios gama e virar o Hulk.

Seria como se o Hulk fosse lá e fizesse tudo o que o Banner tem vontade de fazer, mas reprime.

O Banner tá de saco cheio de militares pentelhos? Hulk vai lá e enche de porrada. Banner quer romance com Betty Ross? Hulk vai lá e copula com ela. Cortam o Banner no trânsito? Hulk vai e corta o carro do filho da puta no meio. E assim por diante.

“Então seria, basicamente, Um Dia de Fúria, mas com um cara verde?”

Sim. Exato. Perfeito. Melhor filme de origem do Hulk possível. Com uma cena extendida e bem explícita do Hulk fornicando com a Betty Ross, fica melhor ainda.

E é por isso que o Hulk dos Avengers funciona.

Não, esse Hulk não acasala com ninguém no filme, e, até onde eu saiba, não vai ter nenhuma cena de relações carnais na meia hora de cenas cortadas que vão ser adicionadas no DVD.

Mas o Hulk do Rufallo seria o “estágio seguinte” da relação Superego vs. Blanka, onde eles se entendem e encontram um meio termo para conviver. Basicamente, o Banner aceitou e aprendeu a conviver com a própria raiva e, quando quer/precisa, libera o Hulk pra descarregar o stress.

E, para melhorar a coisa toda, o Hulk ainda tem um papel de “último mecanismo de sobrevivência” do Banner, onde ele brota do nada caso ele sinta que a vida do Banner corre risco.

Com esse detalhe a mais para diferenciar ele do Dr. Jekyll, a relação Banner/Hulk ganha uma camada de complexidade a mais. Ele não é o King Kong, não é a Fera, não é o Mr. Hyde nem é um jovem atormentado e sensível dum filme do Ang Lee. Ele é o Hulk. Porra.

Novamente, nunca li uma HQ do Hulk. E, me baseando no que eu pesquisei nas internets, tenho certeza que vou me decepcionar. Prefiro esse personagem que eu acabei de criar na minha cabeça. Ele é mais profundo que o pires do Hulk do filme do Edward Norton e mais “Blankesco” que o Hulk mimimi do Ang Lee.

Só espero que não rebosteiem tudo no próximo filme, tentando fazer algum romancezinho e transformando o Hulk num Crepúsculo Esverdeado. Se bem que criar esse tipo de expectativa em relação a Hollywood é que nem esperar que Hollywood não cague tudo ao fazer uma adaptação ou uma continuação.

Por isso que eu tenho sonhos e pesadelos com o filme do Freakazoid. Espero que façam algum dia, mas com certeza vão cagar tudo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A história também é dos fãs

Recentemente revi uma coisa fantástica, que é a famosa crítica do Mr. Plinkett do Episódio I de Star Wars. Ele fez uma versão especial para o lançamento da versão 3D do filme, e resolvi assistir de novo. Uma hora e dez minutos de desconstrução total e absoluta dessa merda de filme, o filme que estragou Star Wars e o Darth Vader para sempre. É lindo. Poético. Mágico. Se você estiver no trabalho, recomendo.

E ontem mesmo trombei com uma análise fantástica de Metroid: Other M. Eu gostei do jogo (considerando apenas a jogabilidade), mas concordo com o consenso geral de que a história dele estragou a Samus para sempre. E essa análise disseca ainda mais como a Samus deixou de ser uma das melhores e mais fortes personagens femininas da história dos games para virar mais uma “dona de casa submissa que gosta de apanhar”. De certo modo, esse jogo podia se chamar Metroid: The Phantom Menace.

Comecei a traçar um paralelo entre os dois. E percebi duas coisas em comum. Primeiro: em ambos, o criador original da série resolveu “mostrar o verdadeiro personagem”, com o George Lucas contando a origem do Darth Vader, mostrando como ele se tornou, bem, o Darth Vader, e o Yoshio Sakamoto mostrando a verdadeira Samus por trás da máscara, fazendo ela falar, pensar e interagir com outros personagens (Metroid sempre foi uma experiência isolada, de exploração solitária, para quem nunca jogou). Segundo: o criador teve (aparentemente) liberdade total e irrestrita, sem ninguém chegando nele e falando “Não, isto tá uma merda”.

E isso rebosteou tudo.

Eles demonstraram como eles são péssimos escritores, e que as duas séries só se tornaram o que se tornaram graças à colaboração de pessoas mais competentes que eles.

“Mas a história é deles, eles podem fazer o que quiserem.”

Esse é um argumento que ouço muito, principalmente em relação à trilogia bosta de Star Wars. Perdoem-me o inglês, mas acho que consigo expressar o que sinto em relação a este argumento desse modo:

Eu me acho muito meme.

Isso é bobagem. A história nunca é só do autor, ainda mais no caso de “artes em grupo”, como cinema e games (games são arte, não vou discutir isso), onde trocentas pessoas colaboram na produção da obra. Principalmente aquelas que melhoram ela. Mas ela também pertence a outra pessoa: o fã.

Sim, eu considero toda santa filha da puta de história que existe como algo pertencente ao fã também. Ou melhor, pertence ao consumidor da história, seja o espectador, o leitor ou o gamer, mesmo aqueles que não gostaram tanto assim.

Quando consumimos uma história boa, nós nos conectamos com os personagens. Gostamos deles. Nos identificamos com alguns deles, vemos pessoas que conhecemos em outros e fazemos paralelos com nossa vida, mesmo que num nível subconsciente.

Isso fica ainda mais forte quando é uma história que nos marca em certo momento da nossa vida, normalmente na infância. Mas também acontece de certas histórias serem marcantes em outros momentos, pelos mais diversos motivos. Eu, por exemplo, considero Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, um dos livros mais importantes que já li, pois li ele quando tinha acabado de começar a tomar anti-depressivos, e fiquei numa viagem de “estou me alienando, tomando soma” (soma é a droga perfeita, que os personagens do livro tomam quando têm algum problema emocional). Assim como considero Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne’s World) um dos filmes mais importantes para a minha formação enquanto ser humano (SÉRIO), pois foi o filme que me apresentou ao Queen e ao rock.

Excellent!

Voltando a Star Wars e Metroid: elas são histórias que não apenas marcaram gerações, mas também criaram um legado, um tipo de aura em torno delas. Os fãs, das mais diversas idades e origens, criaram um tipo de idealização na cabeça deles, cada um com sua visão dos personagens e da história. Cada um com a sua própria versão da história.

Se bem que isso ainda não justifica “proibir” o autor de mexer na história como ele quiser, certo?

Eu sei que o argumento que vou fazer é meio fraco, mas é o que considero a mais pura verdade: justifica, pois sem esses tontos dos fãs, sua história não ia ser NADA.

Eles que tornaram sua história o que ela é. Seus personagens podiam ter caído no esquecimento eterno, mas eles mantiveram eles vivos e queridos. ISSO É IMPORTANTE, PORRA. Quando sua obra vai para o mundo, ela não é mais sua, é do mundo.

Por isso que acho que autores deviam ser proibidos, com pena de quinhentas chibatadas, de mexer numa história depois que ela foi parida. A tendência é que façam merda.

Tendo dito isto, agora entra uma observação MUITO IMPORTANTE: o autor não deve prestar tanta atenção no que o fã acha que devia acontecer na história, pois a grande maioria dos fãs consegue pensar em merdas maiores que o ânus do autor conseguiria.

Aqui é a parte que eu começo a ficar confuso, um tipo de tradição dos meus posts.

Sim, basicamente estou dizendo que é importante considerar os fãs na criação e no encaminhamento da história, mas não ouvir ele de verdade, pois senão a história vira uma merda.

O que eu quero dizer é que é preciso tomar cuidado.

Vamos fazer um exemplo extremo: Harry Potter. E se, no final do sétimo livro, do nada, o Ron se revelasse um agente do mal, matasse o Harry com um tiro, estuprasse a Hermione e o Dobby, tudo no primeiro capítulo, e o resto do livro fosse ele chupando a rola do Voldemort, porque nada é mais importante pra ele que o prazer do seu mestre? Ia ser uma merda. Meio hilário, mas uma merda. Acredito que todos os fãs iam ficar muito putos. Eu ia.

Mas, e se a intenção da Rowling fosse desde o começo mostrar que você nunca deve confiar em ninguém, que seu melhor amigo pode ser um boqueteiro maligno? Que Harry Potter sempre foi, na verdade, uma história sobre traição, estupro de elfos e sexo oral? Que ela só queria um meio de passar para próximas gerações tudo o que ela aprendeu a fazer com a boca em um pênis, e escolheu o Ron como mensageiro?

Bem, aí ninguém mais ia ser fã de Harry Potter. Ou só iam considerar os “seis livros bons”, com pessoas criando finais alternativos, e a Rowling ia ser odiada para todo o sempre.

Por isso que é bom ter alguém pra chegar no autor e falar “Não, isto é uma merda”. Alguém pé no chão e inteligente, que leva em consideração a história como um todo e o que é esperado pelos consumidores.

Em compensação, se ela levasse em conta os fãs, o sétimo livro provavelmente ia ser o Harry descobrindo que ele está apaixonado pela Hermione, a Gina, o Draco, o Ron, o Fred, o Jorge, a Belatrix e o Hagrid, e ele ia ter um duelo de katanas mágicas com o Voldemort na Torre de Londres, com a capital inglesa em chamas. Meio hilário, mas uma merda.

Acho que o ponto que estou querendo chegar é que é preciso ter algum cérebro na hora de criar uma história, seja o do autor (algo que claramente faltou ao Lucas e ao Sakamoto), seja de alguém que entende de contar histórias e medir expectativas e tem autoridade de chegar no autor e falar “Não, isto tá uma merda”.

Para finalizar, mais três casos: um de um autor perdido com a própria história, um de um autor que chegaram e falaram “Não, isto tá uma merda” e pessoas melhores deixaram a história boa e um exemplo de autor que sabe contar histórias e soube trabalhar a expectativa dos fãs.

O primeiro é Hideaki Anno, criador de Evangelion. Ele fez o animê e contou a história dele. Só que muitos fãs não gostaram do final do animê. Então ele fez o filme “The End of Evangelion” para dar um final para os fãs que não gostaram do animê. E agora ele está recontando toda a história de novo, com os novos filmes.

Fazer isso é o que podemos chamar de “cagada homérica.”

Eu sou daqueles que gostou do final do animê. Focou nos personagens, no crescimento deles, na superação de obstáculos. Evangelion sempre foi uma história sobre isso, os robôs e os anjos eram acessórios. Isso que é o aprimoramento humano, não a Rei gigante sugando almas. Mas enfim, para algumas pessoas Evangelion era sobre robôs gigantes e conspirações religiosas. Então ele fez o final do filme, que eu acho uma merda. Mas deu aos fãs o que eles queriam. E irritou os fãs que gostaram do final do animê (como eu).

Isso gera um tipo de divisão, onde de um lado temos fãs que te acham um imbecil por ter contado a história do jeito que você queria, mas ficaram contentinhos com o remendo, e do outro temos os fãs que te acham um babaca por ter cedido à pressão e feito um final “mainstream”, mas que estão contentinhos por saber que o final verdadeiro é o que eles gostam.


E, pra piorar a merda toda, você vem e faz uma terceira versão. Para ou irritar um dos lados ou criar uma terceira facção, a do “final dos novos filmes”.

Sabe, tenha cojones de falar “Esta é a minha história, se você não gostou, faça sua versão, mas esta é o que eu tinha pra contar.” Não fique remendando por causa de fãs ou ameaças de morte. Porra.

Para quem acha que estou me contradizendo, a diferença entre Evangelion e Star Wars/Metroid é que, no primeiro caso, temos um tonto que mudou a história para agradar os fãs, cagando tudo, e do outro temos dois tontos que mudaram a história para fazer “do jeito deles”. É diferente.

Enfim, o segundo autor é o Matt Groening. Criador dos Simpsons. E apenas isso, o criador. Foi toda a equipe de roteiristas e um produtor muito bom que tornaram os Simpsons o marco cultural que eles são. Só pra constar, Groening queria que a Marge tivesse orelhas de coelho escondidas debaixo do cabelo. Ainda bem que alguém chegou e disse: “Não, isto é uma merda” e tirou ele da sala de criação.

O terceiro e último autor é aquele que chamo de Deus: Bill Waterson. Criador de Calvin e Haroldo. De acordo com ele mesmo, ele prestava atenção ao feedback dos fãs, e manejava a história de acordo com a necessidade, mas sem nunca ceder. Ele nunca cedeu àqueles que achavam os pais do Calvin muito pouco carinhosos, mantendo os personagens “true” para aquilo que funcionava na história: pais severos que davam broncas quando necessário, eram sarcásticos quando necessário e eram carinhosos quando funcionava, ao invés de encherem o Calvin de carinho a cada merda que o moleque fizesse (o padrão de criação de filhos hoje em dia).

E ele também nunca foi lá e cagou tudo com “a minha verdade enquanto autor”. Ele nunca explicou o incidente do macarrão, ou o Hamster Huey and the Gooey Kablooie. Ou o mais importante: ele nunca explicou a real natureza do Haroldo. É imaginação do Calvin ou um tigre de pelúcia mágico? Ele fala no especial de dez anos que isso não importa, o que importa é a idéia que o Haroldo passa, de que cada pessoa tem uma visão de mundo diferente.

Por isso que o chamo de Deus.