sábado, 4 de janeiro de 2014

Sem Assunto


Olá. Feliz ano novo.

Fazem quase seis meses que eu não atualizo esta merda. Que vergonha. Devia ter deixado quieto e desistido. Mas, como eu sou brasileiro, eu não desisto nunca.

AHAHAHAHAHAHAHA.

"Não desiste nun… HAHAHAHAHAHAHA, puta merda, que hilário."

Pronto, acho que eu estava precisando dar umas risadas.

Enfim. Este blog. Sei lá, depois de uns dois meses sem atualizar, fiquei tentando forçar assunto, e não conseguia escrever nada. Daí desisti. Tentei de novo outras vezes, mas não rolava assunto.

Ou melhor, até apareciam assuntos, mas eu não conseguia ver propósito em escrever nada. Começava a me auto-boicotar e desistia.

Mas, sei lá porquê, hoje, dia primeiro de janeiro de 2014, uma e trinta da madrugada, me deu vontade de escrever. Pro blog.

Que eu não tenha parado de escrever, fiquei vivendo uma mentira deslavada onde eu escrevia algo. Um livro.

AHAHAHAHAHAHAHA.

"Ei, não é tão engraçado assim. Podem parar. Por favor."

Pronto, podem parar de rir também.

Não vou mais tocar neste assunto até segunda ordem. Vamos fingir que é que nem o verdadeiro Seymour Skinner, ok? Ok.

Enfim, chega de manha e mimimi (piada do link não é idéia minha, estou me apropriando, obrigado autor-original-desta-piada-você-sabe-quem-você-é). Vamos ao assunto deste post.

Que, por mais que ele se chame “Sem Assunto”, ele tem um assunto sim.

Ou melhor, vários. Basicamente, vou escrever tudo o que me vier na telha, celebrando a virada de ano e lembrando este ano que se vai. Vamos lá:

  • Este ano tem copa. Estarei torcendo de verdade para uma final Brasil x Argentina, com a Argentina campeã. Continuarei torcendo, em seguida, para que surja uma revolta tão grande na população que os protestos decorrentes desse desastre consigam destruir um dos maiores símbolos de corrupção e coronelismo do Brasil, a CBF. Se bem que, no fundo, o principal motivo é pela piada. Que ia ser hilário. Argentina campeã. No Brasil. Não fica melhor que isso.

  • Ainda falando de futebol, vocês sabiam que a maior torcida “específica” de futebol do Brasil é “Nenhum”? Sério. Explicando melhor: Se considerarmos a torcida de cada clube do país, separadamente, e considerarmos as pessoas que não têm time como uma torcida, a maior torcida do Brasil é “Nenhum”. Vou extrapolar um pouco e afirmar que a maior torcida de futebol do Brasil é "Não gosto de futebol". Desde que eu descobri isso tenho pensado em criar uma coisa chamada “Não Gosto De Futebol Clube”, que seria o time para as pessoas que não gostam de futebol dizerem que torcem. Imagino que seria o pastafarianismo do futebol, se é que vocês me entendem. Uma piada-crítica.

Logo que eu criei em meia hora. Cinco minutos pesquisando vetores prontos, cinco montando eles no Illustrator e vinte me martirizando por não saber medir o nível certo de breguice necessária. Se alguém com mais capacidade quiser fazer um melhor, por favor, vá em frente.

  • Ainda sobre esportes, não sei explicar porquê, mas ver as notícias sobre o Schumacher em sites ““““““sérios”””””” como o UOL chamando ele de Schumi me dá vontade de chutar o monitor. Soa como se estivessem tratando ele como uma aidoru, a Schumi-chan.

Bons pesadelos para vocês também.

  • Mudando de assunto, uma coisa que todo final de ano eu fico retardadamente obcecado e profundamente irritado e é algo completamente estúpido são as listas de “melhores games do ano”. Eu até consigo entender, num nível racional, que é só a opinião de um grupo de ““““““““““jornalistas”””””””””” de games que trampa num site qualquer, mas ainda assim eu me irrito com certas escolhas. Ou certos jogos que deixaram de ser escolhidos. Normalmente é a segunda opção. O pior é que, muitas vezes, eu começo a torcer para jogos que eu nem joguei. Por exemplo: “The Last of Us”. É o jogo não-Nintendo que eu estou, sinceramente, torcendo para ganhar todos os prêmios, a não ser que seja para perder para Super Mario 3D World ou The Legend of Zelda: A Link Between Worlds. Só que eu não joguei TLoU (mas joguei Mario e Zelda, obviamente). Ele sequer é o tipo de jogo que me atrai muito. Sei lá, acho que se leva a sério demais, e é muito marrom e cinza. Nesse sentido, acho até que eu devia torcer para “Bioshock Infinite” (outro que não joguei), já que ele tem alguma paleta de cores. Só que TLoU é uma série nova, que assumiu certos riscos e tem uma proposta que consigo admirar num jogo. Só por isso, torço para ele. Ou para “The Stanley Parable”. Ou “Papers, Please”. Outros que não joguei.

  • Tendo dito isto sobre Mario, Zelda e TLoU, o melhor jogo que eu joguei neste ano que se passou foi “Fire Emblem: Awakening”. Ele é muito “o jogo feito para o Vitor”. Estratégia de turno com elementos de RPG e onde é possível casar com os personagens e criar relacionamentos entre eles? E ainda por cima o jogo não se leva a sério, tendo diálogos leves e bem-humorados, mas trabalhando as relações dos personagens de tal modo que cria episódios altamente emotivos? Melhor jogo de todos os tempos.

  • Depois de falar de um jogo que gostei para caralho, um que me decepcionou horrores: “Tales of Xillia”. Como já falei antes, uma das minhas séries de games favoritas da vida é Tales. E “Tales of Xillia” tem tudo o que eu gosto na série: combate em tempo real, gráficos cel-shading imitando anime, personagens tontos porém adoráveis e uma história apocalíptica exagerada, épica e absurda. Só que tem um enormantesco problemaço: a história da Milla. Seguinte: alguém teve a fantástica (sem sarcasmo) idéia de fazer um Tales com dois personagens principais (o Jude e a Milla) e permitir ao jogador escolher qual ponto de vista ele quer seguir na história. Fantástico. Brilhante. Porém, alguém esqueceu de ESCREVER A PORRA DA HISTÓRIA DE MODO A FAZER COM QUE OS DOIS PONTOS DE VISTA FUNCIONASSEM DIREITO. O que eu quero dizer com isso é que eles escreveram a história pensando no Jude e depois ficaram inventando adendos e apêndices para costurar uma pseudo-história para a Milla. Tanto é assim que um personagem secundário morre e você, pobre jogador que resolveu escolher jogar sendo a Milla, só descobre isso ATRAVÉS DE UM RECORDATÓRIO. Sendo que tem a cena da morte de tal personagem na história do Jude. E adivinhem com quem resolvi jogar? Exato. Logo, toda vez que acontecia alguma coisa na história que era muito descaradamente um tipo de tapa-buraco para fazê-la funcionar do ponto de vista da Milla, eu ficava irritado. O que foi, mais ou menos, 87% do tempo.

  • Continuando com coisas que me decepcionaram, concluí que o filme que mais desgostei em 2013 foi mesmo “Man of Steel”. Já falei sobre isso, mas devo acrescentar que pensei mais de uma vez em expandir o que escrevi com mais críticas (o começo, em Krypton, ao contrário do que eu falei, não é bom. É uma bosta). Nossa, como esse filme é lamentável. Num ano que teve (e eu assisti) “A Good Day to Die Hard” e “Star Trek: Into the Darkness”, eu encontrar algo pior é uma proeza. Parabéns, “Man of Steel”.

  • Se bem que eu não vi “After Earth”. Acho que mesmo eu tenho um mínimo de senso de auto-preservação.

  • Tendo dito isto, o meu filme favorito do ano, foi, disparado, “Pacific Rim”. Robôs gigantes lutando com monstros gigantes. Minha criança interior chorou de emoção o filme inteiro. E, antes de me julgarem, lembrem-se que eu gosto de coisas que não se levam a sério. E meu filme favorito da vida é “Wayne’s World”.

  • Ainda lembrando este ano que se foi, voltei a assistir anime, e tenho uma recomendação: “Kill la Kill”. Da mesma “escola” que “FLCL” e “Gurren Lagann”. É espetacularmente sensacional. E, como não podia deixar de ser, não se leva a sério.

  • Saindo um pouco de assuntos nerds e indo para um dos últimos assunto que tratei neste blog antes do meu hiato, uma coisa que têm me irritado desde o início dos protestos: o termo “coxinha”. Não faz sentido. Não. Faz. O. Menor. Sentido. Para começo de conversa: é uma comida popular. Se ainda quisessem chamar a elite conservadora de “caviar” ou “foie-gras” ou ainda “escalopinhos de vitela wagyu ao molho de cogumelos silvestres com vinho rosé e salpicados de ervas finas”, tudo bem, mas “coxinha”? Vai se foder. E sim, eu pesquisei a origem (afinal, como é difícil procurar as coisas no Google), e dentre as várias que encontrei (aparentemente não há um consenso) a mais repetida origina ela do termo “vale-coxinha” usado por policiais (e professores públicos) para designar o vale-refeição que recebiam do governo. Ou seja, era algo para simbolizar a miséria do trabalhador brasileiro. Enfim, com o tempo, o apelido de “coxinha” pegou nos policiais, já que eles, teoricamente, só se alimentavam de coxinha. Com os seus vale-coxinha. E, como a elite intelectual esquerdista brasileira é muito esperta, ela afiliou o apelido dos policiais ao conservadorismo direitista. Por que isso faz sentido, aparentemente. Lição de casa do dia: refletir sobre o papel da polícia (tanto o teórico quanto o que ela realmente exerce no Brasil) e se ela necessariamente representa a “direita”. Valendo ponto no boletim.

E assim, eu aqui nomeio pessoas de esquerda de "brioches", porque contexto histórico que se foda.

  • Já que estamos falando de coisas sérias e política e etc e tal, este ano tem eleição. Provavelmente vou dizer para mim mesmo que vale a pena estudar os candidatos e fazer um voto consciente, provavelmente vou desistir no meio do caminho e votar em qualquer coisa mesmo. Na verdade, acho que minha maior curiosidade é ver o quanto o desempenho do Brasil na copa vai influenciar a campanha dos políticos. Quero acreditar que somos melhores que isso, mas não duvido que apareçam comerciais como “Dilma trouxe o hexa” no caso de vitória e “Dilma humilhou o futebol brasileiro” no caso de derrota.

Pronto, acho que está bom. Fechei um círculo, voltando a falar da copa. E também tô cansado e agora realmente acabou o assunto. Quero ir dormir.

Bom ano pra vocês.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cidadão Kent

Oi. Depois de assuntos sérios, voltemos às nerdices.

O assunto de hoje é o filme novo do Superman, “Man of Steel”. Se você não viu ainda, vou contar uma série de detalhes da história, então se você não gosta de spoilers, o Superman na verdade é o Clark Kent e você deve parar de ler agora.

Muito bem, vamos falar do filme.

Eu gostei do filme. Menos do que eu achei que ia gostar, mas me diverti bastante. Fui com uma expectativa meio alta também, e isso sempre estraga as coisas. Mas gostei do filme.

Quando saí do cinema.

Agora que já passou algum tempo e estou digerindo a experiência toda, estou começando a ficar incomodado com uma série de coisas. Na verdade, tiveram algumas coisas que me incomodaram ainda no cinema, mas que agora estão crescendo sem parar e me irritando.

Mas vamos por partes. Minha proposta, neste post, é recontar a história do filme do meu jeito. Sim, eu, este grande fã do Superman que nunca leu nenhuma HQ dele e que só viu aproximadamente metade dos episódios da série animada da Warner. Sem contar toda a minha credencial como escritor/roteirista, com todos os meus um fanzine de sucesso e o glorioso e aclamado prêmio de roteiro de mangá da AnimeFriends 2003 (ou 2004, não lembro e não me importo).

E aqui é onde ficaria algum prêmio decente para minhas capacidades literárias... Se eu tivesse algum

Em outras palavras,o blog é meu e eu escrevo o que eu quero e foda-se.

Muito bem, vamos do começo.

O começo é bom e eu deixava do jeito que está.

Por “começo”, estou falando da coisa toda em Krypton, com o Jor-El, a Lara e o Zod, contando o nascimento do Kal e o fim do planeta. Por mim, tá perfeito, deixa do jeito que está, até a parte que mostra a cápsula espacial chegando na Terra.

Daí temos o que eu chamo de “segundo ato”, que é a vida do Clark na Terra até a chegada do Zod. A partir daqui que eu mudaria as coisas. E faria o seguinte: ao invés de acompanharmos ele, como está no filme, eu deixaria a Lois conduzir a história.

Começaríamos com a Lois chegando no Canadá para reportar sobre a nave que encontraram debaixo do gelo. Acompanharíamos ela naquela coisa toda dela ver o Clark indo para o meio do nada durante a noite, com ela entrando no túnel no gelo e etc, mas sem mostrar o que ele está fazendo em momento algum. Ela seria atacada pelo robozitos de segurança e coisa e tal, o Clark aparece pra salvá-la e cauterizar o ferimento dela. Veríamos a nave indo embora e a Lois sendo encontrada.

Seqüência seguinte, ela discutindo com o Perry White Morpheus sobre a matéria, ela “vazando” a história e sendo afastada do Planeta Diário. Aí começava o que estou chamando de “Cidadão Kent”.

Para quem não viu “Cidadão Kane”, e não vou criticar quem não viu, a história gira em torno do repórter Jerry Thompson explorando a vida do milionário Charles Foster Kane, tentando descobrir porque sua última palavra foi “rosebud” antes de morrer (spoiler: é o apelido do pênis dele). E acompanhamos a vida de Kane através das diversas entrevistas que Thompson conduz com as pessoas que se envolveram com o milionário. Em outras palavras, flashbacks. Minha descrição não faz jus ao filme, quem tem saco de ver filme em PB eu recomendo, que é realmente bom.

E para quem não tem saco de ver filme em PB, vai largar a mão de ser idiota que muitos dos melhores filmes da história são em PB.

Enfim, voltando ao Superman. Uma das críticas que mais vi sobre o filme foram os flashbacks, que seriam excessivos e desconectados com o que acontece no “presente”, dando uma impressão meio aleatória para eles. Devo dizer que não me incomodei tanto com eles, mas concordo que poderiam ter sido melhor trabalhados.

Como?

Sendo narrados pelas pessoas que a Lois foi descobrindo ao investigar o cara com poderes mágicos que a salvou dentro da nave debaixo do gelo.

Funcionaria que nem “Cidadão Kane”, com ela encontrando e entrevistando uma pessoa, que narraria o episódio muito louco em que sua vida foi salva (ou seu caminhão foi destruído) pelo moreno smexy de peito peludo. Veríamos a trajetória do Clark em retrospectiva, até chegar na Martha, a mãe dele. Nesse momento poderíamos ter a história da morte do pai terráqueo (Jonathan) e, em seguida, a cena do cemitério, em que ela finalmente se reencontra com Clark, que contaria do dia que o pai revelou que ele é um alienígena.

Sim, eu sei que, do jeito que os flashbacks estão, eles não encaixariam perfeitamente nessa minha proposta, mas a idéia seria adaptar de acordo com a necessidade. E acho que assim fica uma coisa mais interessante, onde vamos criando essa imagem do Super sem vermos ele efetivamente. É como se recríassemos o Clark na nossa cabeça, fugindo de tudo o que já sabemos dele.

E tem uma coisa que eu “forçaria” nesse ato, que é demonstrar que “Superman não mata”. Conforme vou falar mais pra frente, acho importante construir essa idéia desde já.

Enfim, aí terminaria o ato “Cidadão Kent”. Na verdade, até esticaria mais um pouco, até a parte da Lois falando com o Perry White Morpheus que ela desistiu da história.

Só que ficou faltando uma seqüência: o Clark aprendendo o seu passado na nave com o Jor-El.

Antes de eu encaixar ela na minha versão do filme, tem duas coisas que me incomodaram profundamente nessa seqüência.

A primeira é a Lara-El não aparecer. Eu realmente acho uma certa puta sacanagem só o Jor-El ficar aparecendo como holograma-consciente-resolvedor-de-buraco-no-plot. Eu entendo o argumento “o Russel Crowe é mais caro, temos que aproveitar a grana que pagamos e fazer ele aparecer e falar bastante”, mas eu realmente acho estúpido não aparecer o holograma da Lara e o Clark/Kal NÃO PERGUNTAR SOBRE A MÃE NÃO ESTAR LÁ.

Até poderia ter a desculpa que naquele pen-drive kryptoniano não cabia a consciência dela, mas não cola: ficou uma coisa machista. Talvez Krypton seja mesmo só uma sociedade uber-patriarcal de merda.

A outra coisa que me deixou profundamente irritado foi a parte do discurso do Jor-El onde ele fala “você representa a liberdade de escolha, sem um futuro pré-definido” e em seguida diz “por isso sua missão é salvar e guiar as pessoas deste planetinha”.



Muitas memórias desagradáveis de familiares falando coisas como “faça a faculdade que quiser, desde que seja engenharia ou medicina”.

Jor-El, em nome de todo filho/filha que ouviu algum tipo de variação do seu discursinho hipócrita, vai tomar bem no meio do olho do seu cu.

O que eu faria ele dizer ao invés disso? Acho que ficaria só na questão do “você representa a libertação do povo de Krypton dos seus erros” e não falaria nada sobre missão nem porra nenhuma. O Clark/Kal perguntaria sobre o porquê de estar na Terra e Jor-El e Lara respondem “isso é você quem decide e constrói”.

Fica clichê melosinho e com um certo ar de chantagem emocional passivo-agressiva onde eles estão dando a entender que “se você escolher o caminho errado, vamos ficar profundamente decepcionados”? Fica, mas acho menos irritante que a versão hipócrita que tá lá.

Corrigido o que me incomoda nessa seqüência, falta encaixar ela na minha estrutura do filme. Eu a transformaria em outro flashback (quietos, não discutam), que ele contaria na sala de interrogação para a Lois, depois da ameaça em escala global do Zod e depois dele ter se entregado para o exército. Do jeito como a história está indo, funciona. Acho.

“Mas ele não pode contar para os militares sobre o planeta dele.”

Não vejo porque não, pra dizer a verdade. Até porque ele estaria contando para a Lois, que ele sabe que acredita nele. Ah, ele contaria também sobre aprender a voar, que eu gosto bastante dessa seqüência, é um dos momentos que mais me identifiquei com o Superman, já que eu provavelmente faria as mesmas caras de felicidade divertida que ele.

Agora que terminamos com o passado do Clark e ele virou oficialmente o Superman, podemos resolver o resto do filme, o ato final, que é a chegada e a treta com o Zod (sim, o Zod já chegou, mas deixem estar).

No geral, gosto de como o Zod é retratado no filme, assim como as tretas do Superman com ele, a Faora e o “camiseta vermelha”. E eu gosto da coisa da atmosfera terrestre versus a atmosfera kryptoniana, apesar de ter visto algumas pessoas (acho que umas duas) reclamarem disso. Eu prefiro isso que kryptonita. De uma maneira meio tonta, faz mais sentido que “esta pedra verde/preta/rosa/furta-cor de Krypton”. Espero que não tirem kryptonita do cu no próximo filme, a fraqueza dele tem que ser o Batman e fim.

Só que, como não podia deixar de ser, tem algumas coisas que me incomodaram. Profundamente.

A primeira: por que eles levaram a Lois para a nave?

Não lembro da explicação dada no filme. Se alguém se lembra, por favor me ilumine, talvez até tenha sido algo muito válido e que faça todo o sentido do mundo.

Mas, no momento, não consigo pensar em nenhuma explicação lógica o bastante para ela ter sido levada pra lá.

Para ser uma refém e chantagearem o Super? Bem, então eles realmente não sabem usar uma refém, pois não me lembro de ninguém apontando uma arma na cabeça da Lois exigindo informação dele. Sem contar que eles tinham sete bilhões de reféns, não precisavam da Lois na nave - eles dão a entender que podem matar todos os humanos desde que chegam na Terra, bastaria seguir o exemplo do Grand Moff Tarkin.

Tudo o que eu vi acontecer foi eles assistirem o Superman passar mal e prenderem ele, COMO ELES ESPERAVAM QUE FOSSE ACONTECER. Ou seja, se eles sabiam que, no mínimo, Kal ia perder os poderes na nave, não ia ser difícil prum bando de soldados kryptonianos prenderem ele, o que tiraria a necessidade de ter uma refém. Na nave.

Ok, então ela não era uma refém. Existe outra explicação possível para terem levado ela: extrair as informações que eles queriam dela (no caso, o local da cápsula com que Kal-El chegou na Terra), caso não conseguissem com ele.

Bem, eles demonstraram que possuem uma tecnologia capaz de invadir e ler a mente de qualquer um. E não tinha como eles terem certeza de que ela saberia onde estava a cápsula. Mas eles tinham certeza mais que absoluta que Kal saberia. Tipo, sem a menor sombra de dúvida. Logo, não precisavam da Lois lá, pois eles conseguiriam a informação com o Kal de qualquer jeito.

No final das contas, o verdadeiro motivo da Lois estar na nave é: “nós, roteiristas, precisamos fazer com que o Superman consiga escapar” e ela era a solução mais próxima, além de servir pra ela ser mais “útil” que uma mocinha em perigo esperando o príncipe pra salvá-la. Nada contra essa parte dela ser mais “útil”, acho muito válido, mas preferia que os roteiristas tivessem se esforçado um pouco mais para justificar a ida dela à nave.

O problema é que não tenho nenhuma alternativa melhor. Podia ser o clássico “ela quis ir e encheu tanto o saco que a Faora levou ela junto”, mas essa é uma alternativa pior, que ia fazer todo mundo (tanto os personagens do filme quanto o público) ficar meio de saco cheio com a Lois. Outra possibilidade é a Terra (subentenda: os EUA) ter preparado uma comitivazinha pra ir na nave como embaixadores da Terra (América) e a Lois conseguiu sei lá como ser a representante da mídia da Terra (Iú És Ei! Iú És Ei! Iú És Ei!). Só que essa também é ruim, já que ninguém em sã consciência iria preparar embaixadores depois de ter recebido uma ameaça de extermínio.

No final, por mais que eu queira manter a importância da Lois como parte da solução (ou seja, ela ajudando o Super a fugir), acho que o melhor seria o Superman ter conseguido fugir “sozinho”, com a ajuda do pai-holograma e a mãe-holograma, e a Lois nunca ter ido pra nave. Sei lá, ele enfiou o pen-drive do pai, que estaria escondido, numa das diversas entradas USB da nave.

Enfim, segunda coisa que me incomodou, e que, novamente, não me lembro com todos os detalhes e posso estar falando do cu: o fato do Zod ter levado a nave “última esperança de Krypton” para a treta, o que, em última estância, colaborou para o Superman ter destruído ela.

Acho que essa é bem auto-explicativa: se aquela nave era tão importante, por que caralho levar ela pro meio da merdaiada?

Aí que entra em cena minhas memórias fabricadas do filme e eu precisaria de mais gente me corrigindo (a pessoa com quem vi o filme me disse que estou lembrando errado, mas queria ter mais gente apontando o dedo na minha cara e falando que estou enganado) ou confirmando o que eu lembro: o Zod foi com outra nave até a Nave Jesus, logo ele podia simplesmente ter largado a Nave Maomé lá na neve e ter ido com a outra nave até a treta, mantendo a Nave Luke Skywalker a salvo.

Só que eu posso estar errado e, na verdade, ele foi de carona pra lá e ficou de voltar com a nave Frodo mesmo. Aí não tinha muito o que fazer. A não ser, por exemplo, ter estacionado a Nave Harry Potter perto de Metropolis e ter ido saltitando pra treta.

Ou, quem sabe, ter deixado pra ir pegar a Nave Siddhartha depois que tudo estivesse 100% garantido e salvo. Acho até que essa teria sido a melhor solução, principalmente para criar o dilema para o Clark/Kal se ele ressuscita ou não os kryptonianos.

Mas era importante para a luta final deixar o Zod sem ter nada a perder, então eu entendo os roteiristas terem destruído a Nave Acabaram Os Salvadores Do Meu Repertório E Não Estou A Fim De Pesquisar Mais. Mas que pareceu uma péssima decisão do Zod, pareceu.

E, assim, chegamos à terceira coisa que me incomodou nesse ato final, e que foi o que mais me irritou no filme inteiro: a seqüência da Grand Central Station.

A parte que o Superman mata o Zod.

Muito bem.

Caralho.

Como eu me irritei com essa parte.

Comecemos com o motivo mais banal possível: milhões de pessoas já tinham morrido até aquela parte do filme, por que caralhacete aqueles transeuntes tontos que não sabem fugir duma cidade sendo destruída seriam tão importantes assim?

Sério, o Super não percebeu que eles arrasaram a cidade inteira enquanto lutavam, não? Acho até que era para ter umas manchas de sangue alheio nas roupas deles, ou mesmo um membro arrancado de alguém que foi explodido quando um dos dois saiu voando dentro de um prédio.

Como sou um fresco, não tive muita coragem de procurar imagens de "membros decepados ensangüentados" no Google, por isso desenhei alguns. Só que depois de dez minutos, cansei, e deixei só esses. Me deixem em paz.

Ou seja, que bosta, heim, Superman? Saiu destruindo tudo e agora que você fica preocupadinho que uns quatro ou cinco inocentes vão morrer?

Na verdade, o problema não é bem pesar a vida de poucos contra a vida de milhões (apesar de que é exatamente isso que eu fiz nos parágrafos anteriores), mas sim que faltou “drama” nessa cena. Faltou impacto cinematográfico-emocional. Ou seja, pelo menos pra mim, ficou uma coisa meio “sério que você matou o Zod só por isso?”

Voltando ao que eu falei lá na parte do “Cidadão Kent”: do jeito que o filme está, acho que não foi bem passada a idéia de que “Superman não mata”. Por causa disso, imagino que quem não conhece essa faceta dele, não entende direito o porque dele ter sofrido tanto ao matar o Zod, o que tira boa parte do peso emocional dessa seqüência.

A outra coisa é que temos (ou eu tive, pelo menos) a sensação que o Superman só sofreu com a morte do Zod, e não percebeu todas as outras milhões de mortes que aconteceram, em certo grau, por causa dele.

Faltou o Super ter olhado em volta, visto o rebosteio que ele causou na cidade lutando com o Zod (ou mesmo ter percebido todas as mortes que foram causadas pelo Zod antes da treta ter começado) e isso ter pesado ainda mais na consciência dele para matar o cara, e não só os transeuntes tontos sendo ameaçados.

E, por fim, temos os transeuntes tontos.

Sim, é moralmente discutível pesar a morte de milhões contra a morte de quatro/cinco pessoas, mas eu realmente acho que poderia ter sido algo mais exagerado, como o Zod ameaçando derrubar mais alguns prédios com a visão de calor. Ou uma usina nuclear, sei lá.

Só que ameaçar algumas estruturas de concreto não causa tanto impacto emocional quanto ameaçar pessoas de carne e osso com olhares de desespero e choro para a câmera captar, então vale mais a pena ameaçar os tais transeuntes tontos.

Mas aí eu sinto que foi desperdiçada uma chance de ouro de terem “hollywoodizado” ao máximo essa parte.

Estou falando do Zod ter ameaçado um pai com o seu filho, e ter tido aquela troca de olhares entre o Super e a criança, deixando a coisa bem melosa pra caralho, com o pai em tal posição que percebemos que ele está disposto a dar a vida pelo filho.

Sério, como foi que não fizeram essa cena assim?

Hollywood, tem hora que você me decepciona.

E, quanto mais penso em todo o potencial perdido dessa seqüência, principalmente no sentido de não ter sido trabalhada a coisa toda do “Superman não mata” e o apelo emocional de “pais estão sempre dispostos a dar a vida pelos filhos”, fico irritado. Pra cacete.

No fundo, repensando o filme inteiro, a sensação que eu tenho é de “potencial desperdiçado”. Poderíamos ter tido um filme mais interessante, com um Superman mais humanizado e uma narrativa mais trabalhada. Mas parece que quiseram cortar uns caminhos e fazer do jeito mais fácil.

E eu também tenho plena consciência que a minha versão da história não é tão melhor assim, até por ser um tipo de “salada tonal”, onde o ritmo da narrativa muda demais de um ato para outro.

Só que, como um bom nerd, tenho que reclamar e inventar minha versão da história e acreditar que ela é melhor que a que está lá. Afinal, isso é algo que nerds fazem, não é mesmo?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A lei que o Brasil mais precisa

Sim, outro post. Já. É o que acontece quando tenho assunto.

E sim, esse título é metido e pretensioso. Mas é que estou tentando chamar a atenção.

Enfim.

Na verdade, este é um “projeto de lei” antigo meu, que eu penso nele faz tempo. Até já pensei em escrever sobre ele no blog antes, mas achava que não havia muito propósito em compartilhar a idéia com o mundo. Achava que, magicamente, a sociedade ia ler minha mente, validar minha lei e mudar o país pra melhor. E também achava que não adiantava nada compartilhar a idéia que não ia passar de mais uma “idéia papo de buteco pra mudar a realidade”.

Mas, considerando a situação atual do buteco, é capaz de me ouvirem.

Ainda acho que essa idéia não vai dar em nada, mas agora, com os protestos e etc, me sinto mais confiante em compartilhar a proposta.

Chega de enrolar.

A lei se chamaria “Lei Quem É Que Manda Nesta Merda” e consiste, basicamente, de um teto salarial para o Poder Legislativo atrelado ao salário mínimo e que só pode ser alterado através de um referendo.

Pronto. Resolveu o Brasil. The end.

Ok, vamos explicar.

Primeiro, se tem uma coisa que eu acho o fim da picada é que o poder legislativo tem controle sobre o próprio salário.

Não sei se existe isso escrito em algum lugar, mas acho que é um tipo de regra óbvia para o bom funcionamento de qualquer empresa: você não deixa os funcionários decidirem o próprio salário. Ponto. Que se você deixar, eles vão querer o máximo possível e vão quebrar a empresa.

Tudo bem, na verdade eu não acho que isso aconteceria de verdade. No fundo, acho que os funcionários e os patrões conseguiriam chegar num consenso e estabelecer um salário razoável pra todo mundo.

Acontece que no cenário do Brasil e o seu poder legislativo, não há um diálogo com os patrões. Que somos nós. O povo brasileiro.

Ou seja, voltando ao paralelo com uma empresa, é como se os funcionários pudessem decidir o próprio salário sem consultar os patrões. E eles não se importam com os patrões. E eles (os funcionários, o legislativo) são, em sua maioria, uns grandes filhos da puta.

O que leva eles a aumentarem o próprio salário quando bem entendem.

Daí a minha solução: limitar o quanto eles ganham.

Mas como decidir um limite? Simples, atrelando esse limite ao quanto os patrões e a empresa ganham: o salário mínimo. Exemplo, limitar o salário deles a dez salários mínimos mensais.

Porque, voltando novamente ao meu paralelo empresarial, outra vantagem desses funcionários é que eles conseguem determinar quanto que a empresa ganha.

Estou falando de impostos.

Como eles conseguem aprovar (acho eu, se alguém que manja mais de legislação quiser me corrigir, por favor o faça) qualquer imposto, eles ficam com a faca e o queijo na mão: podem decidir quanto ganham e o quanto a empresa faz de dinheiro.

Não é a tôa que a corrupção é tão alta no Brasil.

Aliás, não sei como funcionam em outros países, nem sei se existe esta lei que estou propondo em algum outro lugar e, sinceramente, se eu parar pra pesquisar agora, vou desistir de continuar escrevendo e quero terminar essa coisa. Depois eu pesquiso.

Voltando: ligando o salário deles com o salário mínimo, o único meio deles ganharem mais é aumentando o salário mínimo, o que resulta num ganho para todos (mais ou menos, eu sei que não é tão simples, mas continuem comigo).

Só que eles continuam sendo os caras que aprovam ou vetam leis. Se eles quiserem, é só “corrigir” essa lei para, por exemplo, aumentar o salário deles para cinqüenta salários mínimos mensais.

Aí que entra a cartada final: forçar esta lei a só ser mudada através de referendo.

E adivinha o que a população muito provavelmente ia votar?

NÃO, NÉ, CARALHO.

O mais legal seriam as propagandas políticas desse referendo.

Ou seja, o poder de decidir o salário desses funcionários ia voltar para os patrões.

Nós.

O povo brasileiro.

E essa é a minha “Lei Quem É Que Manda Nesta Merda”, a lei que pode resolver todos os problemas do Brasil.

Sim, eu sei que ela tem seus problemas, como, por exemplo, um desastre econômico decorrente de um aumento desenfreado do salário mínimo. Mas sei lá, eu gosto dessa minha lei.

Afinal, ela mostra pra esses filhos da puta quem é que manda de verdade nesta merda.

E quem, sabe, com essa lei, eu páro de chamar o Brasil de “esta merda”, e começo a chamar ele de “este país”.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Você não sabe o que é melhor pra mim, mesmo que você saiba o que é melhor pra mim

Oi.

Então.

Protestos.

Muito legal. Mesmo. Apoio total da minha parte. Acredito muito que estava mais do que na hora de levantarmos a bunda e tentarmos mudar o país.

Não importa que demorou, não importa se esta é ou não a melhor hora, o que importa é que aconteceu. Foram os vinte centavos da virada, as gotas d'água.

Eu sei que já fizeram imagens desse tipo, mas queria fazer a minha.

Por ser um cagão de marca maior e pessoas à minha volta ficarem deveras preocupadas comigo (ou melhor, preocupadas com a incapacidade da PM), não fui a nenhum protesto ainda. Mesmo com vontade. Mas é que dá um medão. Eventualmente eu crio umas bolas e vou participar.

De qualquer maneira, resolvi escrever aqui no blog para refletir sobre algo que estou vendo ser jogado por aí para as pessoas levantarem a bunda e participar dos protestos: o argumento de que “estão protestando por um país melhor para você, então você devia ir protestar também.”

Devo dizer que essa postura me incomoda. Por mais que ela seja verdade.

Basicamente, estou falando do clássico problema de que “humanos não gostam de serem mandados”.

Seguinte: é melhor para todos um país onde a liberdade de expressão é respeitada e a corrupção é punida?

Claro que sim.

Mas todo mundo, acredito, tem um pequeno “Do Contra” que, ao ouvir alguém chegar e falar “Vai lutar pelos seus direitos que é o que é melhor para você!” responde com algo como “Vai à merda, eu faço o que eu quero, e eu quero mais é ser explorado e oprimido! Você não manda em mim! Enfia essa sua liberdade no cu!”


“Então, como você quer convencer as pessoas a participar?”

Aí que está o problema.

Numa realidade utópica, poderíamos explicar os ideais dos protestos com detalhes, dados e evidências e então convidarmos educadamente as pessoas a participar.

(Ou melhor, numa realidade utópica, nem precisaríamos estar protestando, mas vamos com uma utopia por vez.)

Só que: um, muitas pessoas não têm saco ou educação (nos dois sentidos da palavra, sobre ser culto e ser gentil) para ouvir até o fim e dois, as pessoas protestando estão com o sangue fervendo, e fica difícil conversar assim.

Qual a melhor solução, então? Como convencer as pessoas a apoiarem os protestos?

(Sim, eu sei que já tem gente pra caralho participando, mas se você quer a minha opinião, ainda não é o bastante)

Para mim, a melhor solução é tratar os indecisos e os opositores dos protestos como aquilo que eles são: adultos responsáveis.

Logo, ao invés de apontar o dedo e falar “vai apoiar os protestos que estão lutando por você”, acho que deveríamos PERGUNTAR: “Você sabe por que estão protestando?”

Se a pessoa é contrária aos protestos, a resposta vai girar em torno de “por causa de vinte centavos” ou “porque são um bando de baderneiros causando balbúrdia”. Se a pessoa for indecisa, ela possivelmente vai responder com outra pergunta (“por causa de vinte centavos?”) ou com um sincero “não sei”.

E o que respondemos? Com a “nossa verdade”, com o porquê de nós estarmos apoiando os protestos.

E é o que eu vou fazer agora, explicar a “minha verdade”, o porque de eu estar apoiando o movimento.

Eu, por exemplo, não levava os protestos muito a sério quando começaram, pois me pareciam que eram só sobre os vinte centavos.

Mas, de acordo com o que foi acontecendo e fui lendo mais sobre o movimento, cheguei a conclusão que não só esses protestos são importantes, mas como eu devo apoiar e incentivar eles (do meu modo).

E houve um “tipping point” pra mim também: a resposta da PM e dos políticos.

Fiz uma versão sem minha cara feia, caso alguém queira.

Para mim, mais importante que transporte público ou corrupção (que são coisas importantes, não estou negando o valor delas) é a liberdade de expressão. E o governo reprimir ela sempre me deixou muito puto pra caralho mesmo plus plus.


O mais importante, para mim, é respeitar o direito das pessoas de pensarem e discutirem suas idéias. Impor uma verdade é, a meu ver, reduzir uma pessoa ou um povo a algo menos que “humano”. Por mais que eu tenha minhas ressalvas com uma liberdade de expressão “perfeita”, ainda acho que algo que deva ser protegido a qualquer custo.

Mas eu não sabia como demonstrar minha revolta, já que sempre fui muito desiludido com o poder de um indivíduo em conseguir uma mudança maior no esquema geral das coisas.

Só que, desta vez, eu não apenas me revoltei, mas senti um fiapo de esperança de que agora, com todas essas pessoas e essas causas e esses movimentos e essas motivações, uma mudança pode acontecer.

E é por isso que eu apóio os protestos.

Não ao ponto de arriscar minha saúde, mas acho que já estou chegando lá.

Resumindo, já que o post tá ficando maior que eu esperava:

Não acho que a postura “se você não é parte da solução, você é parte do problema” que vejo muitos propagandearem por aí é boa para a “causa”. Acho que devemos respeitar a inteligência de todos, e apresentar nossas motivações para protestarmos. E, ao final, estender a mão e convidar para o movimento, demonstrando as diversas maneiras que uma pessoa pode apoiar ele - não é obrigatório ir pra rua e correr o risco de apanhar da polícia.

Estou sendo um tanto deslumbrado e ingênuo? Talvez. Mas acho que é melhor fazer as pessoas refletirem com perguntas do que ficarem irritadas com “ordens”.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Memórias póstumas de uma piada mal compreendida

Olá.

Não sei se dá pra perceber pelo título, mas este post é uma expansão do meu post “O desinteressante fim de uma piada mal contada”. Lá eu falei sobre uma piada minha que deu errado porque eu caguei tudo. Quer saber mais, vai ler lá.

Desta vez, vou falar sobre uma piada minha que, acidentalmente, se tornou um sucesso, e pelos motivos errados.

Tudo começou com o orkut.

Foto da última vez que usei o orkut.

Alguém lembra do orkut?

Então, o orkut era esse site que nem o Facebook, mas diferente de maneiras que não entendo porque não uso nem um nem o outro direito, e que fez sucesso uns dez anos atrás aqui no Brasil.

Ele tinha esse conceito de comunidades, que eram um tipo de mini-forum que girava em torno de um tema determinado pelo criador dela.

Acontece que existiam muitas, mas muitas comunidades muito tontas.

Coisas óbvias, que 90% da raça humana se encaixa, como “Odeio acordar cedo” ou “Odeio o Caetano Veloso”, ou coisas egocêntricas estúpidas, tipo “Conheço a Shirslayne” ou “Sou foda” e similares.

Enfim, nenhum link no parágrafo anterior que eu não tô a fim de me recadastrar naquela merda só pra procurar comunidade tonta.

Vamos ao que interessa: a comunidade que eu criei que fez um sucesso filha da puta.

“Tenho dez dedos nas mãos”.

A original. Eu que fiz. Não existe mais, caso queiram saber.

A idéia era ser uma sátira das demais comunidades e de uma corrida tonta que existia na época de tentar fazer a comunidade mais popular do orkut.

Ou seja, queria fazer uma comunidade que englobasse a maior quantidade de pessoas e que fosse realmente tonta e sem propósito.

Acredito que consegui, apesar de já existir, na época, coisas como “Moro no planeta Terra” ou “Respiro ar”.

Mas eu não me agüentei e acrescentei uma piadinha na descrição.

Basicamente, eu coloquei que existiam dois motivos para fazer aquela comunidade:

1 - Fazer a comunidade mais estúpida do orkut e

2 - Fazer uma comunidade que o Lula não pudesse entrar.

Pois é.

Era 2002. Ano de eleições. A que o Lula ganhou do Serra.

Ou seja, as pessoas encararam a comunidade como se fosse um tipo de plataforma anti-Lula, ou anti-PT.

NÃO ERA.

ERA UMA PIADA.

TONTA.

Eu só quis dar um toquezinho a mais, uma cerejinha no topo.

Mas as pessoas encararam como o foco principal da comunidade.

Nossa, como eu fiquei irritado.

As discussões do começo, que eram coisas como “Qual seu dedo favorito?” se tornaram “Força Serra!” e similares.

Enfim, eu já não cuidava muito da comunidade, e devo dizer que até fiquei feliz por alguma coisa que eu fiz ter ficado popular, mas ficava aquele gosto amargo na boca de “sucesso acidental”.

E eu não sei explicar isso direito. Dava vontade de gritar algo como “Seus burros, essa comunidade não é sobre política, é sobre a futilidade das comunidades do orkut, o vazio da conquista da fama e a efemeridade da vida humana! Gostem dela pelo motivo certo! Porra!”

Ou seja, eu queria que as pessoas gostassem da minha comunidade (entendam: de mim) do jeito certo.

É que nem a história do cara mais bonito do mundo que gostava de fazer pentes. Ele queria ser reconhecido pela qualidade dos pentes, não por ser o cara mais bonito do mundo.

O tempo passou e eu desencanei do orkut, passei a comunidade para o Koizumi, um amigo meu (atenção, amigo, se quiser que eu ponha seu nome aqui, eu ponho, só queria proteger sua privacidade) [Editado: ele deixou pôr o nome dele] e parei de me estressar.

Algum tempo depois, a comunidade foi roubada (as pessoas faziam isso, dá pra acreditar?) dele, e mudaram ela de nome e sei lá o que mais.

Talvez eu não devesse me irritar mais, mas essa história me irrita até hoje. E me irrita quando vejo acontecer com outras pessoas.

Estou falando de quando o “público em geral” não entende uma piada ou uma sátira ou uma crítica, mas você entende.

Sim, eu sei que não dá pra saber com certeza qual a intenção do autor da obra que você acredita ter entendido, mas tem vezes que é bem óbvio o contexto da coisa toda, só que ninguém entende.

É, tô parecendo adolescentezinho que fala que aquela música daquela banda foi feita pra ele, que o vocalista entende ele e o resto do mundo está errado.

Só que no meu caso, não foi um músico, mas o Tolkien quem me entendeu... He's so dreamy...

Só que, neste blog, eu estou certo, então foda-se.

E, aparentemente, eu não sou o único a perceber essas coisas - tem esse cara no Cracked, o Gladstone, que fala bastante sobre comédia, já escreveu algumas vezes sobre piadas e sátiras mal-compreendidas pelo povo.

Normalmente, essa falta de compreensão do contexto da coisa toda leva as pessoas a se revoltarem, ficarem chocadas ou se sentirem ofendidas. Só que, às vezes, como no caso da minha comunidade do orkut, as pessoas simpatizam com a coisa toda e, ao invés de ódio tonto, trazem um tipo esquisito de reconhecimento tonto.

Sinceramente, acho que é mais fácil lidar com o ódio tonto que com o reconhecimento tonto. Acho até que me irrito mais com o segundo, pois o primeiro não traz nada de bom e é mais fácil de descartar como “pessoas burras”. O segundo gera um tipo de contradição, onde as pessoas gostam do que você fez, mas não entenderam nada. Sei lá, isso irrita.

O que me leva, finalmente, à uma piada de uma certa obra que poucos entenderam direito, mas que virou um tipo de ícone dos fãs dessa obra pelo motivo errado. E essa história toda me enche de raiva.

E esta obra se chama My Little Pony: Friendship is Magic.

E estou falando da piada do “20% mais legal”.

E já estou ficando com o sangue fervendo de raiva.

Enfim, “20% mais legal”. Vamos começar explicando o que é isso para quem não assiste MLP: FiM, essas pobres almas sem cor na vida.

No décimo quarto e melhor episódio da primeira temporada (o melhor da temporada, tem outro que acho mais mágico na temporada seguinte), somos apresentados ao seguinte plot: Rarity, após ver o vestido que Twilight Sparkle pretendia usar no Grand Galloping Gala, em Canterlot, decide fazer novos vestidos para todas as amigas, para que elas usem roupas minimamente decentes em um evento tão “high society” quanto o Grand Galloping Gala.

Rarity então faz os cinco vestidos, todos muito fofoluchos e devertedos, combinando com a personalidade de cada uma.

Mas, como qualquer pessoa que já trabalhou com algo artístico para um cliente sabe que sempre acontece, as cinco não gostaram. Acharam que não ficou como elas esperavam. Sendo que é um presente. E elas não falaram nada no começo da coisa toda. Só aceitaram. E agora estão reclamando.

Vadias.

Enfim, para não deixar as amigas decepcionadas, Rarity decide refazer os vestidos seguindo o que elas pedem.

Já estou sentindo aquele frio na espinha seguido de aperto no estômago de ódio pulsante que sinto quando ouço as palavras “o cliente pediu alterações”.

Resumindo, para eu não ficar descrevendo o episódio inteiro, até porque é mais fácil ir lá assistir: os vestidos ficam do jeito que as amigas gostam, uma coisa horrorenda e ridícula, e elas fazem um desfile e a Rarity vira a grande piada de Ponyville, com a carreira e o amor pela arte destruídos. Mas depois dá tudo certo.

Devo dizer que este que foi o episódio que me tornou fã de MLP: FiM, pois me identifiquei com a situação toda que a Rarity (minha pônei favorita, principalmente por causa deste episódio) passou e percebi que o show tem uns roteiristas muito bons, que não tem medo de fazer uma piada para um público adulto sem ser uma referência velada tonta a sexo ou drogas.

Mas enfim, ainda não expliquei o que é a coisa do “20% mais legal”.

Na parte em que Rarity está refazendo os vestidos das amigas, tem toda uma seqüência cantada com as bobagens que elas pedem para fazer nos vestidos. Aí tem a parte da Rainbow Dash.

Ah, a parte da Rainbow Dash.

RAINBOW DAAAAAAAAASH!

A Rarity tenta extrair dela o que ela quer no vestido e tudo o que ela consegue é a frase “tem que ficar 20% mais legal”.

Ai, caralho.

Sério, eu gosto da Rainbow Dash, mas que eu fiquei com uma raiva incandescente dela nessa hora, eu fiquei.

Mas dei risada também, pois foi muito boa a relação com o que acontece no mundo real, e provavelmente está acontecendo em uma agência de propaganda/design/webdesign neste exato instante, com alguém fazendo exatamente a mesma cara que a Rarity.

Esta cara. É desta cara que eu estou falando.

Só que aí entrou em cena o fandom retardado.

Que, de algum modo inexplicável, achou essa coisa do “20% mais legal” uma “sacadinha”, porque esse é “o estilo Rainbow Dash” e sei lá o que mais. E, em seguida, virou um tipo de frase de efeito dos fãs, onde “a vida é 20% mais legal” e outras merdas também podem ser “20% mais legal”.

 Então. NÃO. ERRADO. Porra. Merda. Cu. Caralho.

Não é uma sacadinha divertidinha de como a Rainbow Dash é serelepe e sempre surpreende de maneira supimpa.

É um paralelo com cliente merda.

Todas elas fazem um paralelo com clientes merda.

A Twilight Sparkle é o cliente pedante que quer tudo politicamente correto demais, o que deixa o produto tonto e efadonho.

A Applejack e a Pinkie Pie são os clientes que não entendem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, então tentam colocar elementos de coisas que elas entendem (no caso, fazenda e festas) em algo que não tem nada a ver (vestidos de gala). É tipo o cara que quer uma foto do cachorrinho no site da empresa.

A Fluttershy é o cliente que quer uma coisa altamente complexa e difícil e demorada e desnecessária e não entende como a coisa que quer é altamente complexa e difícil e demorada e desnecessária (e, normalmente, não quer pagar o extra que essa coisa custaria, além de reclamar da demora).

E, por último, a Rainbow Dash é o cliente que realmente não sabe o que quer e espera que você mostre pra ele o que ele quer. O que é uma missão impossível. O que leva ele a ficar irritado com você, e a soltar comentários vagos e sem propósito, como “não está alegre o bastante” ou “podia ser mais real” ou “tem que ficar 20% mais legal”.

Ou seja, se você acha isso uma “sacadinha rainbow-dashiana”, você provavelmente nunca teve que lidar com esse tipo de cliente merda ou você É esse tipo de cliente merda. Seu merda.

Mas enfim, esse foi outro exemplo de “piada que saiu pela culatra”, e a Hasbro (entre outras empresas), obviamente, não perdeu tempo em aproveitar o sucesso dela. E ela não está errada em fazer isso.

Eu só gosto de pensar que a roteirista do episódio, toda vez que vê alguma coisa do fandom envolvendo a frase “20% mais legal”, sente uma mistura de ira flamejante com orgulho envegonhado, querendo estrangular todos os fãs e forçá-los a entender a piada do jeito certo. Que nem eu ficava quando olhava o sucesso da minha comunidade do orkut.

Só que as pessoas são tontas.

sábado, 13 de abril de 2013

Two milkmen go comedy!


Este vai ser um daqueles raros posts em que eu tento falar bem de alguma coisa.

No caso, de um game: Zero Escape: Virtue’s Last Reward (ZE:VLR).

Cacete, como esse jogo é muito bom pra caralho mesmo plus plus.

Esse jogo é, ó, tchik, tchik! Até fiz cosplay de um dos personagens!

Se você não tem um 3DS, vá comprar um pra jogar esse jogo. Pode ser um Vita também, mas recomendo o 3DS por dois motivos: primeiro, poder jogar o primeiro jogo da série, 999: 9 Hours, 9 Persons, 9 Doors e segundo, ter um console portátil que vale a pena.

Antes de eu continuar babando ovo em cima desse jogo, uma ressalva: você passa uns 80% do jogo lendo.

Basicamente, é um livro com alguns puzzles MUITO BONS no meio.

Mas é uma história boa.

Ok, é uma história boa o bastante. Não vai jogar esperando algo profundo como um Crime e Castigo ou um Cem Anos de Solidão que não é essa a proposta.

Aliás, não sei qual que realmente é a proposta dos criadores do jogo. O que eu sei é o que eu senti da história jogando o jogo: que é um exemplo fantástico do que um game pode fazer com uma narrativa.

Ok, essa afirmação ficou confusa. Mas acho que é o melhor que eu consigo. Quem sabe dá pra entender com a explicação.

Comecemos do princípio: qual a grande diferença entre games e as demais “artes narrativas”?

O nível de interatividade do “consumidor” (aqui significando “consumidor de uma obra artística”) com a obra.

Sim, sim, existem aqueles livros de “faça sua aventura” e aquelas instalações de arte contemporânea onde você só aprecia a arte se esfregar as genitais em esculturas de pedra sabão e também aquelas peças horrorendas de teatro com interação com a platéia, puta merda, como eu odeio isso, devia ter uma lei proibindo essa bosta.

Instalações com interação do público. Arte.

Só que eu vou manipular a semântica da coisa toda e separar os games das demais artes com isto: “um game, para ser um game, pressupõe a interação do jogador, enquanto que nem todo livro é um ‘faça sua aventura’, nem toda instalação é uma narrativa e nem toda peça de teatro interage com a platéia, ainda bem, senão nunca entrava num teatro, nossa, eu realmente odeio essas peças com interação do público, prefiro rolar pelado em cacos de vidro sujos de curry.”

Tendo definido isso, vamos para o próximo passo, que é pensar no que pode fazer a narrativa de um game boa.

Uma das respostas mais comuns e que é a visão que muitos desenvolvedores e muitos  jogadores têm é “liberdade de escolha” associada com “conseqüências condizentes” (nunca vi ninguém usar essas expressões desse jeito, mas é o melhor modo que consegui para resumir a coisa toda).

“Liberdade de escolha” quer dizer, neste contexto, deixar o jogador decidir o que fazer com o personagem para a história acontecer. Se o jogador quer cumprir uma missão ou não, se ele deve matar ou salvar determinados personagens, se ele quer comer donuts ou bagels - enfim, deixar essas decisões nas mãos dos jogadores.

Essa parte, da liberdade, tem sido explorada através da existência de “momentos de escolha” num jogo, onde o jogador tem duas ou mais opções para direcionar a história. A tendência, imagino, é deixar esses momentos mais discretos (sem aparecer uma caixinha de texto onde você literalmente escolhe uma opção ou outra), mais incorporados ao jogo, além de ir aumentando o leque de escolhas, deixando o jogador fazer o que bem entender (mesmo que essas escolhas não façam o menor sentido, já que sempre vai ter um espírito de porco que vai querer fazer algo realmente estúpido).

A questão é que “liberdade de escolha” é inútil sem “conseqüências condizentes”. Traduzindo: do que me adianta tomar uma decisão se o resultado de todas as opções é o mesmo final?

Aí está um grande problema para os desenvolvedores trabalharem, pois não tem como determinar TODA SANTA CONSEQÜÊNCIA dos atos de um personagem. Isso gera um pepinão para os roteiristas de jogos, pois (novamente) sempre vai ter um tonto pra questionar a quantidade limitada de conseqüências para a decisão retardada dele.

Mas enfim, essa é uma das sinas da narrativa em games - como prever e programar as conseqüências das ações dos jogadores.

E toda a história de ZE:VLR gira em torno de suas escolhas e suas conseqüências, só que de uma maneira bem “arcaica”, onde a história caminha até um ponto e então são apresentadas opções e você clica na touchscreen qual opção você quer. Chega ao ponto do personagem resumir as (prováveis) conseqüências da sua escolha pra você pensar bem no que quer fazer.

Até aí, nada muito inovador.

O que me fez alucinar na narrativa de ZE:VLR é que o jogo “brinca” com as suas decisões e suas conseqüências - mudando o que acontece mesmo quando você já sabe o que deveria acontecer.

Atenção: spoilers.

Basicamente, o seu personagem desenvolve, durante o jogo, o poder de “saber” o resultado das suas decisões antes de tomar uma decisão - mas apenas se você já jogou até o final o “universo” onde seu personagem tomou tal decisão. Deu pra entender?

Assim, vamos supor que você podia escolher entre fazer um misto quente ou um misto frio  para o café da manhã. Você resolveu fazer o frio, pois não queria se dar ao trabalho de esquentar o sanduíche. Isso permite você sair um pouco mais cedo de casa, mas, para seu azar dois drogados armados dirigindo um carro a oitenta quilômetros por hora estavam passando na sua rua bem na hora que você sai e metem uma bala na têmpora esquerda e você morre. Vamos chamar este de “Universo Roteiro Real Que Vi Alguém Escrever Na Quanta E Se Você, Autor Dessa Pérola, Estiver Lendo Este Post, Sério, Puta Idéia Lixo” (URRQVAENQESVADPELEPSPIL).

Agora, vamos pensar no que acontece se você escolhe fazer o quente. Você liga a sanduicheira polishop, põe o sanduíche pra esquentar e ela explode na sua cara, e você morre. Vamos chamar este de “Universo Não Estou Com Muito Saco De Bolar Uma Morte Melhor” (UNECMSDBUMM).

Ok, temos os dois universos definidos. Só que, em ZE:VLR existem mais dois universos relacionados à esses dois: o Universo Onde Você Sabe Que Você Vai Ser Baleado Ao Sair De Casa (UOVSQVVSBASDC) e o Universo Onde Você Sabe Que A Sanduicheira Vai Explodir (UOVSQASVE).

Mas você só tem acesso ao UOVSQVVSBASDC se você jogar o URRQVAENQESVADPELEPSPIL, assim como você só tem acesso ao UOVSQASVE se você jogar o UNECMSDBUMM. Não perguntem como você tem acesso à esses diferentes universos se você morre no final deles - faz parte da diegese do jogo e pronto.

Enfim, vamos ao ponto que interessa: como mudar seu destino nos UOVSQs. Vamos ver o primeiro, UOVSQVVSBASDC:

Você sabe que, se sair de casa um pouco mais cedo, por causa do tempo que ganhou não esquentando seu misto, você vai levar um tiro e morrer. Então você toma a decisão mais sensata, que é esquentar o misto. Seu sanduíche esquenta, você come ele DEVAGARZINHO, aproveitando cada mordida e mastigando tudo até só sobrar uma pasta nojenta e sem gosto na sua boca. Aí, antes de sair, você olha pela janela e não vê nada de anormal. Olha pro relógio e percebe que está uns quarenta minutos atrasado, mas é melhor isso que morrer. Sai de casa, pega seu ônibus e, nele, você encontra os dois drogados que te balearam no URRQVAENQESVADPELEPSPIL. Você leva um puta susto do cão, mas percebe que os dois não estão drogados, não estão num carro a oitenta por hora e não estão armados. Estão conversando sobre a reunião no Drogaditos Anônimos de onde saíram e de como Tupã ajudou eles a superarem as drogas e os ímpetos de saírem correndo com o carro acima do limite de velocidade em áreas residenciais atirando aleatoriamente pela janela com um revólver. Você chega no seu ponto, vai pro trabalho e a vida continua, sem mais nada de anormal.

Agora, vamos ver o que acontece no segundo, UOVSQASVE:

Você sabe que, se esquentar seu misto, a sanduicheira vai explodir e você vai morrer. Então você ignora ela, come o misto frio mesmo, e vai trabalhar. Nada de mais acontece durante o seu dia, até a hora de voltar pra casa. Você volta e encontra apenas cinzas, pois você tinha se esquecido do Pepe, o garoto peruano que te ajuda a cuidar da casa nos dias ímpares e que gosta muito de sanduíches de salame quentes, e que você tinha ensinado a usar a sanduicheira para quando ele ficasse com fome. Um bombeiro explica que uma sanduicheira explodiu e queimou a casa inteira. Você se sente péssimo, mas a vida continua.

Enfim, vamos parar a história do UOVSQASVE por aqui e explicar o que aconteceu nesses dois casos.

Basicamente, a realidade mudou simplesmente porque você teria conhecimento prévio das consequências dos seus atos.

No UOVSQVVSBASDC, só de saber que você ia levar um tiro ao sair mais cedo de casa, a “realidade” se adaptou à isso e mudou a vida dos dois drogados, meio que invalidando sua decisão de esquentar o sanduíche - e também consertando sua sanduicheira, fazendo com que ela não explodisse.

Enquanto isso, no UOVSQASVE, só de saber que a sanduicheira iria explodir, a “realidade” não apenas sumiu com os drogados, mas criou um garoto peruano que te ajuda com a limpeza da casa nos dias ímpares.

Resumindo, a realidade se adapta de acordo com o conhecimento que você possui das conseqüências dos seus atos.

E é assim que a história de ZE:VLR vai acontecendo - você vai jogando a história até chegar em um momento de decisão e vive as conseqüências da sua escolha até o fim (normalmente envolve a morte de alguém). Ao término desse cenário, o jogo te mostra o esquema das escolhas já jogados da história, e você volta para o último momento de decisão, para você poder fazer uma escolha diferente. Só que certas coisas estarão diferentes no universo dessa escolha diferente, coisas até que não tem a ver com a sua decisão - simplesmente porque você já conhece as conseqüências da sua decisão inicial.

Se você não entendeu até agora como isso funciona, vai jogar o jogo que é mais fácil.

Enfim, o que me impressionou nessa coisa toda foi a sensação da “realidade” saber o que eu sei e tentar se antecipar a mim, criando obstáculos e fatores novos para minha experiência.

Ou seja, é como se o jogo soubesse o que eu sei sobre ele, e mudasse de acordo com isso para eu ter uma experiência nova sempre.

Ok, antes de vocês acharem que ZE:VLR tem o sistema de AI mais hiperdesenvolvido da história, saibam que eu estou multiplicando o que acontece de verdade no jogo por um bilhão, além do que a história e a esquemática de escolhas dele é um “ambiente” altamente controlado, sem muuuuuuuita liberdade (você tem sempre duas ou três escolhas fixas, você não pode, por exemplo, escolher socar todo mundo na cara enquanto cantarola “Orinoco Flow” se essa não for uma opção disponibilizada pelo jogo), mas que tem umas horas que você fica “Caralho! Como assim, ela fez isso? Quando eu escolhi X, ela não fez isso! É só porque eu escolhi Y desta vez? Uádafãqui!”

Se bem que essa devia ser uma opção em qualquer jogo.

E, assim, chegamos no ponto que eu queria chegar: um jogo onde a história se adapta de acordo com o que você sabe dela.

Uma história de mistério que o assassino muda de acordo com as pistas que você encontra, ou ainda se é a segunda vez que você está jogando ele. Uma história de aventura onde o traidor (sempre tem um) muda de acordo com o caminho que você faz. Um líder de ginásio que muda dependendo do seu Pokémon inicial.

Já existem jogos assim, brincando com isso, mas o que eu realmente quero é um jogo que eu me sinta manipulado pela história, onde ele chega na minha cara e, com um sorrizinho cínico, chuta minhas expectativas no saco. E foi isso que ZE:VLR conseguiu.

Acho importante ressaltar que só quero isso no aspecto da história, ou, no máximo, em posicionamento de inimigos e itens. Que um Mario que cada vez que você morre surgem blocos invisíveis aleatórios mudando a fase por completo não é um game, mas um exercício masoquista.

Fechando a idéia toda: mais que quantidade de escolhas, acho que um aspecto de narrativa em games que devia ser trabalhado é a idéia de conseqüências condizentes E INESPERADAS, que se adaptam de acordo com o jogador. Sim, eu sei e já falei que é impossível prever e programar todas as variáveis possíveis das decisões dos jogadores, mas se limitar a quantidade de escolhas e focar em dar conseqüências mais impressionantes/surpreendentes/coerentes, acho que a experiência do jogo ganha mais que com excesso de liberdade de escolha.

É só não cair numa armadilha Shyamalanesca - mais importante que “surpresinha no final” é “história boa”.