terça-feira, 7 de abril de 2015

Engenharia, design e cabos de força

Olá. Este vai ser um post bem “first-world problem”, mas eu tenho que descarregar o meu ódio no coração, Ikki.

Esta história começa ainda ano passado, em novembro de 2014, quando meu Hard Drive externo de backup morreu. Resolvi, então, arranjar dois HDs de backup substitutos: um para o Time Machine (o software de backup que vem com o OSX), como o antigo, e um para eu clonar com o Carbon Copy Cloner. Caso queiram saber o porquê de arranjar esses dois, o motivo é que eles suprem necessidades diferentes, porém complementares: o do Time Machine é um tipo de versionador, que mantém todas as versões dos meus arquivos salva para que, caso necessário, eu ache versões antigas de arquivos meus; já o clone é para ser um HD de boot para eu conseguir ligar o meu computador caso meu HD principal morra e assim eu conseguir trabalhar no computador (hahaha, trabalhar, claro) até conseguir substituir o HD principal. O ideal seria que eu ainda tivesse uma solução de backup online, que supre a emergência chamada “incêndio”, mas tô com preguiça no momento, sem contar o custo.

Enfim, comprei os HDs num dos xing-lings da Paulista (não tenho mais saco de passear pela Santa Ifigênia e nunca fui muito fã do Mercado Livre, antes que vocês me julguem por pagar um pouco mais caro por hardware) (agora que acabei de escrever esta expressão, “xing-ling”, que percebi como ela é preconceituosa. Aceito sugestões de substitutas, mas a melhor que me ocorre por enquanto é “stand center”, em homenagem ao falecido) e, ao voltar para casa, tive que encarar um dos meus grandes traumas: cabos e mais cabos e mais cabos. E mais cabos. Cabos.

Não sei dizer exatamente quando, mas a partir de um certo ponto da minha vida resolvi manter os cabos do computador e etc minimamente organizados, prendendo sobras com braçadeiras plásticas e tagueando tudo com fita crepe ou similar. Não conseguia deixar no nível que algumas pessoas mais obsessivas, mas ficava contente com os meus resultados.

Só que eu sempre tive um grande arqui-inimigo nessa coisa toda de organizar os cabos: os adaptadores de corrente alternada, ou como eu sempre chamei, os “power bricks”.

Se ao menos eles perdessem seus poderes de maneira estúpida, ia ser ótimo.

Mais especificamente, os power bricks tipo wall wart (daqui em diante chamados de PBWW).

Seguinte: esses PBWW são uma grande merda. Uma merda gigantesca. Eles são um ótimo exemplo daquilo que eu chamo de Produtos Projetados Para Ninguém™, onde o pessoal que cuidou de desenhar isso não levou em conta como as pessoas usam o produto. Antigamente chamava coisas assim de Produto Projetado Por Engenheiros™, e antes disso chamava de Produto Projetados Por Desãããinnn-ers™, mas hoje em dia eu sei que muita coisa tosca por aí não é culpa nem do engenheiro nem do designer, provavelmente é culpa do pessoal de vendas, do chefe ou, na gigantesca maioria dos casos, do cliente.

Enfim, para melhor justificar porque eu acho os PBWW uma grande merda, vou falar um pouco do meu escritoriozinho aqui, onde crio estas peças de texto que vocês encontram neste blog.

Comecemos listando o que tenho aqui que precisa de uma tomada: um iMac, um modem, um roteador wi-fi, uma multifuncional, um hub USB e, desde novembro passado, dois HDs de backup. Total: sete.

Alguém aqui tem sete tomadas enfileiradas em casa, uma do lado da outra?

Não. Ninguém tem. É óbvio que ninguém tem.

Tudo bem, também é preciso ressaltar que nem todo mundo tem sete aparelhos para plugar na tomada, imagino que a maior parte das pessoas fique na casa dos três (PC, modem e impressora), mas ainda assim é difícil conseguir uma tomada exclusiva para cada aparelho.

Mas é preciso conectar tudo na tomada.

Solução? Benjamins. Extensões. Estabilizadores. Filtros de linha. Gambiarras. Aquela maravilha.

No meu caso, a solução foi um no-break (aliás, sabiam que no-break é o nome que brasileiro deu para essa coisa, e que o nome em inglês é completamente diferente - Uninterruptible Power Supply, ou UPS?) com alguns benjamins (meu no-break só tem quatro entradas e tenho sete aparelhos, caso tenham esquecido). Por muito tempo foi um estabilizador, mas um dia perdi trabalho por causa de uma queda de energia e aprendi a lição e arranjei um no-break.

Só que aí aparece meu grande arqui-inimigo, meu nêmesis, minha pedra no sapato, minha fonte de fúria incontrolável: os PBWW.

A parte de trás do meu no-break…

…onde tenho que encaixar estes quatro PBWW do apocalipse, além de outros plugues minimamente inteligentes, mas…

…acontece isto.

Ahem.

Essa merda egocêntrica de PBWW é tão metida a estrelinha brilhante que brilha lá no céu que ocupa de duas a três tomadas da merda do no-break! Puta que pariu! Tá se achando a porra da última bolacha do pacote, sua bosta? Tá se achando a foda? Sinistra? Avassaladora? No escuro é um perigo? Caralho! Você é só a porra do plugue da merda do hub usb, porque cacetaralho você tem que ocupar toda a existência com sua mesquinharia galopante? Caralho! Porra! Cu! Cacete! Merda! Cocô! Xixi! Toba! Aaaaaaaaaaah!

[Respira fundo]

Ah…

Ok.

De volta à historinha.

Fiz do jeito que deu a conexão da coisa toda, criando uma lambança horrorosa de benjamins e extensões que parecia que ia explodir a qualquer momento quando alguma coisa soltasse uma fagulha elétrica indesejada, mas enfim, foda-se, tava tudo plugado e funcionando.

arranjamos gatos de estimação.

E eles ADORAM a parte de trás do computador. É um tipo de Disney para os gatos, eles adoram passear sobre todos os cabos, principalmente aqueles que estão super-não-bem presos no benjamim que está plugado na extensão que conecta na tomada mais exposta do no-break.

Ou seja, fiquei com um puta cagaço dos gatos causarem uma explosão no no-break e tacarem fogo em tudo, inclusive neles mesmos.

O que me trouxe de volta à minha eterna briga com os PBWW. Esses malditos. Os PBWW, não os gatos. Vocês entenderam.

A origem do problema com os PBWW é que temos uma falta de conversa entre o pessoal dos produtos eletrônicos (que precisam de adaptadores de corrente alternada) e o pessoal das soluções elétricas (no-breaks, extensões, etc). E este problema de comunicação nasce do fato dos dois grupos terem o mesmo briefing:

“Faça o produto mais slim possível.”

Os designers/engenheiros de produtos eletrônicos estão sempre tentando diminuir o tamanho de suas criações. Só que, ao mesmo tempo, essas maravilhas tecnológicas continuam precisando de energia elétrica do jeito certo, o que gera a necessidade de um adaptador de corrente alternada, senão o troço não vai. E essa porra de adaptador é enormemente gigantesca. Solução: esconder o adaptador no cabo, já que a foto do produto que vai na caixa e nas campanhas publicitárias nunca mostra o cabo do maldito.

Já os designers/engenheiros de soluções elétricas querem entrouxar (essa palavra existe de verdade! Eu sempre usei ela me achando o Guimarães Rosa, como se tivesse inventado ela. Grande lição de humildade para mim, vivendo e aprendendo) a maior quantidade de tomadas nos seus produtos, mas sem deixar o aparelho do tamanho de um frigobar. Resultado: um monte de tomada, uma do lado da outra, apertadinhas como sardinhas numa lata.

Daí, quando o consumidor quer plugar seus produtos eletrônicos na sua solução elétrica (nota mental: usar essa expressão como eufemismo para sexo em um post futuro), ele não consegue aproveitar todas as tomadas extras porque algum imbecil concluiu que o melhor lugar para esconder o adaptador era na porra do plugue.

E assim chegamos na parte que mais me irrita nesta história toda, e que vocês provavelmente estão pensando: já existe uma solução para este problema.

É só pôr a porra do adaptador no meio do cabo (ou próximo ao final do cabo), deixando o plugue com um tamanho aceitável. Óbvio.

Ó-BÊ-VÊ-Ô!

Aqui um exemplo inteligente de posicionamento de power brick, feito pela HP (dando crédito para quem merece).

Mas nãããããããooo, temos que ser especiais e fazer o plugue gigante para nosso produto não-tão-fundamental-assim ficar pequeno (e nem sempre bonito, tem muito produto eletrônico que é minúsculo e horroroso) e ocupar três tomadas da solução elétrica do consumidor.

Adivinha só: vocês não são especiais. São só uns imbecis que não pararam para ver como o consumidor usa os seus produtos. Provavelmente nem pensaram no cabo de força, só mandaram a fábrica chinesa fazer a opção mais barata e ligaram o botão do foda-se. Seus merdas.

E não é a única solução, já que também tem a “meu produto é grande sim, e daí”, que é bater o pau na mesa e aumentar o tamanho do produto, colocando o adaptador dentro dele. E, se as vendas do PS4 (e mesmo do PS3, em certo grau) forem indicativos, se seu produto é bom (e é a única opção para quem quer jogar Tales of), as pessoas compram seu produto gigante e arranjam espaço para ele, além da vantagem de não gastarem dezevinte tomadas com ele.

Porém, a verdade é que a estupidez do cabo de força nunca vai ser efetivamente um fator decisivo na hora da compra. Não vejo a NET ou a Vivo fazendo uma propaganda com a frase “nosso modem não ocupa duas tomadas!” ou mesmo alguém num stand center ou na Santa Ifigênia pedindo pro vendedor abrir as embalagens e comparar os cabos de força. No fim, é só um problema que temos que conviver com, por mais que seja um “first-world problem” (esta expressão só pode ser usada em inglês, até para reforçar seu significado). Nem eu vou realmente desconsiderar um produto com base nisso, tanto que comprei direto os HDs que pareciam ser os mais confiáveis (da Seagate com case da Samsung), e teria comprado eles mesmo se o vendedor tivesse me mostrado um concorrente com um plugue inteligente.

Mas que irrita o fato de existir uma solução e os fabricantes de produtos eletrônicos cagarem e andarem pra isso, irrita.

Antes de terminar o post, queria mostrar a solução que eu encontrei na Kalunga e que resolveu os meus problemas, este “polvo” de tomadas:

Não achei vendendo online (achei num lugar, mas não tinha foto e não queria indicar sem ter 100% de certeza que era o certo), mas aqui tem o site do fabricante.

Basicamente, alguém percebeu este problema, provavelmente OBSERVANDO SEUS CONSUMIDORES, QUEM DIRIA, e criou a solução.

Lindo. Perfeito. E recomendado por este blog.

Sr. Forceline, pode pôr este selo na embalagem do seu produto!


quinta-feira, 26 de março de 2015

Os três dias da marmota de Termina

Olá. Este era pra ser o segundo post deste enésimo reboot deste blog, mas o falecimento de Sir Terry Pratchett ganhou prioridade. De qualquer maneira, aqui está um post novo. Vamos ver onde vai dar.

Este post vai ser muito, MUITO específico, para uma parcela bem pequena de pessoas.

Pessoas que já jogaram The Legend of Zelda: Majora’s Mask.

Antes de continuar, um pequeno preâmbulo: não vou analisar profundamente a história ou babar efusivamente sobre o gameplay, como muita gente já fez por aí de maneiras muito melhores do que eu conseguiria. Também não pretendo elaborar uma preleção sobre o ranking de Majora’s no panteão de Zelda (terceiro melhor, depois de Wind Waker e Ocarina).

Meu objetivo é desenvolver uma idéia que eu tive de um desafio para o jogo e que eu propus para mim mesmo, tentei e consegui realizar cerca de 86% no remake pro 3DS.

Comecemos do começo, explicando desnecessariamente a premissa do jogo, uma vez que quem chegou até este ponto do texto provavelmente já jogou Majora’s: Link criança, depois dos acontecimentos de Ocarina of Time e dentro da timeline do Link criança, resolveu abandonar Hyrule para encontrar sua amiga Navi, que desapareceu. Acabou trombando com um skull kid usando uma misteriosa máscara de nome desconhecido e duas fadas, que roubaram a outra amiga que Link criança ainda tinha, a Epona (a égua dele, para quem desconhece) (em assunto não relacionado, roubar bicho de estimação devia ser crime hediondo com a punição de trezentas chicotadas nos mamilos duas vezes por semana pelo resto da vida) e a Ocarina of Time (tentei escrever em português, Ocarina do Tempo, mas parece tão errado, não sei explicar) (fico pensando se fãs de Final Fantasy se sentem assim com uma Pluma da Camada Inferior da Plumagem da Fênix). Para piorar, o skull kid transforma o Link criança em um deku scrub porque ele é cuzão assim, e foge em seguida, deixando uma das fadas, a Navi 2 Ciela Issun Tsundere Insuportável Tatl, para trás, já que o Link criança precisa de um tutorial ambulante, algum elemento visual para o Z-targeting funcionar e alguém para falar por ele. Logo depois Link criança transformado em deku scrub encontra o Happy Mask Salesman, e ele explica (SPOILER!!!) que a máscara do skull kid é a Majora’s Mask (FIM DO SPOILER!!!), uma máscara muito do mal e que se o Link criança transformado em deku scrub conseguir recuperar a Majora’s Mask, a Ocarina of Time e a Twilight Princess ele consegue ajudar o Link criança transformado em deku scrub a voltar a ser só o Link criança. Ah, e ele só dá três dias para o Link criança resolver tudo, que ele é um homem muito ocupado e tem um compromisso inadiável. Daí o Link criança transformado em deku scrub finalmente chega à Clock Town, no mundo de Termina, e a aventura começa pra valer.

Uma das primeiras coisas que descobrimos é que a lua está caindo e vai destruir o mundo, e um rápido cálculo de ∆t=∆d/Vm entendemos que a lua vai cair em três dias. Que coincidência. Outra coisa que aprendemos é que em três dias acontece o Carnival of Time (três dias de novo, quem diria!), e é quando a Clock Tower se abre e conseguimos chegar onde o skull kid está escondido. Enfim, depois desses três dias, se você faz tudo direito, chegamos com o Link criança transformado em deku scrub na torre (se você é bom mesmo, chega com um heart container a mais) e recuperamos a Ocarina of Time e tocamos a Song of Time (nossa, interessante como o tema de tempo é recorrente, imagino se é proposital), voltamos para a manhã do primeiro dia, quando chegamos pela primeira vez em Termina, e assim finalmente somos apresentados à mecânica de viagem no tempo e o ciclo de três dias, que é como o jogo funciona - resolva o que dá em três dias, toque a música, volte para o começo, reinicie o processo. Algumas coisas se mantém com você, como os ítens mais importantes (hookshot, arco, saco de bombas, etc) e as máscaras, mas todo o resto é resetado (rupees, flechas, etc).

Sim, é “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day) em forma de videogame. E é muito bom pra caralho. Se você nunca jogou e chegou até aqui no texto, vai jogar. Se você já jogou, vai jogar de novo. Até recomendo a versão do 3DS, é relativamente melhor (mais fácil em alguns pontos, mais dinâmica em outros, mas não sem algumas irritações novas). Aliás, aproveita e vai ver o filme de novo, que é muito bom também.

Enfim, vamos ao que interessa: o desafio que me propus, diretamente inspirado em “Feitiço do Tempo”. Falando nisso, spoilers do filme.

O que libertou Phil (Bill Murray) do feitiço do tempo (tenho que dar o braço a torcer que o título em português funciona, por mais excessivamente explicativo que ele seja) foi, na minha percepção, ele ter largado a mão de ser um tosco e começado a se importar com os outros, culminando no dia do mega super ultra bom samaritano alpha plus mais mais, onde ele ajudou a maior quantidade possível de pessoas e se sentiu bem fazendo isso.

Meu desafio seria justamente esse: ajudar a maior quantidade possível de moradores de Termina num único ciclo de três dias e salvando o mundo em seguida.

Antes que alguém pergunte, não, você (o jogador) não ganha nada tentando fazer isso. Não muda o final, não há um sistema de achievements/trophies e seu pinto não aumenta de tamanho, nem o virtual nem o real.  E você só ajuda um monte de polígonos, não faz a menor diferença na vida de pessoas reais.

Mas ainda assim eu quis tentar fazer isso. Desde o original no N64 eu ficava meio incomodado que você podia fazer o último ciclo só cortando grama e dançando com o espantalho, sem ajudar ninguém, e ir salvar o mundo na noite do terceiro dia e tudo fica bem, porque você já resolveu os problemas dos diversos moradores de Termina em outros ciclos. Eu achava que devia fazer alguma diferença o que fazemos no ciclo final, quando finalmente vamos enfrentar a Majora’s Mask, que ele devia ter conseqüências permanentes para o mundo.

Enfim, depois que eu derrotei a Majora’s pela primeira vez (no remake do 3DS), decidi tentar fazer esse ciclo de três dias do mega super ultra bom samaritano alpha plus mais mais, ou ciclo da marmota, como resolvi chamar. E agora vou explicar tudo o que fiz e o que eu devia ter feito melhor, e se você quiser tentar também, aproveite para aprender com minha experiência.

OBS.: Eu vou agora entrar em detalhes do jogo, analisando diversos fatores dele e quem nunca jogou provavelmente vai ficar bem perdidão.

MUITO BEM. VAMOS LÁ.

Hora de abrir o Bomber’s Notebook (o do 3DS, que é bem melhor). Vou usar ele como base, uma vez que ele lista (quase) todo mundo que pode ser ajudado por você (e tudo que você ganha por ajudar eles). Coloquei ele aí do lado para dar uma idéia do que temos pela frente.

Primeiro passo: ver quem não precisa ser salvo.

Pode parecer que estou entrando naquela coisa horrorosa que algumas pessoas fazem de medir quais desgraças são maiores e quais merecem prioridade em relação às outras. NÃO É ISSO QUE ESTOU FAZENDO. AINDA. Vou fazer isso daqui a pouco.

Estou falando das pessoas que estão no caderno por me darem coisas mas que a nossa interação não faz nenhuma diferença para elas em termos de felicidade e realização pessoal.

Traduzindo: mini-games.

Que diferença faz para o dono do Shooting Gallery do pântano o Link criança ganhar o mini-game e/ou bater o recorde? Que diferença faz para o Keaton o Link criança acertar todas as perguntas? Nenhuma. Eles são mais felizes com isso? Provavelmente não. Nenhum deles comenta algo como “esperei minha vida toda por esse momento, quando um herói-menino vestido de verde viesse e batesse o recorde do meu estabelecimento.” Em alguns casos, como o Honey e a Darling e os irmãos castores, o Link criança ganhar o mini-game deixa-os mal, relativamente infelizes.

Tendo dito isto, têm três mini-games que acho que fazem diferença para o bem ganhá-los: a corrida dos Gorons, o desafio das Poe Sisters e a luta com os sub-chefes no Secret Shrine (só fui saber que esse lugar se chamava assim na versão 3DS, acho que nem tinha nome na do N64). Nos dois últimos casos, ao ganhar o mini-game o ex-colecionador-de-poes fala de como salvamos as almas das Poe Sisters, dos sub-chefes e dele mesmo, então já vale alguma coisa. Com a corrida dos Gorons é mais complexo o argumento, já que por um lado fazemos o goronzinho pentelho feliz, mas por outro tiramos a vitória dos demais participantes da corrida. Eu acho, porém, que o custo-benefício de felicidade do goronzinho decorrente da gente ganhar a corrida é maior que a decepção dos demais competidores, pois eles são adultos que estão prontos para lidar com a frustração da derrota e conseguem tirar satisfação pessoal só por saber que deram o seu melhor na competição. Sim, estou mimando ainda mais uma criança mimada, que vai crescer acreditando que tudo dá certo no final e tudo que ela apoiar vai vencer, mas a curto prazo, ou seja, nesses três dias que eu tenho, vale a pena.

Podemos riscar também mais alguns eventos que não são exatamente mini-games, mas que não fazem tanta diferença assim: comprar a All-Night Mask, comprar o piece of heart do vendedor scrub perto do observatório, mostrar a foto rara pro cara do centro turístico do pântano e depositar 5000 rupees no banco.

Só que ainda tem uma pessoa que eu resolvi tirar da agenda por achar que não faz muita diferença no esquema geral da felicidade dela: a vovó dos pesadelos infernais de minha infância.

Por mais que possamos argumentar que nada deixa uma avó mais feliz que um neto sentar e ouvir o que ela tem a dizer, no caso dessa avó eu tenho a nítida impressão que tanto fez como tanto faz. Sem contar que ajudar ela queima 2 horas das nossas 72, então melhor deixar pra lá (sem contar que o evento da Anju e do Kafei queima umas 6 horas, então melhor economizar onde dá).

Segundo passo: Riscar quem não dá mais pra fazer o evento.

De acordo com o caderno, são dois: o teste para usar powder kegs e o evento de forjar a gilded sword. O primeiro você tem que fazer pra terminar o jogo, então já foi feito e pronto. Sem contar que não faz a menor diferença para o Big Goron se você faz o teste ou não, então dane-se. Já o segundo é fazível neste ciclo da marmota se você não upgradeou a espada ainda, mas no meu caso já era. Se você for tentar do zero, acho que dá pra fazer, mas é preciso manejar bem o tempo que você fica sem espada com os eventos que envolvem lutar. Outra questão é se você realmente se importa com a felicidade do dono da forja, que é um sacana e a felicidade dele vem dele ficar com as sobras do ouro que você dá pra ele.

Mas tem uma pessoa que eu tenho que comentar e que não está no caderno: Tingle, o grande sex-symbol da série The Legend of Zelda.

Seguinte: ele fica feliz só de conversar com a gente. Mas ele só fica plenamente feliz se ele consegue vender um mapa pra gente e fazer a dancinha dele, com as palavras mágicas e etc. Todavia, ele não vende mapas repetidos pra gente. Ou seja, assim como no caso da gilded sword, a não ser que você se planeje antes e deixe de comprar um dos mapas para comprar agora, no ciclo da marmota, não dá pra deixar ele completamente realizado enquanto ser hyliano. E, como era de se esperar, eu já tinha todos os mapas, deixando ele não-tão-feliz.

Mil desculpas, Tingle. De coração.

Terceiro passo: Desencanar de quem demora tempo demais pra ajudar.

Existem dezessete indivíduos nesta categoria: as quatro Great Fairies dos dungeons e os treze gibdos do Beneath the Well (os gibdos não estão no caderno). A Great Fairy da cidade dá pra salvar sem stress, mas as outras quatro envolvem refazer os dungeons inteiros, e isso demooooooora demais. No caso dos gibdos, a demora é conseguir todos os ítens que eles querem, por mais que essa quest tenha sido simplificada horrores no 3DS (ainda bem). Talvez alguém com mais destreza que eu consiga salvar algumas Great Fairies e alguns gibdos (além de todo o resto), mas eu com certeza não conseguiria. Tanto que nem tentei.

Quarto passo: Ver quais eventos prejudicam alguém, e evitar eles.

A maior parte desses eventos já foi eliminada quando cortei os mini-games, mas sobrou um: roubar a reserva de quarto do Goron chamado Link (que eu acho que é uma referência ao filho do Darunia de OOT). A chave do quarto serve mais para facilitar entrar no Stock Pot Inn, mas dá pra se virar usando a porta da sacada com o Deku Link. E deixar o coitado do Goron dormindo ao relento na frente do hotel é uma certa sacanagem.

Mais um evento que entra neste passo é o de ajudar o Dampé a achar o tesouro escondido do cemitério na noite do último dia, já que o resultado final desse evento pra ele é ele ficar se borrando debaixo da cama em posição fetal. Sem contar que a noite do terceiro dia é virtualmente nula por conta da quest da Anju e do Kafei (as seis horas que perdemos que falei antes). Mas como este evento é listado junto com os outros que envolvem dispensar os stalchildren do cemitério, não vou riscar ele da lista do caderno.

Ainda há um evento que acho digno de citar agora: os peixes do laboratório do oceano. Tenho opiniões conflitantes quanto a este, já que ao completar ele matamos um peixe para o outro ser feliz. Por um lado, podemos argumentar que, ao ignorar este evento e deixar os dois vivos, mantemos o status quo, e que ao fazer um comer o outro, o resultado final é o mesmo, onde a felicidade de um dos peixes é anulada pela desgraça do outro, ou seja, é perda de tempo e tempo é algo escasso em Termina. Por outro lado, podemos dizer que como precisamos sacrificar pelo menos quatro peixes-de-garrafa para conseguir completar esta side quest, o placar final fica felizes 1 x 5 infelizes, arruinando o propósito do ciclo da marmota.



Pois é, agora que eu escrevi que eu percebi que os dois argumentos não são conflitantes, são complementares. Conclusão: ignorar os peixes.

Quinto passo: Ver conflitos de eventos e decidir quem tem prioridade sobre quem.

Chegamos no momento mais esperado do post: medir a desgraça alheia e decidir quem ajudamos e quem deixamos se ferrar. Talvez essa seja a lição aqui: às vezes, para alguém ser feliz, outro alguém se ferra como conseqüência inesperada. Sim, a vida é uma merda e deus não existe.

Olhando o caderno, concluí que existem três conflitos: ??? (a mão da privada) com a quantidade limitada de papel no mundo, a vovó da loja de bombas com o Kafei e o carteiro com a Madame Aroma (a mãe do Kafei).

Comecemos com ???: ele quer papel. Qualquer papel. Do jeito que ele fala, acho que até lixa ele topa. Só que existem poucos papéis que podemos dar pra ele: a carta da Anju pro Kafei, a carta do Kafei pra mãe dele e as escrituras das flores deku que conseguimos com os vendedores deku. Vamos descartar as duas primeiras, já que sacrificar qualquer uma delas atravanca a side quest da Anju e do Kafei, e essa side quest tem um rendimento alto de felicidade (voltaremos a ela depois). Olhemos então para as escrituras. Para quê elas servem? Conseguir usar certas flores deku. Elas deixam alguém feliz? Sim, os vendedores deku que querem passar o ponto e procurar lugares melhores para abrir seu negócio. Agora, a pergunta mais importante: todas elas deixam a mesma quantidade de pessoas felizes? NÃO! As escrituras são uma side quest de troca: para pegar a próxima, damos a anterior. Nessa, a primeira que conseguimos (a da cidade) tem um potencial de felicidade maior que as demais, pois ela pode deixar quatro pessoas felizes, enquanto a seguinte pode deixar três e assim por diante. Ou seja: a última escritura, a do oceano, só deixa uma pessoa feliz: o vendedor deku de Ikana. E aqui está a pergunta ética que temos que responder: quem merece ser mais feliz, ??? ou o vendedor deku? Não sei dizer, acho que é uma escolha pessoal. No meu caso, escolhi ajudar ???, que eu já passei pela situação de não ter ph disponível em um momento de necessidade e sei como isso é, literalmente, uma merda. Mas eu consigo entender quem acha mais justo ajudar o vendedor deku a realizar o sonho de ter um negócio à beira-mar, com o som das ondas de fundo. E ele te dá 200 rupees, enquanto que ??? só te dá 5, seu interesseiro que não entendeu o que realmente motiva este ciclo da marmota.

Próximo conflito: a vovó da loja de bombas e o Kafei. Essa dá uma dorzinha maior no coração, já que envolve deixar uma velhinha ser assaltada. Sim, eu escolhi não salvar ela para priorizar o Kafei. Novamente, é o argumento da side quest da Anju e do Kafei deixar uma quantidade maior de pessoas felizes. Até vou contar, para ilustrar melhor a questão e para justificar o fato de eu deixar uma idosa ser roubada: se salvamos ela, deixamos ela e o filho, o dono da Bomb Shop, felizes. Total: 2 pessoas. Se não salvamos ela, o Kafei consegue ver o Sakon na Curiosity Shop, o que libera duas coisas: a carta para sua mãe e o mini dungeon do esconderijo do Sakon, o que nos permite levar a felicidade para a Madame Aroma, o carteiro, o Kafei e a Anju. Total: 4 pessoas.

Pois é.

A felicidade de muitos deve sobrepôr a felicidade de poucos. Viva a democracia.

Vamos logo para o último conflito, antes deste post entrar numa discussão séria sobre moralidade: o carteiro e a Madame Aroma. Aqui não tem muita discussão: o melhor é dar a carta para o carteiro, já que ele vai entregá-la para a Madame Aroma. Ou seja, ela vai receber notícias do filho desaparecido independentemente da opção que escolhermos, então vamos ajudar uma pessoa a mais no processo. Sim, o prêmio que ela dá é melhor que o que ele dá na repetição do evento (Chateau Romani versus NADA), mas não estamos nessa por recompensa, estamos nessa pra ajudar a maior quantidade de pessoas fictícias poligonais.

Sexto passo: desistir dos eventos infinitos da felicidade inalcançável.

Que eventos são esses? O primeiro é o dos stalchildren dentro da Spider House do oceano. Por que desistir dele? Porque não dá pra resolver ele efetivamente, tudo por causa de como funciona o respawn de inimigos no jogo.

Explicando melhor: eu acho válido salvar os stalchildren, uma vez que é só aparecer com o Captain’s Hat e dispensar eles de suas funções. No caso dos stalchildren no cemitério, é fazível pois eles abrem a cova do dia e vão embora. Mas o mesmo não ocorre com os da Spider House, pois eles morrem, e como o jogo dá respawn de inimigos menores quando você sai de uma sala e reentra nela, eles voltam para sua função eterna de investigar a casa. É até compreensível eles voltarem, pois se você esquece a dica de algum deles, é só voltar para a sala onde ele está e conversar de novo. Só que nessa fica impossível levá-los à felicidade plena, e não há nada que possamos fazer, a não ser nos conformar que suas almas continuarão presas eternamente numa missão que não pode ser cumprida, dentro de um lugar amaldiçoado. É tipo tentar fazer uma impressora funcionar direito.

O segundo evento infinito da felicidade inalcançável é o do zora que está testando a luz do palco em Zora’s Cape. É um caso parecido: você acende as tochas pro cara, sai da área, volta, as tochas estão apagadas de novo. Não dá pra fazer o cara feliz, que o equipamento todo que é uma merda e nunca vai funcionar. É tipo tentar fazer uma impressora funcionar direito.

Sétimo passo: responder à seguinte pergunta: é possível ser feliz em Termina sem o testemunho do Link criança?

Melhor explicar isto com um exemplo: na side quest da Anju e Kafei (de novo, mas ela é a side quest mais marcante do jogo), nós nos metemos em praticamente todas as etapas do processo: o Link criança que leva as cartas pro correio, o Link criança que leva o Pendant of Memories pra Anju e sem o Link criança o Kafei não consegue recuperar  a máscara do Sol. Mas tem um momento que a nossa presença não faz a menor diferença: quando os dois finalmente se reencontram na noite do terceiro dia, afinal de contas o Kafei sai correndo do esconderijo do Sakon sozinho e chega sozinho no Stock Pot Inn. Traduzindo: o Kafei consegue reencontrar a Anju e fazer a troca de máscaras independentemente de estarmos lá ou não.

Logo, podemos economizar um tempo (e como eu já disse antes, tempo é escasso em Termina) ignorando essa última etapa e fazendo algo mais produtivo.

E esse não é o único evento que entra nessa categoria, temos também o evento da Pamela com o pai dela, já que derrotar o Twinmold liberta o pai da maldição dos gibdos invariavelmente, sem precisar da gente ir tocar a Song of Healing para ele, o evento do Sharp, pelo mesmo motivo, pois ele ascende sem precisar da gente tocar a Song of Storms (estes dois eventos não estão listados no caderno, só pra avisar), o mini-game das Poe Sisters que citei antes, uma vez que elas se libertaram junto com as demais almas de Ikana e o evento de tocar a música do Japas e do Mikau para o Evan, já que ele vai acabar compondo exatamente essa música no final das contas.

Ou seja, respondendo à pergunta que fiz: sim, é possível ser feliz em Termina sem o testemunho do Link criança. Por isso, podemos ignorar essas side quests, ou pelo menos as partes que independem de nós para poupar mais tempo, certo?

Então.

Não sei dizer. Eu prefiro realizar todos esses eventos, mesmo que eles não ajudem o grande placar de felicidade geral do ciclo da marmota.

E eu não tenho nenhuma justificativa boa para isso. Eu quis fazer, achava importante fazer e fiz (menos a do Evan, mas explico o porquê depois). O melhor argumento que me ocorre sobre fazer esses eventos tem a ver com o funcionamento de um videogame e de como, teoricamente, um evento só acontece de verdade no mundo de um game se você, o jogador, presenciar ele, e mesmo assim não acho ele bom, pois a premissa deste jogo é justamente que os personagens estão vivendo a vida deles independente do que você estiver fazendo.

Conclusão: precisar, precisar, não precisa, mas eu quis fazer. Se você for algum dia tentar fazer o ciclo da marmota e quiser ignorar esses eventos para, por exemplo, tentar salvar os gibdos, vá em frente, seu placar geral de felicidade vai ser maior que o meu. Mas a minha versão incluiu fazer esses eventos.

Assim finalmente chegamos à minha lista final de eventos do ciclo de marmota.


Mais ainda não acabou, temos ainda o oitavo passo: acertar a ordem dos acontecimentos.

Foi aqui onde eu mais fiz merdinha, pois eu meio que fui fazendo as coisas sem pensar, e perdi alguns eventos. Basicamente, a primeira coisa que eu fiz foi derrotar os chefões para salvar as quatro áreas logo duma vez. Só que alguns eventos PRECISAM da área zoada para acontecerem, e eu perdi eles. Também perdi o evento novo do 3DS, o da sétima garrafa, pois fiz outro evento antes da hora.

Por isso, vou listar aqui os eventos que dependem de outro evento anterior, para assim montarmos a agenda final. Para começar, vou listar aqueles que estão presentes no Bomber’s Notebook:

  • Protect Romani’s Cows! antes de Protect the Milk! - Meio óbvio este, mas como vou listar todos, aqui está: para proteger a carruagem com leite da Cremia (a carruagem que é da Cremia, não o leite, seus pervertidos) (quer dizer, o leite é dela no sentido que ela é a dona do rancho onde o leite foi ordenhado das vacas e engarrafado para venda, mas nesta frase o “dela” é referente à carruagem) (a língua portuguesa não é linda?), temos que defender o rancho da invasão alienígena na madrugada do primeiro dia.

  • A Goron’s Grief antes de descongelar a montanha - Este foi um evento que eu perdi, pois fui derrotar o Goht correndo e esqueci do pobre coitado do goron na cachoeira. É possível argumentar que, ao descongelar a montanha, ele é salvo automaticamente, mas levando em conta que ele está numa cachoeira congelada, a montanha descongela em questão de segundos e gorons não sabem nadar, o destino mais provável desse desafortunado é morrer afogado. Portanto, tirar ele de lá antes de descongelar a montanha.

  • A Fish Wish antes de despoluir o oceano - Mais um que eu perdi. Como precisamos conversar com o pescador na casa dele para salvar o cavalo marinho, precisamos fazer isso antes de matar o Gyorg.

  • Playing Papparazzi antes de despoluir o oceano - Outro que esqueci. Depois de salvar o oceano, todos os zoras ficam assistindo o show dos Indigo-Go’s, e não dá mais pra dar fotos pro zora stalker. É possível argumentar que alimentar a obsessão do zora stalker dando fotos do alvo dele não é algo muito legal, ou mesmo que não estamos deixando ele efetivamente mais feliz, apenas afundando ele ainda mais na sua neurose, mas é aí que entra o motivo deste evento não ser considerado um dos eventos infinitos de felicidade inalcançável, pois podemos dar só uma foto, dar um olhar sério para ele e fazer ele entender que aquela é a única foto que ele vai ganhar, e que é melhor ele tomar jeito na vida, e que se ele tentar chegar perto da Lulu a gente vai sentar o cacete na cara dele. Ou seja, ele fica pelo menos um pouco mais feliz, então vale a pena.

  • A Zora Swan Song antes de despoluir o oceano - Este é o evento que citei antes, do Japas e do Evan, e foi mais um que eu não fiz, mas não porque eu tenha esquecido dele, mas sim porque eu achei que ele não trazia felicidade para ninguém, uma vez que, como já disse antes, o Evan vai “compôr” de um jeito ou de outro a música que o Japas e o Mikau criaram. Só que depois fiquei meio arrependido de não ter feito esta side quest pois existe uma pessoa que fica mais feliz com ela: o Japas. Ele é um cara que claramente gosta de música e gosta de tocar com os amigos. Portanto, nada mais altruístico que dar para ele uma última jam session com o amigo. Mas, como já discuti antes, ir tocar a música em seguida para o Evan é opcional.

  • Free the Canyon Ghosts antes de libertar as almas de Ikana - Terceira vez que falo deste mini-game, mas como ele está na minha lista, aqui estou explicando ele de novo: só dá pra libertar as Poe Sisters antes de derrotar o Twinmold.

  • Fraternal Milk antes de Music Moves the Heart - Este é o evento novo, da sétima garrafa, e ele envolve o Gorman do circo ainda estar deprimido, ou seja, se você faz o Music Moves the Heart na primeira noite (como eu fiz), tirando ele da fossa, o evento dele precisar de leite no segundo dia nem começa.

Além desses eventos que estão no Bomber’s Notebook, tem aqueles que eu já falei antes que têm que ser feitos antes de derrotar o Twinmold, do pai da Pamela e do Sharp.

Pronto! Finalmente temos a lista de eventos do ciclo da marmota!


Agora, o que fazemos com isto?

Não sei.

Se você tem como jogar Majora’s Mask, tempo livre e gosta de um desafio sem propósito, você pode tentar fazer o ciclo da marmota. Boa sorte, se for o caso.

Se você já jogou Majora’s Mask antes e leu tudo até aqui, espero que esta leitura tenha sido pelo menos uma “viagem nostálgica”. Quem sabe até te deu vontade de ir atrás do jogo e jogar de novo. Faça isso.

Se você nunca jogou Majora’s Mask e realmente não tinha mais nada para fazer e leu esta muralha de texto até aqui, espero que tenha ficado pelo menos curioso com o jogo, e disposto a dar uma chance para ele.

A questão é: eu adoro esse jogo. Puta que pariu, como esse jogo é bom. E, jogando ele de novo, terminar ele pela quinta vez (três no N64, uma no Wii e uma no 3DS), eu fiquei com muita vontade de escrever sobre ele. Mas, como já falei antes, não queria analisar a história ou o gameplay, que isso já foi feito à exaustão e não me sinto com autoridade o bastante para isso. A única coisa que me restou foi o ciclo da marmota, essa idéia louca que eu sempre, desde a primeira vez que eu terminei o jogo, no longínquo ano 2000 (aliás, na época, eu não tinha visto ainda Feitiço do Tempo, o que quer que este fato signifique), tive em relação a como devia ser o último ciclo de três dias do jogo. E quis compartilhar essa nerdice com o mundo.



O blog é meu, eu faço o que eu quero, parem de me julgar!

Olha que eu destruo o mundo com a minha cabeçorra, hein?

quinta-feira, 12 de março de 2015

Sobre Sir Terry Pratchett

Hoje faleceu meu autor favorito da vida.

Sir Terry Pratchett.




Estou triste. Muito triste. Até comprei um ovo de oitenta reais da Kopenhagen pra me sentir melhor enchendo a cara de chocolate. Não deu muito certo ainda.

Não sei o que escrever sobre isso, sendo bem sincero.

Mas eu tinha que escrever alguma coisa. Às vezes bate um nervoso, um impulso estranho que eu sinto vontade de escrever, mas normalmente eu consigo contê-lo usando minha depressão, meus videogames, a internet e similares. Só que desta vez eu não quis conter o impulso. Quero dizer, quis, usando chocolate e internet, mas a Bruna me deu um empurrãozinho pra eu largar mão e escrever.

Então aqui estou, escrevendo sobre meu autor favorito da vida.

O autor que é meu objetivo enquanto escritor. Sério, meu sonho é algum dia virar “tão bom quanto a sujeira da unha do dedão do pé esquerdo de Sir Terry Pratchett, o que dá mais ou menos 6.328 Paulos Coelhos”.

Até por isso que eu tenho que escrever mais.

Mas não estou com vontade de comentar a vida e obra dele, até porque eu não conhecia ele tão bem assim e ainda não li todos os livros dele. Outros vão escrever mais, melhor e com mais propriedade sobre isso.

Nesse caso, o que posso falar sobre ele?

Acho que só que tem uma coisa que só eu e a Bruna podemos falar sobre: quando conhecemos ele na New York Comic Con.

Era o segundo dia da feira, 12 de outubro de 2012 (obrigado, meta-data da foto que tiramos). Teve uma palestrinha/entrevista com ele na parte da manhã no pior pseudo-auditório do evento, e me lembro claramente de não ter conseguido ouvir 80% do que ele falou.

Esse palquinho estava num dos galpões, onde circulava muita gente, era uma barulheira danada.

Eu sabia da doença, não sabia que nível ela estava, mas ele parecia bem, visto de longe.

Só que o mais importante veio no final da tarde, quando ele foi para o setor de autógrafos.

Chegamos, pelo que eu me lembro, uns quarenta minutos antes de começar a sessão de autógrafos dele, e já tinha uma fila respeitável. Mas valia a pena esperar, já que estamos falando do Terry Pratchett. Sir Terry Pratchett, desculpa.

Essa era a fila à nossa frente…

Da experiência na fila, só me lembro de três coisas: um, que ela estava bem mais lenta que as demais filas de autógrafo, dois, que ela era a maior fila de autógrafo que a gente viu em todo o evento (provavelmente porque era o Sir Terry Pratchett. E ele estava autografando de graça - para quem não sabe, a maior parte dos artistas cobra pelo autógrafo) e três, que demorou tanto que ainda estávamos na fila quando deu a hora do evento fechar - estavam desmontando as coisas no saguão, os outros artistas já tinham ido embora e o lugar já estava meio vazio. Mas, pelo que um dos staffers falou, Sir Terry Pratchett queria receber todo mundo que tinha ficado na fila.

…e esta era a fila pra trás da gente. Não, ela não chegava até aquela escada no fundo, mas era bem grande mesmo assim.

Quando estava chegando nossa vez, percebi o porquê de demorar tanto: ele estava tirando fotos com todo mundo. Muito legal, não? Só que eu também reparei outra coisa: ele não estava autografando nada. Estavam distribuindo um adesivinho com o autógrafo dele, e fiquei meio encucado com isso, até cair a ficha: ele não estava mais conseguindo assinar por causa da doença. Conversei com uma das moças que estava organizando a fila (e que eu fico tentando lembrar se era a filha dele, a Rhianna Pratchett, mas provavelmente não era) e ela confirmou: ele realmente não conseguia mais dar autógrafos, e até por isso que ele queria tirar foto com todo mundo.

O adesivo com o autógrafo dele. Não tive coragem de grudar em nada até agora, e provavelmente não terei mais para grudar em lugar nenhum.

Finalmente chegou a nossa vez, cumprimentamos ele, falamos que tínhamos vindo do Brasil, o que surpreendeu ele um pouco, e comentei que tinha ficado difícil conseguir comprar os livros dele em português porque a editora que publicava os livros dele tinha falido (olhando agora, em retrospecto, parece que eu falei que a editora faliu por ter publicado os livros dele… devia pensar mais antes de falar), e a resposta dele foi ótima:

– They are better in English anyway.

Traduzindo, para quem não entendeu: “Eles [meus livros] são melhores em inglês mesmo.”

A foto ficou ruim, mas estávamos lá, e é isso o que importa.

Desde então, continuei minha coleção do Discworld em inglês, e por mais que eu pene um pouco em alguns momentos, estou conseguindo ler os livros. Não sei dizer se eles são mesmo melhores em inglês, já que eu não li nenhum dos livros dele nas duas línguas pra falar com propriedade, mas posso dizer, com toda certeza, que os livros dele são espetaculares não importa a língua.

Portanto, se você nunca leu nada do Sir Terry Pratchett, vá ler. Agora. Isto é uma ordem.

Se quiser uma sugestão, comece com “A Cor da Magia” ou “Belas Maldições”. Sim, “Belas Maldições” é escrito junto com o Neil Gaiman, mas dá pra sentir como é o humor de Sir Terry Pratchett.

Quanto a mim, eu tenho que escrever mais. Senão como é que eu vou ficar tão bom quanto a sujeira da unha do dedão do pé esquerdo de Sir Terry Pratchett? Quem sabe, se eu me esforçar bastante, meus textos cheguem no nível da cera de ouvido que fica bem no fundo e nunca sai com o cotonete de Sir Terry Pratchett.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pois é, eu sei, nem pergunta

É.

Ahã.

Vou ressuscitar esta merda.

De novo.

Talvez.

Quem sabe.

A terceira vez é a que conta, já dizia o velho feitor Gamgi.

Se bem que não sei qual tentativa é esta, se é mesmo a terceira ou a quarta ou a octogésima sétima.

Mas desta vez eu tenho um bom motivo, além da culpa inexorável que me corrói por dentro por não escrever tanto quanto deveria, uma vez que eu falo para mim mesmo que quero algum dia, sabe-se lá quando, virar um escritor: um conto meu foi selecionado para uma coletânea de contos.

Estou surpreso até agora. Diga-se de passagem, outro motivo que me afastava de escrever aqui era a preguiça galopante que me acometia quando pensava nas montagens que tinha que fazer, tanto que vai ter menos daqui pra frente.

SIM! EU SEI! Também tive essa reação.

Sendo bem sincero, ainda estou com o pressentimento que, a qualquer momento, o pessoal da editora vai me ligar falando que foi um engano ou coisa parecida.

Aliás, melhor explanar a história toda: editora Draco, conhecem? É uma editora extraordinariamente espetacular, que foca em ficção científica e literatura fantástica, é a melhor editora que já editou em toda a história da civilização lusófona, e espero que os esplêndidos editores dela leiam este post antes de ligarem para mim falando que minha seleção foi um engano.

De tempos em tempos, os mui sábios e tremendamente iluminados editores desse baluarte da literatura fantástica brasileira organizam coletâneas de contos temáticas, e oferecem a magnânima oportunidade de participar delas a todos que aspiram se tornar artesãos da palavra e a todos que deveriam ter um pouco mais de noção das próprias pretensões.

Já tinha ouvido falar antes dessas coletâneas que eles organizam (além de uns concursos que vai e volta aparecem por aí, organizados por editoras não-tão-excelsas), mas sempre me convenci que não valia a pena o esforço já que:

1) Não tenho a menor confiança na qualidade do meu trabalho;

2) Quem sou eu para enviar um conto para eles?; e

3) Puta medinho de ser rejeitado.

Mas, ano passado, depois de muitas peripécias e atribulações com os meus anti-depressivos, cheguei num ponto onde consegui apertar o botão do foda-se e falar para mim mesmo: “Escreve alguma porra, seu bosta!” ao mesmo tempo que eles anunciaram uma coletânea com o tema de kaijus (monstros gigantes).

Eu me interessei pelo tema e decidi que ia tentar escrever alguma coisa sobre isso, até porque eu perdi a coletânea temática de dinossauros, então kaijus iam ter que servir.

Enfim, depois de muito bater a cabeça na parede e reescrever o conto inteiro umas seis vezes, cheguei num ponto que achei-o aceitável o bastante para mostrá-lo para alguém. Mas não para os magnificentes intelectos dos egrégios editores da Draco, a exímia casa da criatividade e da imaginação, ainda não. Arranjei 3 beta testers, pessoas que eu sabia que não iam rir na minha cara (talvez nas minhas costas), mas que também não iam falar simplesmente “legalzinho”, elas iam apontar na história o que não funcionava e iriam criticar sem medo.

E devo dizer que elas ajudaram bastante, e lapidei a história até chegar num ponto que a considerava boa o bastante, e o prazo estava acabando, então enviei pra eles e fui viajar e jogar Smash Bros para não ficar me martirizando em posição fetal até a divulgação do resultado.

Só fui ficar me martirizando posição fetal no dia anunciado da divulgação, 20 de dezembro. De 2014 (só pra confirmar, vai que você tá lendo este post em 2329).

Que veio e se foi sem nenhum sinal de que eu havia sido selecionado.

Nem ninguém mais.

Basicamente, o resultado não saiu no dia.

Pessoas mais bem resolvidas provavelmente concluíram que os notáveis editores tiveram dificuldades para conseguir ler e avaliar todos os trabalhos enviados e acabaram perdendo a data de divulgação do resultado, até porque no dia 20 de dezembro já tá todo mundo em modo “peru de natal e champanhe de ano novo” e querendo mais que o trabalho se exploda.

Pessoas como eu concluíram que não foram selecionadas e que os fenomenais editores da Draco entraram em contato somente com Os Escolhidos™.

Não, sério, eu não só cheguei a esta conclusão como me convenci disso, virei a página e voltei a jogar Smash Bros pra continuar a vida.

Daí, dia 23 de janeiro chega um email falando que eu tinha sido selecionado pra coletânea.

Queria poder dizer que foi um momento de inenarrável felicidade e que eu saí pelas ruas dando high-fives, mas a realidade foi que eu fiquei mais espantado e incrédulo que qualquer outra coisa. No dia seguinte a felicidade bateu e eu saí pelas ruas comemorando, mas os únicos high-fives que eu recebi foram de um catador de papelão e de um desses caras de coletinho que ficam perguntando se eu gosto de crianças e eu sempre tenho vontade de dar uma resposta horrível que provavelmente me mandaria pra cadeia.

Enfim, estou contando toda essa história só para finalmente chegar ao motivo que me levou a ressuscitar o blog: os fabulosos editores da Draco pediram para eu escrever uma breve biografia com links para meu blog ou site ou similar para a coletânea, e aí eu percebi que não tinha nada pra mostrar mais do meu trabalho, só este blog que eu não atualizava há mais de um ano.

Solução: fazer um blog novo.

Só que isso iria envolver ter que pensar em todo o design e identidade visual e branding e etc e tal, e
eu ODEIO ter que pensar nessas coisas. Porque vocês acham que aqui é tudo preto e branco? Não, sério, eu tenho o pior gosto pra fontes do mundo, se não tivessem me ensinado a evitar Comic Sans e Papyrus, elas provavelmente seriam as fontes deste blog. Só não é a Marker Felt, conhecida como a “Comic Sans da Apple”, porque não é websafe.

Logo, desisti de fazer um blog novo.

Solução 2: ressuscitar este blog.

Por mais vergonhoso que seja esse ano que eu fiquei sem atualizar, é melhor e mais fácil voltar a escrever aqui do que re-re-re-recomeçar tudo do zero de novo. E é por isso que aqui estou.

Aliás, se você está aqui depois de ter lido o meu conto e, por curiosidade mórbida, resolveu ver mais coisas minhas, obrigado e bem-vindo!

Se você leu meu conto e está aqui para falar que ele é uma bosta e eu devia ter vergonha de ousar escrever, obrigado e bem-vindo!

E dá uma olhada no nome do blog.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Projetando minha vida em "Frozen"

Olá. Neste post, vou falar de “Frozen”. Então, para quem não viu, aqui vai o aviso: spoilers.

Muito bem, comecemos introduzindo o tema deste post: “Frozen” é, para mim, uma história sobre depressão. A Elsa seria a depressiva e a Anna a pessoa que “resgata” ela, dentro do possível.

Ok, claro que não é uma história sobre depressão. Óbvio que não. É uma metáfora sobre você aceitar quem você é e aprender a gostar de si mesmo, entre outros temas. Mas eu assisti o filme numa época mais instável da minha própria depressão a acabei projetando minha própria vida/doença na personagem da Elsa. E depois, toda análise de qualquer coisa é um ser humano projetando a própria vida em tal coisa e achando significado onde não há nenhum, então me deixa em paz. Aliás, tenho certeza que pessoas com problemas psiquiátricos diferentes do meu poderiam fazer um paralelo do próprio problema e a Elsa, assim como consigo, sem muito esforço, fazer paralelos do filme com Jesus (ela anda na água) ou com o 4chan (trolls arruinam a infância de uma menina).

Enfim, esse post vai ser eu explicando essa minha leitura do filme, ligando o que acontece com a Elsa com minha própria experiência com depressão. Além de uns comentários sobre alguns detalhes do filme que eu achei que poderiam ter sido melhor trabalhados, pois por mais que eu tenha gostado do filme (gostei mesmo, acreditem, ele não é um “Man of Steel”), fiquei com a sensação geral de que ele morreu na praia. Talvez por conta dessa minha projeção toda na história, talvez por conta do hype todo nas internets me influenciando, talvez por ele realmente morrer na praia.

Ou seja, este post vai ser quase que nem ir ao lugar mais feliz da Terra COMIGO! Yay!

Muito bem, vamos lá então.

Vamos começar com a maldição da Elsa. Ela não é a depressão. Ela simplesmente é algo que faz parte dela. Não se explica daonde ela veio nem porquê ela está lá, mas eu acredito que a maldição não é a depressão/doença dela.

A depressão está lá junto com a maldição. E, quando a menina sofre um trauma, a depressão dela, digamos, engata.

E o trauma não foi machucar a irmã.

Sim, machucar a irmã daquele jeito foi um trauma, mas não foi, na minha opinião, o que realmente faz a depressão da Elsa explodir.

O trauma verdadeiro foi o modo como os adultos (e trolls) trataram o machucado da irmã.

Sério, vamos olhar a reação das pessoas, começando com o troll ancião (vamos chamá-lo de pseudo-terapeuta-provavelmente-um-pedagogo-tosco-da-escola, ou PTPUPTDE) lá decide que o melhor modo de proteger (começa por aí, PROTEGER) a Anna da Elsa é modificar as memórias dela para ela não se lembrar dos poderes da irmã.

Só eu acho isso o fim da picada?

Imagina você ouvir que uma pessoa que você ama precisa ser protegida de você. Porque você é um perigo para ela. Mesmo que você tenha o potencial de ser perigoso para essa (ou qualquer outra) pessoa, ouvir isso com todas as palavras quando você é criança de um adulto não é legal, para dizer o mínimo.

E qual a solução que o PTPUPTDE apresenta? Fazer essa pessoa que você ama esquecer parte de quem você é. Num paralelo tosco e exagerado, é fazer uma lobotomia numa criança para ela esquecer que sofreu bullying na escola.

Só que os pais, pessoas esclarecidas que são, percebem como isso é um absurdo e ficam do lado da filha mais velha, porque ela é quem ela é e isso que importa.

Claro que não.

Os pais vão e jogam mais merda no ventilador, escondendo a Elsa da Anna e do resto do reino, ensinando a ela durante ANOS que quem ela é é um horror, algo que precisa ser escondido ATÉ DA PRÓPRIA IRMÃ.

Antes de parecer que eu estou falando que isso não devia estar na história, não é isso que eu estou falando. Só estou julgando os acontecimentos, mas os roteiristas podem contar a história que bem entenderem.

Recapitulando: a Elsa machucou a irmã, um “especialista” (ou seja, uma figura de autoridade, uma vez que os próprios pais respeitavam o PTPUPTDE) diagnosticou o problema como sendo ela mesma e os pais foram nessa e esconderam ela do mundo.

Não tem criança que não traumatize com isso.

Essa parte dos pais esconderem ela, inclusive, pode ser um paralelo com diversas outras coisas (não quero dar exemplos para não passar alguma mensagem dúbia ou errada), onde quem você é é uma fonte de vergonha/medo para os próprios pais.

Assim definimos qual foi o trauma que deu o kickstart na depressão da Elsa. Mas, antes de continuarmos com ela, vamos falar um pouco sobre os pais e sobre a Anna.

Sim, por mais que eu tenha pintado os pais delas como uns monstros insensíveis, eu sei que eles só estavam querendo ajudar. Estavam fazendo o melhor que podiam. Assim como é parte de ser pai traumatizar os filhos. Existe até o argumento de que nessa época em que a história se passa, o fato dos pais não terem queimado a menina numa fogueira os tornam os pais do ano.

E, como argumento supremo defendendo os pais, eu não tenho filhos, logo não sei como eu reagiria nessa situação.

Mas que eles jogaram mais merda no ventilador, eles jogaram.

Quanto à Anna, existe uma questão que tenho que comentar antes de continuar: “E porque a Anna não ficou depressiva também?”

Afinal de contas, ser excluída pela irmã por toda a juventude não é legal, assim como ser proibida de sair de casa.

Muito bem, vou tentar responder isso do modo mais claro possível: a Anna é a Anna e a Elsa é a Elsa. A Anna se traumatizou com a irmã? Sim. Mas ela não é a Elsa, ela provavelmente não tem a mesma depressão que a irmã.

Isso é uma coisa que, imagino eu, muita gente deva ter dificuldade de entender. Eu sei que eu tenho, por mais que eu sempre me esforce para tentar ver isso. Mas a verdade é: pessoas diferentes encaram os problemas que a vida apresenta de maneiras diferentes, e algumas pessoas, como a Elsa (de acordo com a minha projeção toda sobre o filme) têm depressão, dificultando ainda mais o modo como elas encaram os traumas da vida.

Estou falando isso por dois motivos: o primeiro, para admirarmos a Anna, que soube se manter otimista em relação à irmã, mesmo sendo excluída por ela, e segundo, para não compararmos a reação das duas perante problemas que a vida apresentou para elas.

Quero dizer, elas parecem diferentes. Sou descendente de japonês, não sou muito bom diferenciando caucasianos.

Muito importante essa segunda parte, pessoas. Cada um tem seus próprios problemas, os encara de maneiras diferentes e têm dificuldades e facilidades em aspectos específicos para si.

Deu pra entender? Espero que sim, que não sei explicar melhor.

Continuando. Vamos para a coroação da Elsa, assim como a introdução do outro tema de “Frozen”: “não tenha pressa de se apaixonar”.

Acho que não tem muita discussão quanto a esse ser um dos verdadeiros temas de “Frozen”, então vou falar rapidamente dele: a Anna era uma jovem sonhadora que, fascinada pelas histórias exageradas de príncipes encantados que a Disney alimentou ela durante toda a vida, não via a hora de conhecer seu príncipe encantado e viver feliz para sempre com ele. Só que ela quebra a cara mais pra frente no filme, descobre que o “amor da vida dela” era um escroto e que havia um cara melhor, o segundo cara que ela conheceu no dia.

Tirando o sarcasmo do parágrafo anterior, eu realmente achei bom a Disney reconhecer num filme de princesa que a vida não é feita de “amores à primeira vista”. Sério, isso é algo importante, e espero que continue melhorando. Até está num caminho bom, tivemos a Merida que ficou solteira e a Vanellope que abdicou do trono para instaurar uma democracia presidencialista (eu sei que isso não tem nada a ver com se apaixonar, só queria falar da Vanellope) (aliás, spoilers de “Brave” e “Wreck-it Ralph”, ops). Só sei que se voltar para a coisa de “amor à primeira vista” vou ficar um tanto decepcionado.

E mesmo esse tema do “amor verdadeiro” da Anna volta para ser trabalhado com o tema que só eu vejo, a depressão da Elsa. Aliás, voltemos a ele.

A coroação foi basicamente o segredo da Elsa vindo à tona e as pessoas ficando com medo dela, como se ela fosse um monstro. O que a faz fugir de tudo.

Vou fazer agora um (outro) paralelo um pouco (muito) forçado em relação a essa seqüência, usando por base uma tendência natural do cérebro humano aplicada à mente depressiva: o viés de confirmação (confirmation bias em inglês, link para a wikipedia em inglês por razões óbvias).

O viés de confirmação possui alguns aspectos diferentes, mas o que me interessa aqui é a tendência de interpretarmos diversos fatos que acontecem de modo a confirmar nossa opinião, ao invés de enxergarmos a possibilidade de estarmos errados. O melhor exemplo que me ocorre agora, infelizmente, tem a ver com política: pessoas de posições políticas diferentes podem ver um mesmo evento e torná-lo algo pró-seu-ponto-de-vista. Como, digamos, um protesto na rua contra aumento de passe, que um conservador pode ver como algo contra o partido que se encontra no poder e um simpatizante do socialismo pode ver como algo contra o sistema capitalista.

Muito bem, o que isso tem a ver com a Elsa? Nada. O que acontece com ela é real. Os maiores medos dela meio que se tornam realidade - nada do que aconteceu foi ela enxergando o que não ocorreu apenas para confirmar o medo mais profundo dela, o de que ela realmente é um monstro. As pessoas realmente ficaram com medo dela.

Mas não consegui deixar de projetar minhas neuras nessa seqüência toda e ver como eu fico que nem ela quando passo por uma crise mais trash e começo a achar que todos os meus medos são reais e as pessoas à minha volta estão confirmando todos eles. Basicamente, meu cérebro começa a enxergar tudo à minha volta como uma prova definitiva e irrefutável de que sim, eu sou um fracasso e nunca deveria ter nascido (numa versão simplificada do que eu penso, é um pouco mais complexo que isso). Dá vontade de fugir e se isolar de tudo.

O que nos leva à próxima parte da história.

A Elsa realizando um dos sonhos de todo depressivo/psicopata/ser humano: fugir, se isolar e finalmente ser o monstro que acredita ser, mandando tudo à merda.

E essa seqüência é, acredito, catártica para qualquer um. Se libertar de quem você passou a vida tentando ser e viver do jeito que você entender. Melhor que isso, se libertar cantando. Sem contar os olhares cartoon smexy #27 e cartoon smexy #48 que ela faz quando canta que o frio nunca a incomodou.

Cuidado para não confundir com o “olhar Dreamworks”.

Não tenho muito o que dizer sobre a “libertação” dela no momento. Vou ter o que dizer quando percebemos, mais pra frente, que ela não se libertou de verdade.

Mas, primeiro, vou comentar sobre uma coisa que me incomodou profundamente na cena anterior à música, que é a da Anna saindo do reino e deixando tudo nas mãos do príncipe Hans.

Sério que ninguém nativo do reino achou problemático deixar as coisas nas mãos dele? Sério mesmo?

Essa é a hora que eu senti falta de um personagem “regente que governou enquanto a Elsa não atingia a maioridade”. Não faz o menor sentido não existir esse personagem. A não ser que você, roteirista da história, precise despistar o espectador das verdadeiras intenções do Hans, fazendo uma cena onde ele aparenta cuidar da população e se preocupando com a Anna, saindo atrás dela, e a existência de tal regente provavelmente estragaria esse plano de enganar a audiência.

Porque se esse personagem existisse, a Anna deixaria ele responsável pelo reino, e não haveria desculpa para o Hans não ir com ela atrás da Elsa. O que atrapalharia ela conhecer o Kristoff, etc, etc, deu pra entender meu argumento.

Enfim, voltemos a quem interessa: a Elsa.

Não sei quanto a vocês, mas o filme devia ter mostrado mais ela no castelo sozinha, paralelamente à jornada da Anna. Nem estou falando isso para encaixar mais ela nessa minha leitura/projeção, mas porque eu senti que ficou esse vácuo estranho onde ela aparentemente ficou sentada olhando pra parede esperando a história voltar a focar nela. Sério, mostrava ela dormindo numa cama de gelo que já era o bastante, com ela acordando quando ouve a porta abrindo com a Anna.

Se bem que eu fiquei pirando numa cena alternativa dela sozinha no castelo.

Ok, vou partir de um pressuposto que consigo ver muita gente discordando, mas que, para mim, é verdade: o ser humano, no final das contas, é um bicho social. Ele não precisa necessariamente socializar com outros humanos, mas acredito piamente que, depois de um tempo, começamos a querer interagir com outros seres vivos.

“Mas a Elsa é diferente”, diz você, pessoa fictícia que sempre destrói meus argumentos, “ela está acostumada a ficar sozinha e a se distrair pensando no quanto ela é horrível e um perigo para todos.”

Verdade. Mas isso, além de alimentar minha leitura de que ela é depressiva, também poderia ser tratado como algo que ela deixou pra trás, pois ela não tem mais com quem se preocupar. Ela mesma canta sobre isso, no verso “foda-se o que eles pensam”.

Só que eventualmente ela ia começar a se sentir sozinha.

O que me traz à cena que eu pensei: a Elsa criando outras criaturas de neve para passar o tempo.

Seria um modo dela voltar à outra época em que ela era livre, antes do troll e os pais proibirem ela de ser quem ela é. O que geraria então uma seqüência sobre esquizofrenia bem legal.

Porque, não sei se vocês lembram, ela consegue CRIAR VIDA. Então, nessa minha versão dela sozinha no castelo, ela não apenas cria os bonecos como eles começam a falar com ela. E ela não tem certeza se eles realmente estão falando ou se é ela enlouquecendo. Ia ser melhor ainda se deixássemos o Olaf para esta cena ao invés de apresentá-lo na jornada da Anna, pois assim a própria audiência ficaria na dúvida da sanidade dela.

Se alguém quiser reclamar da mudança de cor da luz, vai ver o filme frame-a-frame e encontrar imagens melhores, que eu desisti no meio do caminho.

No final das contas, ela realmente cria vida e os bonecos falavam com ela, porque magia. Até ia ser interessante cada boneco representar algum sentimento dela, assim como o Olaf representa o amor que ela sente pela irmã e o Marshmallow o medo que ela tem das pessoas e o desejo de ficar sozinha.

Aliás, pequena observação sobre o Olaf: ele foi uma das grandes surpresas do filme para mim, pois quando eu vi o trailer eu fiquei muito “ai, que bosta de mascote alívio cômico, a Disney tá cada vez mais Dreamworks”, mas ele é bem legal. Acho que é o fato dele ser realmente inocente e levemente tonto que o diferencia, chega de mascotes alívio cômico cínicos ou “personalidade-chata-prankster-que-americano-adora-e-eu-acho-altamente-desagradável”.

Talvez eu goste mais dessa versão esquizo da Elsa só para encaixar ainda mais a minha leitura de “Elsa têm problemas psiquiátricos”, mas ela é melhor que a cena que tem no filme. Que é nenhuma.

Acho que os criadores de “Frozen” queriam evitar confundir os espectadores sobre quem é o personagem principal da história, que é a Anna. Mas, se esse realmente foi o caso, essa foi uma decisão infeliz, porque depressiva ou não, mais Elsa no filme só ia ajudar.

Enfim, chega de fanficar, criando cenas que não existem no filme. Vamos para a que, para mim, é a seqüência mais demonstrativa (tá certa essa expressão?) da depressão da Elsa: quando a Anna chega no castelo.

A Elsa afastar a irmã por conta de finalmente encontrar a própria liberdade não é, em absoluto, um comportamento depressivo. Acho que é até uma coisa humana, querer ficar numa situação de liberdade e rejeitar a alternativa, mesmo que a alternativa venha de uma pessoa que você ama.

Para mim, a parte que mostra a depressão da Elsa, e que é como eu fico quando estou depressivo, é quando ela descobre que o reino congelou e faz aquela cara de “nada do que eu faço dá certo, só sirvo mesmo para arruinar a vida dos outros”. Essa é a hora que vemos que ela não conseguiu se libertar completamente, e que ela ainda tem um senso de responsabilidade (e afeto) por Arendelle.

De qualquer maneira, o que acontece em seguida é muito significativo, pois é um certo resumo de como eu encaro a minha relação com algumas das pessoas mais próximas a mim: elas estendendo a mão, tentando me ajudar, e eu machucando elas.

Acho que foi nessa hora que eu realmente fiquei fascinado com o filme, pois me identifiquei muito com a situação da Elsa. A Anna querendo ajudar e tudo o que a Elsa pensava era “ninguém pode me ajudar, eu só arruino tudo, quero que tudo suma”, ferindo a irmã e em seguida criando um modo de afastar as pessoas (o Marshmallow). Não sei explicar, mas foi muito o apogeu do filme para mim.

E, como todo bom apogeu, em seguida temos a queda.

Depois dessa cena, o filme meio que se perdeu um pouco, na minha opinião. Acho que o primeiro motivo são os ewoks, quero dizer, os trolls.

A seqüência toda da Anna visitando os trolls e a música de como o Kristoff é um partidão me cansou profundamente. Não sei porque, mas cansou. Achei que foi “explicação demais”. Sim, nós já entendemos que o Kristoff vai ficar com a Anna. Por mim, agilizava o processo e conversava logo com o PTPUPTDE para avançar a história. Mas acho que eles queriam vender brinquedos dos trolls.

E temos o ataque à Elsa em seguida. Sinceramente, não tenho muito o que dizer sobre ela. Basicamente, a história precisava da Elsa de volta ao reino, então a história levou a Elsa de volta ao reino. E não estou criticando, só analisando pragmaticamente.

Na verdade, uma observação que eu tenho é que me pareceu que o duque de Weselton e seus capangas foram criados unicamente para essa cena, e mesmo assim eles não são tão necessários assim. Ok, criaram uma ceninha de ação com a Elsa lutando com eles para gerar a cena dela ameaçando matar eles, mas essa cena podia ser de “n” outras maneiras, talvez com a Elsa ameaçando o próprio príncipe Hans ou os guardinhas que o acompanham. Afinal, ela está passando por muito stress nessa hora, não ia ser estranho ela estar tremendamente reativa e, ao se sentir ameaçada, acabasse perdendo um pouco as estribeiras com todo mundo, levando à fala que queriam que o príncipe falasse: “Não se torne o monstro que temem que você é”. Mas acho que precisavam de um “vilão escancarado” para despistar do “vilão surpresa”.

Falando no vilão surpresa, temos então a grande revelação de que o príncipe Hans estava enganando a Anna, que ele é o verdadeiro vilão da história e etc e tal, assim como o Kristoff e a Anna entendendo os próprios sentimentos. Ou seja, o outro tema da história, o “não tenha pressa de se apaixonar”.

E também temos o desenrolar final da história da Elsa, com ela fugindo da prisão e sendo perseguida pelo príncipe mau, com ele culpando ela pela morte da irmã.

Essa hora foi tensa. Faz o “Noooooooooo” do Darth Vader ainda mais patético e ralo, deu pra ver bem a Elsa desmoronando.

Aí chegamos na resolução de tudo, onde o amor entre irmãs, um amor tão verdadeiro quanto o de amantes (costurando os dois temas do filme), salva o dia, com a Anna se sacrificando pela Elsa.

Ok, aqui eu tenho outra reclamação. É óbvio que eu tenho uma reclamação.

O “amor” resolveu tudo rápido demais.

Sim, o “amor” é lindo e é o Deus ex Machina mais comum da história, mas que foi meio “thbpbpthpt” em “Frozen”, foi.

E aqui temos Calvin, re-encenando o final de “Frozen” 

A minha reclamação, vejam bem, não é que o amor resolveu tudo. Mas sim que ele resolveu tudo rápido demais. Faltou um pouco de Hollywood, eu achei. Um pouco mais da Elsa e a Anna de mãos dadas enquanto a Elsa resolvia tudo, sei lá.

Basicamente, eu queria que ficasse mais meloso. E com um pouco mais de Anna. O que é muito estranho, sendo que eu passei esse texto inteiro babando em cima da Elsa. Aliás, o propósito original deste post era falar de como a Elsa é um personagem mais interessante que a Anna, mas mudei de idéia no processo.

Mas acho que isso tem a ver, em grande parte, com a minha projeção na história toda e a visão que eu tenho de depressão em geral, não só da minha.

Eu acho que não é o tipo de coisa que a pessoa só descobre o amor e melhora. Eu acho que é o tipo de coisa onde a pessoa perceber que as pessoas que ela ama e estão ao lado dela vão ficar do lado dela é um passo para ela melhorar. É um processo que vai aos poucos, com altos e baixos no caminho.

Nesse sentido, podemos considerar esse um “alto” da Elsa, mas ainda assim, queria que a mensagem fosse mais completa, mostrando mais como a Anna vai estar do lado da Elsa quando ela precisar. É isso que eu quero dizer com “faltou Anna” no final, e que eu achei que o filme morreu na praia. Se tivesse uma troca de olhar mais profunda, ou mesmo uma certa cara receosa por parte da Elsa seguido da Anna segurando a mão dela, eu já me dava por satisfeito. Mas, do jeito que ficou, achei que deu a sensação de que a Elsa simplesmente se tocou que “ei, amor existe!” e consertou tudo. E depressão não é tão simples assim.

Só que, como já falei, “Frozen” não é uma história sobre depressão. Eu só fiquei projetando tudo. Essa minha última reclamação nada mais é que o fato de “Frozen” não ser exatamente a história que minha cabeça estava criando e ser “só” a história que resolveram contar, e é uma boa história.

Mas talvez isso que torne uma história boa: as pessoas conseguirem se relacionar com ela de diversas maneiras e em diversos níveis. Falem o que quiser da Disney, mas eles conseguem fazer esse tipo de boa história.

Ok, nem sempre.